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Curar a memória

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alberto frias

É uma viagem ao passado da medicina portuguesa. Há registos de pacientes dos séculos XIX e XX, a mesa onde Egas Moniz fez a primeira angiografia e um hospital de há cem anos, intacto, numa cave dos Capuchos. O ministro da Saúde quer juntar tudo num Museu da Saúde, a abrir no dia 15 de setembro

Alberto Frias

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A letra é miudinha, até cuidada, mas definitivamente há ali algo que faz lembrar a de um médico. “J.Q., 53 anos, que não sabe onde mora!!! Veio à consulta com uma balano postite [inflamação do prepúcio] e quem lhe pegou foi uma gaja da Rua do Carmo por 300 reais!!! E como bom filho à casa torna, voltou em 18/1/1898 com a mesma coisa.” As folhas do livro estão amarelecidas, gastas, com algumas imperfeições. “R.J., 23 anos. É virgem (o que não admira, porque é horrorosamente feia). Diagnóstico: perfuração do palato mole, syphilide crostosa”; Os protagonistas não têm nome, vivem através de iniciais. “M.J.D.P., 32 anos, creada de servir. Em abril p.p. um Doutor que estava doente meteu-se com ela e pegou-lhe os males. Diagnóstico: Roséola [vírus da família dos herpes].”; A tinta é preta e às vezes deixa marca no papel. “F.C.P., costureira. Diagnóstico: Syphilis. 9/10/1905. Não fez tratamento e admira-se de não estar já boa.” A letra é miudinha, cuidada. É a letra de um médico — não de um jovem médico, mas de um médico experiente.

As anotações foram feitas por Thomaz de Mello Breyner, ou por alguém da sua equipa, que em 1897 começou a dirigir, no Hospital do Desterro, em Lisboa, a consulta que na época se chamava Moléstias Shyphiliticas e Venéreas. Era aqui que se tratavam as doenças sexuais que naquele tempo atingiam os portugueses. Os comentários estão nos nove livros de registo de consulta de Mello Breyner, do período entre 1897 a 1909. O médico era avô de Sophia de Mello Breyner e bisavô de Miguel Sousa Tavares. E fazem parte de uma coleção sobre dermatologia que existe no salão nobre do Hospital dos Capuchos. O passado da saúde e da ciência portuguesa está espalhado por salas, caves e sótãos em toda a cidade. São verdadeiros postais de um país tão diferente e, ainda assim, tão igual. Peças e memórias que em breve deverão integrar o Museu da Saúde que o Governo quer lançar em setembro de 2016.

Através da coleção de dermatologia descobre-se como foram os tempos em que Portugal viveu afundado na sífilis e noutras doenças venéreas. Os doentes eram em grande parte das classes mais baixas, como domésticas, costureiras, operários e operárias, artesãos, amas de leite e prostitutas e no início tratou-se os infetados com mercúrio, em fricções, e depois com injeções de óleo cinzento (suspensão de mercúrio em azeite). Percebe-se também a enorme esperança que se viveu em 1910 com a descoberta de um medicamento feito com arsénio (Salvarsan) e que ficou conhecido como “606”. Foi usado pela primeira vez no país numa mulher de 26 anos chamada Valéria, mas com o tempo veio a tornar-se perigoso devido aos efeitos adversos. E consegue imaginar-se o terror que se sentia com a rapidez da propagação da doença que matou 12 milhões de pessoas no mundo, atingindo famílias inteiras.

