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O mistério da garrafa

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tiago miranda

Foi descoberta uma garrafa de um ano desconhecido de Barca Velha, o mais famoso vinho de mesa português. Em 64 anos de existência conhecem-se apenas 17 edições. Mas, afinal, podem ser 18. É a história que muda e o negócio também. Falsa ou verdadeira, a garrafa de 1955 é já uma estrela

Ana Sofia Fonseca

Está deitada na penumbra. Indiferente aos olhares curiosos que lhe analisam as curvas, os traços. As marcas da idade. Tiago Paulo aproxima a mão devagar, como quem se prepara para tocar numa preciosidade. Sabe bem que aquela não é uma garrafa qualquer. Aquela é a garrafa mistério. O Barca Velha desconhecido. A colheita que ninguém imagina. O mais mítico vinho português de um ano nunca declarado. Em 64 anos de vida, somente 17 safras merecedoras de rótulo. E 1955 não entra na lista. Tiago segura a garrafa com cuidados dobrados: “Está aqui, leia: Barca Velha 1955!”. O olhar intrigado no rótulo: “Isto é um dos maiores mistérios do vinho português”.

O mistério bateu-lhe à porta numa tarde de inverno. No exato momento em que um homem de cabelo ralo e verbo denso entrou na garrafeira: “Tenho umas garrafas que são capazes de lhe interessar”. Tiago, que há muito aprendera que os melhores vinhos estão onde ninguém adivinha, fez-se ouvidos. No mesmo instante, o homem pôs as cartas na mesa: “O meu pai morreu e deixou-me uns vinhos”. O comerciante duvida do que escuta — um abraço cheio de garrafas de Barca Velha “a belíssimo preço”. O homem, retrato aprumado, acrescenta um ponto: “Até lá tenho um Barca Velha de 1955”. O comerciante adensa desconfianças: “Olhe que esse ano não existe”. Mas o homem não está para discussões: “Estou a dizer-lhe que existe”. Tiago pouco se apoquenta, traz vincada a certeza de que uma garrafa de 1955 só pode ser falsa. Mas os dados estão lançados.

Passado o Dia de Reis, e já o primeiro negócio feito, o homem envia um e-mail ao dono da garrafeira. Ainda por lá tem Barca Velha: cinco garrafas de 64, mais quatro magnum do mesmo ano. Destacada a amarelo, a mais importante das informações: “E uma de 55 que já lhe mostrei”. O comerciante, ainda novato nos vinhos, teme cair num engodo. Desde que comprou 36 garrafas de Pêra-Manca falsas, agarra-se ao lema: “Prefiro não fazer um bom negócio do que fazer um mau negócio”. Cada garrafa partida na calçada, “uma facada no coração”. Quatro mil euros a jorrarem junto ao vidrão. Recusa de novo a garrafa de 1955. Mas o caso não lhe larga o pensamento. A 13 de janeiro de 2014, contacta a Sogrape, empresa detentora da marca. À noite, dá voltas na cama: “Mas que grande mistério...”. Finalmente, em agosto, encolhe ombros a incertezas. Está atrás do balcão quando o homem, advogado de profissão, cruza de novo o umbral da loja: “Aqui está o Barca Velha de 55.” Tiago respira fundo, olhos adrenalina. “Compro.” Negócio fechado, quinhentos euros e um aperto de mão. O mistério a subir de tom.

