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Peças, postais, autógrafos,vinho do séc. XVIII ou pintura contemporânea ganham nova vida nos leilões online e nas lojas em segunda mãoPeças, postais, autógrafos,vinho do séc. XVIII ou pintura contemporânea ganham nova vida nos leilões online e nas lojas em segunda mão

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É como um encontro às cegas. Num dia pode estar uma ilha à venda por um euro, noutro um quadro de Vieira da Silva que começa a ser licitado nos 50 mil euros, a seguir um iate que sobrou nas partilhas de um divórcio, um vinho do Porto de 1790, aparadores com design nórdico dos anos 70, estimados em €50, o relógio de uma antiga estação de comboios ou o banco de um autocarro da Carris. Comprar em segunda mão é uma tendência que cresce, muito impulsionada pelos sites de leilões, cuja variedade parece ilimitada. Na época em que o experimentar vale mais do que o ter, as compras assumem outra dimensão. Procura-se um equilíbrio entre a relação qualidade preço. As coisas já não duram para sempre e têm de ser diferentes, só nesse caso é aceitável pagar um pouco mais do que numa loja convencional. É por isso que os leilões se tornaram uma opção mais económica. Adquirir algo que já foi de alguém é também procurar a originalidade. Cada objeto vale por si, conta uma história, tem um passado.

Num gigantesco armazém em Matosinhos, Aníbal Pinto Faria, um jovem empreendedor de 30 anos, tem um pouco de tudo para encher um lar. Do mais antigo ao mais moderno. A segunda mão não tem, necessariamente, de ser vintage. Nos leilões do P55, um projeto que Aníbal criou também na internet, encontra-se muita coisa. Os preços começam nos dez euros mas podem chegar aos milhares. Tudo depende da procura que o objeto que está a ser leiloado terá. Há mesas, cadeiras, camiseiros, telefones que se costumam encontrar nas lojas de segunda mão, mas também há telas de Helena de Medeiros ou Cargaleiro. “A pintura contemporânea, os novos artistas, é o que mais se vende. Trabalhamos para um segmento de idades que vão dos 30 aos 78”, conta Aníbal.

Uma das novidades do P55 é a vertente online. A facilidade e simplicidade de estar à distância de um clique funciona na segunda mão. Uma área que levou um empurrão com a Invaluable, uma plataforma que agrega lojas como o P55 ou a sofisticada Sotheby’s. A Invaluable representa na internet o requinte e exclusividade das leiloeiras, mas com um ar mais moderno. Todas as licitações são feitas online e os preços chegam, facilmente, aos milhares de euros. Como a tela com a imagem de Santa Catarina assinada por um discípulo de Caravaggio que pode chegar aos €3500. Já um conjunto de 42 postais da II Guerra Mundial terá um teto máximo de €253. A partir de €12 é possível obter uma fotografia autografada de Bette Davis, Benny Hill, Marlene Dietrich ou Bing Crosby.

Não há um perfil definido de quem compra. São pessoas à procura de produtos originais e bons preços. E muitos colecionadores. Esses têm no BestNet a sua Meca. Fundado em 2012 por um negociante e um antiquário há 25 anos no mercado, cada leilão dura dez dias e, em caso de dúvida, o interessado pode deslocar-se ao salão no centro de Lisboa. A xilogravura “Os Pastores”, de Júlio Pomar, está em €90. Um nu feminino desenhado por João Cutileiro está a ser licitado por €80. O Anuário do Supremo Conselho do 33º Grau do Rito Escocês da Maçonaria, de 1909, está nos €40. Objetos raros que antes só poderiam ser encontrados em antiquários. Se o foco do interesse for só mesmo livros, pintura, gravuras, serigrafias ou fotografias, então o Artbid é incontornável. Maluda, Júlio Resende, Cargaleiro e Joana Vasconcelos costumam ter presença marcada. Já os interessados em tecnologia têm o Tecnobid, especializado em computadores e smartphones, mas agora anda por lá uma piscina jacuzzi, avaliada em €7800, mas ainda ninguém deu mais que €200 por ela.

