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E toda a Jerusalém com eles

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ORIGENS. Gravura de Lisboa do século XVIII, da Biblioteca Nacional de Portugal. Foi esse o ambiente encontrado pelos Mendes Benveniste e que lhes permitiu expandir o poderio económico

A importância de uma família judia através dos séculos, preservada pela investigação portuguesa. Os Mendes Benveniste encontraram em Portugal um espaço certo para manterem a memória acesa, ligando passado e futuro

Sem hesitações. Foi assim, que no labirinto de volumes da livraria Buchholz, em Lisboa, Monique Benveniste apanhou o pequeno exemplar de lombada azul. Um livro fino, com um título pouco sedutor — “Capitais e Capitalistas no Comércio de Especiarias”. Mas que, para ela, se revelou precioso, fundamental.

Falava dos seus ancestrais, assunto demasiado sério para quem sabe que o apelido é uma herança determinante e que as origens geográficas podem salvar vidas. Ditar destinos. Monique pertence à família Mendes Benveniste, que conseguiu salvar-se dos campos de concentração nazis por ter um passaporte português. Por ser herdeira de Sefarad.

Monique, o pai, a mãe e o irmão Serge chegaram a Lisboa, em 1943, vindos de França. Ela ainda vive cá, o irmão está na Suíça. Mas, para eles, a geografia ultrapassa o significado de uma morada. A geografia é um momento de um percurso que começou antes deles e para além deles deverá perdurar. Faz parte da memória, essa sim essencial.

Passaram-se 20 anos desde que Monique apanhou aquele livro de António Marques de Almeida e, desde então, um projeto raro mantém-se firme numa pequena sala, no fim de um corredor da Faculdade de Letras, na Universidade de Lisboa: a Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste.

O núcleo nasceu e desenvolveu-se como uma homenagem ao pai de Monique e Serge e, com ele, trouxe não só os estudos sobre a comunidade judaica ibérica, mas toda a Jerusalém, numa referência à epígrafe da mais recente obra deste centro de estudos: “Mendes Benveniste — Uma família sefardita nos alvores da Modernidade.” Contudo, para aqui chegar foi preciso vontade. E ação.

Primeiro, um telefonema de Monique Benveniste a António Marques de Almeida. Depois, foi necessário consultar a reitoria e, só então, o projeto deixou de estar destinado a ser criado na universidade francesa de Sorbonne e acabou por nascer em Lisboa. Mais uma vez, a geografia impôs-se. “A família ponderou que Alberto Benveniste ficaria muito agradado se o centro fosse criado em Portugal”, explica o professor Marques de Almeida, primeiro diretor da cátedra.
Protegido por um protocolo entre a família e a faculdade, renovável a cada cinco anos, o centro tem promovido a realização de colóquios e a publicação de vários estudos e uma revista anual sobre a comunidade sefardita. Sobre quem? Os judeus oriundos da Península Ibérica, a mítica Sefarad.

A raiz está na terra

MEMÓRIA. O investigador norte-americano Jonathan Israel, e os irmãos Benveniste, Monique e Serge, na sala da cátedra, na Faculdade de Letras

MEMÓRIA. O investigador norte-americano Jonathan Israel, e os irmãos Benveniste, Monique e Serge, na sala da cátedra, na Faculdade de Letras

nuno botelho

A família Mendes Benveniste terá chegado a Portugal em 1492, vinda da zona de Aragão, em Espanha, fugida do édito de expulsão dos reis católicos Fernando e Isabel. Aqui ficaram até 1536, quando a cobiça do rei D. João III sobre a herança de Francisco Mendes e a decisão de que os judeus que quisessem permanecer no reino se convertessem em cristãos novos os fez partir.

O livro “Mendes Benveniste”, ontem apresentado no âmbito do seminário sobre os vinte anos da cátedra, revela mesmo isso: o percurso de uma família, que, transportando uma herança, soube preservá-la.

Como explica no prefácio Maria de Fátima Reis, atual diretora da cátedra, os locais de passagem dos Mendes Benveniste revelam o traço característico das comunidades da diáspora sefardita: “o saber fazer e refazer constantes.” E é esse incessante recomeçar em distintas paragens que nos conta a obra. De Espanha a Portugal, partindo para Antuérpia e Ferrara até chegar a Constantinopla, onde a identidade judaica pode finalmente se expressar de forma livre e assumida.

Na obra, coordenada por Susana Bastos Mateus e Carla Vieira, a já referida epígrafe é misteriosa — “et totta Hierosolima cum illa”, ou seja, como nos traduz uma das coordenadoras, significa “e toda a Jerusalém com ela”. Ela é Beatriz de Luna ou Gracia Nasi, mítica personagem judaica que conquistou o apelido Mendes Benveniste ao casar-se com Francisco Mendes, patriarca original desta família.

Em pleno século XVI de tantas descobertas, Francisco constitui-se como uma das principais referências comerciais das especiarias, sobretudo pimenta, e na entrega de metais preciosos, especialmente prata, na Casa da Moeda. Tal era a pujança da família, que acabaram por ser convertidos em financiadores da Corte portuguesa.

Até Constantinopla

Mas como nem tudo o dinheiro garante, com a morte de Francisco Mendes em 1535 e a ameaça do estabelecimento da Inquisição em Portugal, a família tem de abandonar Lisboa.
Em Antuérpia, a família, composta então por Beatriz de Luna e a sua filha Ana, e ainda Brianda, irmã de Beatriz e dois sobrinhos, vai-se reunir à volta de Diogo Mendes, irmão de Francisco, que para lá se dirigira com o objetivo de, no centro da Europa, distribuir as especiarias, valendo-se da riqueza da cidade.