A sala de provas da Casa Ferreirinha, em Vila Nova de Gaia, começa numa bancada de mármore e acaba numa janela para o Douro. É lá que o enólogo Luís Sottomayor, diretor de enologia, passa os dias. Sempre entre o vinho do Porto e o do Douro, lotes para provar. Nenhuma alquimia lhe dá tantas dores de cabeça quanto o Barca Velha, ou não fosse responsabilidade sem par segurar as rédeas do ícone dos vinhos portugueses. Nasceu envolto em impossíveis, cresceu numa roda-viva de mistérios. Agora, mais um. O enólogo segue-lhe o rasto: “Foi a primeira vez que ouvi falar num Barca Velha desse ano”. Mas há muito perdeu a conta às histórias do vinho: “Parece um romance.” Quantas vezes viu Rodrigues e Ribeiro, tanoeiros de gabarito, jurarem a pés juntos a existência de um padre sem cabeça? Os homens suavam meses no Douro, madrugadas de solidão na adega. Mal deitavam fadigas na Cantina, nome dado à casa dos trabalhadores, a alma penada assombrava-lhes o descanso. Até ao fim dos dias, Ribeiro havia de se emocionar: “O fantasma apertou-me o pescoço com tanta força que quase me sufocou. Foi cá um susto!”.

Por essas e por outras, o mistério da garrafa pouco surpreende Luís Sottomayor: “No arquivo da empresa não há muito sobre o Barca Velha. O senhor Fernando Nicolau de Almeida não tinha o hábito de escrever, só temos o registo das indicações que dava: ‘como de costume tem de se fazer X pipas’. Além disso, ninguém imaginava o sucesso que o vinho alcançaria. Pode ter feito nesse ano e não ter escrito.” O passado é esteira para o presente: “Tudo é possível, era um homem singular”. Como singular foi o vinho que criou. Num tempo em que se bebia zurrapa à mesa e Portugal era apenas sinónimo de vinho do Porto, sonhou um tinto capaz de igualar com os melhores do mundo. Contra todos os saberes, teimou que a Quinta do Vale Meão era o melhor berço. O calor ameaçava parar a fermentação, a falta de eletricidade e o isolamento eram dor de cabeça. Mas as uvas ateavam esperanças.

Mistério Tiago Paulo apostou numa garrafa misteriosa de Barca Velha. O ícone dos vinhos portugueses tem sempre mais procura do que oferta, a produção esgota mal chega ao mercado. A empresa rateia o vinho, privilegiando os clientes especiais. A maior coleção de Barca Velha pertence a um empresário brasileiro, amante de vinhos. Portugal, Brasil, Angola e Estados Unidos da América são os principais mercados. O último Barca Velha data de 2004 
e encontra-se à venda por pouco menos de 
400 euros. Os preços variam consoante o ano 
e o estado da garrafa — as colheitas da década de 60 podem chegar aos mil euros. As mais antigas, nomeadamente a de 1952, são de valor incalculável. Em média, são produzidas entre 
20 a 30 mil garrafas

Mistério Tiago Paulo apostou numa garrafa misteriosa de Barca Velha. O ícone dos vinhos portugueses tem sempre mais procura do que oferta, a produção esgota mal chega ao mercado. A empresa rateia o vinho, privilegiando os clientes especiais. A maior coleção de Barca Velha pertence a um empresário brasileiro, amante de vinhos. Portugal, Brasil, Angola e Estados Unidos da América são os principais mercados. O último Barca Velha data de 2004 
e encontra-se à venda por pouco menos de 
400 euros. Os preços variam consoante o ano 
e o estado da garrafa — as colheitas da década de 60 podem chegar aos mil euros. As mais antigas, nomeadamente a de 1952, são de valor incalculável. Em média, são produzidas entre 
20 a 30 mil garrafas

tiago miranda

Luís entrou na Sogrape ainda o famoso cheirista, assim se chamavam os enólogos antes da chegada dos diplomas, reinava na empresa e já o Barca Velha era rótulo de respeitos. Aprendeu com ele que a sala de provas é lugar sagrado. “Tinha um colaborador que ficava à porta para não deixar ninguém entrar. Os provadores que o acompanhavam não podiam fumar nem usar perfume”. Aprendeu também quanto pesa a decisão de declarar um Barca Velha. “Se houver a mínima dúvida, não leva esse nome”. Até ao momento da decisão, o vinho dá pela graça de Douro Especial. À mínima hesitação, e apesar do rombo no cofre da empresa, é posto no mercado como Reserva Especial. Nos piores anos, não chega sequer à garrafa. Com tantos cuidados como é que pode haver um ano desconhecido?