Em março de 1898, chegou ao Desterro uma doméstica, de 50 anos, residente na Rua dos Remédios, em Alfama, com sintomas de sífilis. Bastou pouco tempo para que os médicos fizessem o mesmo diagnóstico a todos os familiares que viviam no mesmo prédio daquele bairro lisboeta. O marido, um serralheiro de 47 anos; a filha, também doméstica, de 29; a nora, uma operária de 19; o genro; o neto; e a neta — todos estavam infetados. O contágio terá começado quando uma vizinha, com sífilis, amamentou um destes miúdos aos cinco meses. Este passou a doença à mãe quando nela mamou e à avó quando esta usou uma colher já utilizada pelo bebé. Ela e a filha transmitiram aos maridos a praga, que naquele mesmo ano se ficou a saber ser causada pela bactéria treponema pallidum, quase invisível ao microscópio. A história é relatada no livro “Clínica Arte e Sociedade: a Sífilis no Hospital do Desterro”, do Instituto de Ciências Sociais.

Pelos registos percebe-se também que já há 100 anos se falava de indemnizações por acidentes de trabalho. Numa carta que Mello Breyner juntou ao seu livro de consultas, pode ler-se que uma ama de leite da Santa Casa da Misericórdia, de 30 anos, que em 1903 ficou internada e gravemente doente com sífilis, conseguiu, devido à intervenção do médico, uma compensação financeira da instituição por ter sido infetada por um dos bebés enquanto trabalhava.

Ao lado de um destes livros de registos de consulta, numa vitrina colocada naquele salão nobre, estão dois objetos importantes: um microscópio oferecido pelo Rei D. Carlos a Mello Breyner e uma fotografia do médico com o seu amigo Luís Grandela, dono dos Grandes Armazéns do Chiado. Foram eles que ajudaram o clínico quando tentou montar um laboratório e depois melhorar o serviço que passou a dirigir a partir de janeiro de 1906: a enfermaria de Maria Magdalena, exclusiva para prostitutas. Na época, eram chamadas de “meretrizes”, “toleradas” (por serem de casas de tolerância, isto é, bordéis) ou “matriculadas”, por terem um número atribuído pelo Governo Civil. Entre 1902 e 1906, deram entrada naquela enfermaria 1282 destas mulheres, com uma idade média de 21,8 anos. Os dados das admissões mostram também que, entre as 100 estrangeiras, 91 eram espanholas. Mas os 30 romances, encadernados e em francês, para as meretrizes lerem, que Mello Breyner deixou no seu espólio com o carimbo da enfermaria de Santa Magdalena dão sinal de que o número de mulheres vindas de França foi aumentando. A confirmação está na nota estatística existente no arquivo de medicina legal: em 1926, existiam 2547 matriculadas e, das 59 que viviam em Lisboa, 40 já eram francesas e 15 espanholas.

Nobel. A mesa onde 
Egas Moniz realizou 
a primeira angiografia, 
em 1927, está no Hospital de Santa Marta. Durante anos o médico fez uma investigação clandestina

Nobel. A mesa onde 
Egas Moniz realizou 
a primeira angiografia, 
em 1927, está no Hospital de Santa Marta. Durante anos o médico fez uma investigação clandestina

alberto frias

Mello Breyner morreu em 1933, sem assistir à revolução feita em 1942 com os antibióticos de penicilina, descoberta pelo bacteriologista escocês Alexander Fleming 12 anos antes e que permitiu a cura da sífilis. Os seus sucessores começaram por se mostrar desconfiados quanto à eficácia e segurança do novo tratamento. “É preciso, porém, não nos deixarmos arrastar por prejudiciais entusiasmos. Não esqueçamos a pitoresca frase de Stokes...: ‘O nosso conhecimento base da penicilina tem a particularidade do queijo Gruyère, mais buracos que substância em muitos sítios’.” O discurso foi feito por Luís de Sá Penella (que sucedeu a Mello Breyner e se tornou diretor do serviço de dermatologia do Hospital do Desterro), numa conferência em outubro de 1945. Apesar das desconfianças, os médicos acabaram por se render à descoberta.