Com Beatriz seguia uma fortuna de 300 mil ducados em ouro. Brianda acabaria por casar-se com Diogo em 1539, mas ele morreria passados apenas quatro anos. Curioso é que, no testamento, o comerciante deixa a herança não sob responsabilidade da mulher, mas da cunhada, Beatriz de Luna. Bastaram depois dois anos para que os Mendes Benveniste voltassem a partir, desta vez, rumo à Península Itálica, primeiro para Veneza, onde as duas irmãs acabam por separar-se, partindo Beatriz para Ferrara, com a filha.

Em 1557, finalmente a “Senhora”, como Beatriz de Luna ficaria conhecida na memória judaica, entra em Constantinopla, cercada de fausto. Muda de nome para Gracia Nasi e passa a agir de forma a transformar-se na matriarca dos judeus da diáspora. Contribui para a construção de sinagogas, apoia judeus em fuga e consegue até o beneplácito do sultão para estabelecer judeus em Tiberíades, onde terá morrido, por volta de 1569.

O livro finda, explicando que nos séculos seguintes, a família Mendes Benveniste “sofre praticamente um ocaso na memória coletiva”. Tornam-se apenas raras referências na literatura e nas artes. Mas, naquele corredor lateral da Faculdade de Letras, continuam a ser alvo de estudos, projetando a sua história para o futuro. Ou, como explica Carla Vieira, recuperando a epígrafe escolhida para a apresentação do livro, “mais do que para ‘a Senhora’, a afirmação carrega o peso da família Benveniste através da história sefardita.

Entrevista a Jonathan Israel

“Os sefarditas criaram ligações políticas que transcenderam as nacionalidades e a religião”

INVESTIGAÇÃO Jonathan Israel na Faculdade de Letras, em Lisboa

INVESTIGAÇÃO Jonathan Israel na Faculdade de Letras, em Lisboa

nuno botelho

O investigador norte-americano falou hoje em Lisboa sobre a “Diáspora sefardita no Atlântico (1500-1800)”. Professor da School of Historical Studies, em Princeton e autor de obras incontornáveis da historiografia na área, como a trilogia que o consagrou como um dos maiores especialistas mundiais no estudo do Iluminismo e dos fundamentos da cultura contemporânea — “Radical Enlightenment” (2001), “Enlightenment Contested” (2006) e “Democratic Enlightenment” (2011) —, conversou com o Expresso sobre a identidade serfardita. E anunciou que o seu próximo livro será justamente sobre a influência do secularismo da herança judaica sefardita na Modernidade.

Quem são os sefarditas hoje, já que Portugal concedeu recentemente a possibilidade de os descendentes recuperarem a nacionalidade portuguesa?
Os descendentes dos sefarditas são pessoas presentes, e relevantes, em vários países, para além de Portugal e Espanha. Estão na Alemanha, em Hamburgo, em França, na Holanda, no Reino Unido, no Brasil, nos Estados Unidos e nas Caraíbas. Deram a estes destinos uma contribuição enorme em termos económicos, mas, sobretudo, em termos de comunicação e criação de rede de contactos. Criaram ligações políticas que transcenderam as nacionalidades. Os judeus sefarditas da diáspora tiveram contributos enormes para o desenvolvimento económico dos destinos para onde foram. Souberam dialogar com muçulmanos e com protestantes. Em Portugal e Espanha, alguns fizeram-se cristãos-novos. Souberam transcender o aspeto religioso e, assim, alargaram a sua influência.

Esta natureza dúplice, marcada pela necessidade de dissimulação, está na raiz deste comportamento?
Sim, uma mesma família tinha comportamentos distintos conforme o contexto em que se encontrasse. Como os Nunes da Costa, que eu estudei e são de origem portuguesa. Foram muito importantes em Hamburgo, Holanda, Curaçao, Venezuela. Um bispo em Tucumán, na Argentina, era descendente desta família! Os arménios tiveram comportamentos semelhantes, mas nunca souberam ou conseguiram ter esta influência transatlântica.

Apenas os sefarditas?
Sim, é única esta capacidade de fazerem-se globais, cruzarem religiões e culturas, ligando o Velho e o Novo mundos. Estiveram presentes nas expedições de Cristóvão Colombo. Foram determinantes.

Então a diáspora foi essencial?
Não digo essencial, mas foi muito importante nesta capacidade de formar as ligações de negócios entre os continentes e entre as diferentes religiões. É característica dos sefarditas esta capacidade de dialogar com quem não é da mesma comunidade.

E quem são eles hoje?
São um grupo muito importante em Israel. São pessoas que ainda preservam a língua original, o ladino. Como Serge Benveniste, que ainda fala ladino. A língua foi uma forma importante de manter o laço com as origens.

E o que os separa dos ashkenazi (judeus originários da Europa Central)?
As comunidades separaram-se no início da Modernidade, mas, mais do que os ritos religiosos, é a secularidade que marca os sefarditas. A sua capacidade de se integrarem no mundo ocidental. Sempre tiveram uma posição de protagonismo, sobretudo na área económica, até à Revolução Francesa, quando a pujança económica passou para os ashkenazi e banqueiros como os Rothschild. Não é que a religião não tivesse uma importância tremenda para os sefarditas, mas eles souberam dialogar e estabelecer relações com representantes e comunidades de outras religiões.

Esta decisão dos governos de Portugal e Espanha é importante?
Sim, é simbólica do maior secularismo. Eles foram rejeitados nestes países por razões religiosas e, como este motivo deixou de ser importante, podem voltar. E para eles é muito importante regressar, pela relação à língua que nunca esqueceram e que foi a língua materna deles até muito tarde.