A resposta é um sorriso admirado no rosto de Francisco Olazabal: “1955? Oh, diabo, isso deve ser falso. Nunca ouvi falar de nada! Não sei que diga, para mim, é uma surpresa.” Trineto de D. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, figura lendária do Douro, somou anos na administração da Casa Ferreirinha, da qual era igualmente acionista. Nos anos noventa, lançou-se numa nova aventura — adquiriu a totalidade da Quinta do Vale Meão e lançou o seu próprio vinho. Mas não há tempo que leve a estação do Barca Velha. A vida fez do cheirista, figura de proa na empresa, seu sogro. Cruzou décadas entre o pai, então administrador, e Fernando Nicolau de Almeida: “O que um tinha de racional, o outro tinha de emoção”. Respira fundo, o pensamento lá atrás: “Colocar à venda e fazer rótulos não passava pelo meu sogro, era função do meu pai. A vida dele era o vinho. Antes de declarar um ano, era um sarilho, muitas provas e contraprovas... Discussões enormes”.

A noite chega vagarosa ao Meão. Ilumina-se a casa, apaga-se o rio. Lá no alto, a capela é a primeira a cair na escuridão. Ouve-se o vinho tombar nos copos, o silêncio da hora. Francisco Olazabal, Vito para os amigos, passeia o olhar pela vinha adormecida. O mistério no pensamento: “Se a garrafa é tão perfeita, teria de ser um bom falsificador. E quem é que se ia dar ao trabalho de falsificar um ano que não existe? Nada disto faz sentido”. Suspira: “1955 foi um bom ano no Douro”. Roda o branco no copo, sorri: “Mais uma história do Barca Velha...” A lua a desanuviar a noite. “Se o meu sogro aqui viesse agora, era capaz de gostar... Antigamente, dizia-se que era mais difícil ir ao Meão do que a Luanda.”

Fernando Nicolau de Almeida detestava subir ao Douro. O seu mundo era a Foz do Porto, ordenada em antigos registos prediais, famílias de pergaminho e costumes ingleses. Sempre que o ofício o forçava a empreender viagem, mudava o retrato. O fato escuro dava lugar a um modelo de linho branco, impecavelmente engomado. O chapéu de feltro trocado por um de palhinha. O cinto substituído por uma gravata do clube de golfe de Espinho. Quando a mulher o acompanhava, era ela quem saltava do carro para inspecionar os odores das pensões — quarto de mau cheiro causava insónia.

Em rigor, o nariz do provador era o altar da família. Em casa, galochas, gabardinas, constipações e amigos de água de colónia duvidosa estavam proibidos. Só o firme propósito do Douro Superior ser o lugar certo para fazer um vinho único o convencia a fazer-se à estrada. Levou anos a ensaiar o seu “vininho”. A cada vindima, as experiências revelavam saberes. Começou a comprar uvas nas terras altas da Meda, mais acidez e menos álcool. Inventou uma espécie de tina para controlar a fermentação. Mandava vir um camião carregado de gelo, a noite inteira a acelerar da fábrica de conservas, em Matosinhos, até ao Meão. Pela primeira vez, um mosto português fermentou à moda de França, um vasilhame fechado a fazer as vezes de lagar. Com tantos cuidados como é que pode haver um ano desconhecido?

Tiago Paulo quer certezas. Continua colado à garrafa — “isto foi o vinho que fez o mundo olhar para Portugal como produtor de vinho de mesa” — levanta-a com prudência, tudo parece verdadeiro. Não há maior interessado em deslindar o mistério, a certificação fará o preço disparar. Já pensou colocá-la à venda por seis mil euros, mas agora até perdeu vontade de a vender. Ao charme do mistério ninguém escapa e até um negociante se apega às coisas. Ainda mais ele, que tem um fraco por antiguidades. Herança da mãe, alfarrabista de profissão, que o levava de feira em feira, dias entretidos em páginas amareladas. “É que parece mesmo verdadeira...” O vidro, a cápsula. Até a inexistência de contrarrótulo — só começou a ser usado em 1978. Até o selo de garantia da Junta Nacional do Vinho, organismo que precedeu o Instituto do Vinho e da Vinha. À primeira vista, a única diferença está no tamanho do ano colocado no rótulo. Luís Alegre, diretor criativo de um ateliê de design e professor na universidade de Coimbra, demora-se nos rótulos: “Não dá para ter certezas. A garrafa de 52 e a de 57 são verdadeiras e o lettering da data é diferente, o que significa que a própria empresa usou diferentes fontes. Em relação ao rótulo de 55, também só o ano é diferente, pode ser apenas mais uma variação. É de facto um mistério”.