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Transpor os leilões para o mundo online não se limita a torná-los mais acessíveis aos habituais compradores, abre o leque a eventuais interessados e curiosos que jamais entrariam num antiquário. “Visitei muitos projetos de venda em segunda mão no estrangeiro, mas em alguns deles até tinha medo de entrar por não estar bem vestido. Quero que este seja um conceito mais abrangente. Quero ser um IKEA em segunda mão.” A ideia surgiu da necessidade. Os avós morreram e havia que escoar todos os objetos que tinham acumulado durante anos. Aníbal veio de Madrid para ajudar os pais e os tios a fazê-lo e aí, em 2012, começou-se a desenhar o P55. Inspirado no que se faz nos países nórdicos, Aníbal criou um site para funcionar “24 horas por dia, 7 dias por semana, e ser transparente como um banco”. Torna-se mais rápido fazer negócio, quem se quer desfazer de algum objeto entrega-o ao P55 e, se for vendido, receberá o lucro mediante um pagamento de uma comissão de 18,45%. Isto, no entanto, não significa que se aceite tudo. “A nossa aposta baseia-se no meu gosto pessoal, uma mistura entre moderno e antigo. Por exemplo, numa sala pode ficar uma mesa de vidro e linhas direitas e uma papeleira do séc. XVIII.”

O aumento do interesse dos portugueses trouxe a Catawiki, uma startup holandesa que está hoje presente em sete países europeus, para Portugal. Todas as semanas fazem, pelo menos, 300 leilões. De objetos tão variados que vão de meteoritos a casacos Armani. Entre os lotes especiais desta semana, destaca-se a arte contemporânea. As gémeas, duas estatuetas fruto de uma parceria entre o artista KAWS e grafiter Todd James, estão a €320 mas com o preço a subir à medida que o leilão avança.

Comprar, restaurar e vender

No Cantinho do Vintage, em Lisboa, o nome não deixa espaço para dúvidas. Em quatro anos, aquilo que era um hóbi de um casal transformou-se num negócio com uma equipa que vai da carpintaria à assistência pós-venda, que liga para saber se correu tudo bem. “Trabalhamos em três áreas de negócio: a venda a particulares, para a hotelaria e restauração e, o mais recente, a compra e recuperação de apartamentos para vender”, explica Carlos Silva. Com frequência viaja para o norte da Europa à procura de peças para importar. As viagens maiores, cujo resultado enche o contentor de um avião, dão origem a vendas de garagem. Antes, vai mostrando nas redes sociais e no site “bocadinhos das peças” que estarão à venda, depois de serem recuperadas e ligeiramente transformadas.

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O vintage lidera nas lojas de segunda mão. A Muito Muito, o Vintage Department e o Atelier Autêntico são três exemplos recentes. Vêm responder aos pedidos da procura. Luís Ferreira Magos entretinha-se, nos tempos livres, a restaurar artigos antigos ao pé da sua agência de modelos na Lx Factory, em Lisboa. Quem passava gostava, perguntava e voltava para comprar. O seu playground transformou-se na sua profissão. “A Muito Muito não tem objetos vintage, tem peças que podem transportar quem as compra para uma memória. Quem é filho de um marceneiro pode gostar de ter uma fita métrica, por exemplo”, conta Luís.

A originalidade para os pedidos não tem fronteiras. Carlos Silva já teve clientes à procura de bancos de avião, de carruagens de comboio, mas o que mais lhe pedem são bancos e cadeiras. “Procuram-nos com pedidos específicos e para nos pedirem orientação.” Desde que percebeu a expressão da procura, Carlos Silva deixou o emprego de 18 anos numa auditora e entregou-se a tempo inteiro ao Cantinho do Vintage. Em quatro anos passou do jardim de sua casa, para um espaço de 70 m2 e agora está prestes a inaugurar um novo com 6000 m2.

Um sucesso que os leilões da Oportunity foram os primeiros a perceber. Desde 2006 que leiloam, através da internet, tudo o que possa ter uma segunda vida. Uma lamparina asiática feita de ouro foi comprada por €109 mil. Uma tela de Júlio Pomar chegou aos €50 mil. Um relógio Rolex foi vendido por €9 mil. O céu é o limite.

Moradas

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P55

Invaluable

Tecnobid

Catawiki

Best Net

Artbid

Muito Muito
Rua Rodrigues de Faria, 103, Lisboa

Cantinho do Vintage
Avenida Infante D. Henrique, Armazém 2, Lisboa

Atêlier Autêntico
Beco da Rosa, 2C e 2D, Lisboa

Vintage Department
Rua da Escola Politécnica, 42 — Loja 15 e 16, Lisboa

Artigo pubicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016