Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Castigar faz sentido?

  • 333

Zigy Kaluzny

Fixar limites é fundamental na educação de qualquer criança. O castigo é eficaz nessa aquisição? O neuropsicólogo Álvaro Bilbao defende que não

Nenhum pai gosta de pôr um filho de castigo, mas muitos desconhecem outra forma de impor limites. O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, que lançou agora o livro “O Cérebro das Crianças Explicado aos Pais” (tradução em português prevista para setembro), oferece alternativas — e explica porque as suas propostas funcionam melhor no comportamento infantil. Álvaro tem uma longa experiência no currículo profissional — é neuropsicólogo no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore (EUA), doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade de Deusto (Bilbau), já colaborou com a OMS e trabalha atualmente no Centro Estatal de Referência de Atenção ao Dano Cerebral, onde ajuda pessoas com danos cerebrais a recuperar a memória.

Também tem currículo pessoal: tem três filhos, de 6, 4 e 2 anos — ou seja, não fala de cor. “Em seis anos de paternidade, castiguei os meus filhos duas vezes. A mim, os meus pais castigaram-me algumas mais. Não tenho dúvidas de que o ‘meu’ método produz melhores resultados. Os castigos demonstraram ser menos eficazes em várias investigações. O cérebro não aprende assim”, garante.

A tese de Bilbao é simples: “Quando castigada, a criança ativa a região cerebral do medo, e isso faz com que não preste atenção e não aprenda. Além disso, os castigos geram culpabilidade e danificam a relação entre pais e filhos. A melhor maneira de ensinar é reconhecer e reforçar quando a criança age bem.” Resumindo: a recompensa é mais eficaz do que o castigo. “Se uma criança se levanta sempre da mesa e a põe de castigo, espere que ela passe 10 minutos sem se levantar e diga-lhe: ‘Muito bem! A mamã/o papá está muito contente contigo!’”

O neuropsicólogo escreveu este livro para munir os pais de ferramentas para educarem melhor. “Educar é muito mais simples a partir do momento em que se percebe como funciona o cérebro de uma criança. Este precisa de equilíbrio entre amor e regras, entre proteger e deixar que uma criança seja independente.” Mas como fixar limites? “O limite põe-se antes que a criança se porte mal”, explica Bilbao. “Prevenir é melhor do que corrigir. O difícil na questão dos limites é saber como pô-los e estar atento ao comportamento da criança, para o prevenir.” Esta é uma das opções que Álvaro Bilbao propõe para aplicar limites sem castigar. “Se sabemos que um menino costuma morder a irmã, devemos dizer-lhe: ‘Agora vão brincar, mas é proibido morder ou bater.’ Depois, os pais devem estar atentos aos momentos em que a criança esteja cansada ou frustrada”, para que não ceda ao hábito.

Dá outro exemplo: “Alguns amigos do meu filho de 5 anos tendem a bater ou a insultar. Quando os convidamos, digo-lhes: ‘Aqui não se bate nem se insulta.’ Explico-lhes que se não respeitarem essa regra regressarão a casa deles. Nunca tivemos de mandar ninguém embora. Se não cumprirem, sofrerão a consequência — mas isso é diferente de um castigo.”