Num suspiro, Tiago Paulo volta a colocar a garrafa na vitrina. Dois passos até ao balcão. Começou vida como empregado de mesa, há cinco anos fez-se patrão. Primeiro, comprou um restaurante. Aos poucos, encheu-o de garrafas antigas. O sucesso foi guia de marcha para uma garrafeira. Tem olho para o negócio e “um bocado de sorte”, mal inaugurou a Estado d’Alma, em Alcântara, apareceu-lhe um “negócio da China”. Uma mulher com uma caixa atulhada de garrafas, rótulos conhecidos ao molho. Dias depois, a mulher regressa com o carro pesado de caixas de plástico: “Trazia um monte de garrafas de Barca Velha, a maioria dos anos 60. Pediu-me por tudo dois mil euros, tão pouco que nem regateei”. Horas depois, o negócio revelar-se-ia taluda premiada: “Quando começámos a limpar as garrafas, saiu-me a lotaria!”. No embalo da lembrança, o olhar num sorriso: “Não queria acreditar... No meio, estava uma garrafa de 1952!”. Aproxima-se um funcionário da conversa: “Foi uma festa! Até abrimos champanhe”. O primeiro Barca Velha data de 1952, são raras as garrafas conhecidas dessa safra. Poderá haver algumas espalhadas por colecionadores, certo é que há uma magnum nas caves da Casa Ferreirinha, guardada com deferências de relíquia, e uma garrafa levada a leilão em fevereiro de 2013. “E há a minha”, festeja o comerciante, que nunca imaginara tamanha “honra”. Leva o olhar à garrafa de 1952: “Não tem preço”. Tão-pouco incertezas.

Único Em 64 anos de vida, o Barca Velha conheceu apenas três enólogos e duas quintas. Fernando Nicolau de Almeida sonhou um tinto capaz de igualar com os melhores do mundo e teimou que a Quinta do Vale Meão, a última comprada por D. Antónia Adelaide Ferreira, era o melhor berço. Quando se reformou, passou o testemunho a José Maria Soares Franco que, no início de 2007, deixou a Sogrape e entregou a responsabilidade a Luís Sottomayor, na foto. A venda da Casa Ferreirinha à Sogrape e a aposta de Francisco Olazabal no Meão ditaram a mudança do Barca Velha para a Quinta da Leda, em Almendra. O vinho foi servido pela primeira vez em 1955, no casamento de uma trineta da Ferreirinha, também ela Antónia Ferreira. A noiva ainda não bebia, mas recorda o sucesso, e o rosto admirado dos convidados

Único Em 64 anos de vida, o Barca Velha conheceu apenas três enólogos e duas quintas. Fernando Nicolau de Almeida sonhou um tinto capaz de igualar com os melhores do mundo e teimou que a Quinta do Vale Meão, a última comprada por D. Antónia Adelaide Ferreira, era o melhor berço. Quando se reformou, passou o testemunho a José Maria Soares Franco que, no início de 2007, deixou a Sogrape e entregou a responsabilidade a Luís Sottomayor, na foto. A venda da Casa Ferreirinha à Sogrape e a aposta de Francisco Olazabal no Meão ditaram a mudança do Barca Velha para a Quinta da Leda, em Almendra. O vinho foi servido pela primeira vez em 1955, no casamento de uma trineta da Ferreirinha, também ela Antónia Ferreira. A noiva ainda não bebia, mas recorda o sucesso, e o rosto admirado dos convidados

Arquivo casa ferreirinha

arquivo casa ferreirinha

O mistério repousa ao lado. O rótulo de 1955 continua a moer-lhe as ideias. Faz fé na veracidade, mas não há meio de amanhar respostas. Há uns tempos, atestou o depósito e só parou à porta do escritório de Luís Sottomayor, à beira dos barcos rabelos. Mostrou-lhe a garrafa de 1952 e também a de todas as dúvidas. O enólogo ganhou certezas: “É uma garrafa igual às outras, nada me diz que não seja Barca Velha. Pode ter sido uma experiência, o senhor Nicolau de Almeida andava sempre com invenções.” Detém-se um segundo, dois passos em frente. “É provável que venham a aparecer mais anos...” A suspeita é filha de antigas surpresas. Durante décadas, a Casa Ferreirinha acreditou que a primeira edição de Reserva Especial era 1962, uma dezena de calendários depois da estreia do Barca Velha. A crença caiu por terra no dia em que o crítico de vinhos, João Paulo Martins, apareceu com uma garrafa de 1960. Presença habitual nos leilões de vinho, está habituado a raridades: “Aconteceu com o Reserva Especial e também com o Vinha Grande, o que me leva a pensar que não havia muito rigor nos registos”.

O achado do crítico deixa Luís Sottomayor de sentidos alerta — o Reserva Especial de 1960 tem de chegar às caves da Sogrape. Há um leilão em Lisboa, nada pode falhar. Para não inflacionar o preço, envia António Braga. O jovem enólogo acabara de se fazer seu braço-direito, poucos lhe conhecem o retrato e ainda menos o posto, não há de levantar suspeitas. O rapaz falha a licitação de uma garrafa de 52, mas arrecada uma dúzia de Reserva Especial. Regressa ao Porto num sorriso: “Não me recordo dos valores, mas foi excelente porque estávamos muito admirados com a existência daquele ano”. Luís Sottomayor guarda as garrafas antigas no fresco das caves enquanto pensa rótulos futuros. Tem três colheitas “no forno”, não tarda muito deve anunciar se há um novo Barca Velha ou Reserva Especial. Se declarar Barca Velha, será a 18ª edição. Ou a 19ª?

O mistério cai em França com a força de um relâmpago. “Não me diga! 1955?!” O espanto é de José Nicolau de Almeida, um dos sete filhos do provador e o único que assentou praça na Ferreirinha. Sabe que o calendário viu morrer Einstein, Carmen Miranda e James Dean, mas nunca soube que tivesse parido Barca Velha: “É uma novidade para mim”. Antes de trocar a sucessão segura na sala de provas por uma vida incerta em França, aprendeu um tanto sobre o vinho: “Foi totalmente criado pelo meu pai, até o rótulo [inspirado numa tapeçaria] é ideia dele. Nunca ouvi falar de 1955, mas pode ter sido uma das suas experiências...” Mais uma das suas excentricidades. Os filhos espigaram certos de que o pai “era especial”. A cartilha da época ditava uma certa rigidez e ele esmerava-se. Em pequenos, nunca os miúdos se sentaram à mesa da sala nem nenhuma tropelia ficou sem castigo — falhas na caderneta eram passaporte para colégio interno. Todas as manhãs, o pai acordava-os para uma sessão de ginástica sueca. Aos sete anos, começavam a cheirar vinho. Mas a natureza do provador não rimava com vidas a preto e branco. Para aliviar a educação austera, inventou um irmão gémeo. O tio Eduardo era o oxigénio dos miúdos. Tinha cartão de visita, morada na Baía dos Tigres, em Angola. Escrevia-lhes cartas fantásticas, aventuras em cada linha. Um dia, apareceu de barco a remos na Foz. A liberdade desembarcava em casa. “O que é que o vosso pai não vos deixa fazer?”, perguntava o tio, antes de ordenar pulos no sofá, bolachas e cigarros. A felicidade.

Saudade é a palavra. Maria Luísa Olazabal, a filha do provador que casou com o trineto da Ferreirinha, levou a mesa de casa dos pais para o Meão. Está no armazém da Barca Velha, encostada aos balseiros. São cinco metros de comprimento, lugar para filhos, genros, noras e netos. Foi o pai quem a mandou construir quando a prole ganhou palmos para alinhar na vida. A rigidez dava lugar ao companheirismo. Volta e meia, inventava jantares temáticos. Ficou famoso o medieval, todos vestidos a rigor, mãos em vez de talheres, ossos atirados para o chão. À sobremesa, seguia-se a dança — sem regras nem pares certos, uns com os outros. Fernando Nicolau de Almeida tanto apreciava a Idade Média que encheu a casa de férias, em Afife, de ameias e canhões. Construiu uma piscina em forma de T — só para ele, só para deitar o corpo na água e abrir os braços. Maria Luísa passa as mãos pelo tampo de madeira: “Que saudade...”

Tiago Paulo acabou de abrir a segunda garrafeira. Enquanto espera pelos primeiros clientes e ordena os últimos preparativos, arruma as suas preciosidades. Lado a lado, o Barca Velha de 1952 e o de 1955. Ajeita o protetor de rótulo na primeira, demora o olhar na segunda. De tanto comprar e vender vinho, aprendeu a distinguir garrafas. Ainda há meia dúzia de meses, uma leiloeira pediu-lhe para observar dois Barca Velha de 85: “Não eram verdadeiros. A falsificação é incrível, há muita gente que tem vinhos falsos em casa.”

O assunto está na lista de prioridades da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE). No início do ano passado, Domingos Antunes, inspetor responsável pela unidade de investigação criminal, apreendeu 110 garrafas falsificadas de Barca Velha e Pêra-Manca, no âmbito da “Operação Premium”. A contrafação é um crime semipúblico, exige que a marca apresente queixa e que os seus peritos atestem a não veracidade do produto. O inspetor tem ideias claras: “O cenário de contrafação fez com que as marcas desenvolvessem mecanismos de proteção. Nas colheitas recentes, os rótulos têm um número que funciona como bilhete de identidade, por exemplo. No caso das garrafas antigas, é mais difícil detetar”. Cruza as mãos, as ideias: “Os Barcas Velhas mais falsificados são o 2000 e o 2004”. Pedro Portugal Gaspar, inspetor-geral da ASAE, tem a “Operação Premium” na memória. “A imagem que as pessoas têm de contrafação é de peças de vestuário nas feiras, mas esse tempo já lá vai. Hoje, assistimos à falsificação de bens económicos de valor acentuado, como é o caso dos melhores vinhos portugueses. Não se trata de um fenómeno único, há muito acontece com os champanhes e com os vinhos franceses”. No seguimento da “Operação Premium”, a ASAE abriu uma nova investigação. A “Operação Premium II” investiga agora a suspeita de venda de garrafas falsas em plataformas online. O inspetor-geral traz o assunto estudado: “A contrafação está a mudar, tem novos produtos e novos palcos”.

Às voltas na garrafeira, Tiago Paulo procura certezas. Está cansado de andar para trás e para a frente, não há meio de saber se põe protetor de rótulo na garrafa de 1955. “A Sogrape diz que é verdadeira, mas ainda não vi escrito em lado nenhum que, afinal, há 18 edições de Barca Velha. Continuamos neste impasse.” Na sala de provas, o enólogo Luís Sottomayor demora o olhar no rio. Da margem de Gaia à do Porto, do passado ao futuro: “Provavelmente, 18 é o número certo. Ainda não mudámos a versão original porque não temos nenhum registo desse ano. Se aparecerem mais garrafas, teremos de refazer a história”. O mistério estará então resolvido. A garrafa de 55 ganhará protetor de rótulo. Até lá, o destino em jogo. Sempre entre a prateleira de honra e o vidrão. Entre a vida e a morte, como as personagens dos melhores mistérios.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016