Nessa altura, já Sá Penella e o diretor do mesmo serviço, mas do Hospital dos Capuchos, Caeiro Carrasco, tinham iniciado uma coleção de figuras de cera sobre as principais e mais perigosas doenças de pele que existiam nos anos 40 em Portugal. São 266 peças, de várias partes do corpo, desde mãos às partes mais íntimas, onde de forma realista se percebe o horror daqueles males, que hoje, fruto da evolução da medicina, já quase não existem. Com o doente vivo, colocava-se o gesso, que, ao secar, tornava-se o negativo da lesão. Depois, introduzia-se uma mistura de cera em fusão e pintava-se. O trabalho seria feito por alunos e professores de belas-artes que também costumavam ir às escolas médicas aprender anatomia para a aplicarem nos seus trabalhos artísticos. Parte delas foram criadas por Joaquim Barreiros, professor da Escola de Belas-Artes e escultor da fábrica de porcelana da Vista Alegre, e pintadas, de forma a reproduzir as manchas da pele, pelo pintor naturista Albino Cunha. No fim, eram aplicados cabelos, pelos e até olhos artificiais às peças. Cada uma era envolta em pano pregueado, fixada num suporte de madeira e numa etiqueta era indicada a doença em causa. Estão atualmente em exposição e mostram problemas como gomas sifilíticas, estádios avançados da doença de Nicholas Favre, algumas formas de tuberculose cutânea e alterações dermatológicas provocadas por arsénio inorgânico. Foram mandadas fazer entre 1935 e 1945 e, dez anos depois, foi criada a primeira versão desta exposição no Desterro. Em 2007, foi salva pelo médico João Fernandes Rodrigues, que com o anúncio do encerramento deste hospital garantiu que o espólio era transferido para os Capuchos. Está aberta ao público todas as quartas-feiras e desde 2012 já foi visitada por 2702 pessoas.

Num canto da sala onde estão todas estas estruturas, está arrumado um aparelho médico especial. Nada tem a ver com dermatologia, mas está ali por falta de espaço. Trata-se do negatoscópio (caixa de luz em que se vê os exames durante a consulta) que foi usado pelo médico e escritor Reynaldo dos Santos até 1950, ano em que se reformou. Debaixo de uma mesa escura onde estão expostos livros e documentos antigos sobre dermatologia veem-se vários caixotes fechados. Lá dentro estão próteses de ortopedia de uma coleção do Hospital de São Lázaro, dos anos 70. Quando for aberta será possível contar a história da evolução dos materiais usados nestes implantes: começaram por ser feitos com uma liga de cobalto-crómio, depois de titânio, cerâmica e mais tarde de ultra alto peso molecular. Muitas das peças que estão aqui guardadas foram retiradas a doentes e substituídas por razões clínicas. As próteses mais antigas, aquelas que se colocavam em lugar de um dos membros, estão expostas a pouca distância daquela sala. Encontram-se no serviço de medicina física e reabilitação montado num hospital subterrâneo que existe por baixo das enfermarias de mulheres de cirurgia geral do Hospital dos Capuchos.

Um hospital subterrâneo

Quando se atravessa a porta cinzenta, de ferro, que está mesmo ao lado da entrada do Palácio Melo, onde se situam aquelas enfermarias, está-se longe de imaginar o que se vai encontrar ali. É uma cave, antiga e até um pouco degradada. Mas descendo uns degraus descobre-se um hospital montado tal qual era há quase 100 anos. São milhares de objetos e aparelhos médicos que representam os diferentes serviços clínicos.

Pendurados numa divisória de madeira estão seis pesados aventais de chumbo com contornos de várias cores. Foram usados por médicos e técnicos portugueses para os proteger das radiações que nos anos iniciais do século passado vitimaram muitos clínicos, como Feyo e Castro, que dirigiu o primeiro gabinete de radiologia do país, criado em 1901 no Hospital Real de São José. Está ali também uma enfermaria dos anos 40, com oito camas de ferro, cadeiras-retretes, de madeira castanha-escura, onde se colocava um balde para os doentes fazerem as necessidades, pois naquele tempo não havia casa de banho. Pelo chão, estão espalhados urinóis e arrastadeiras de esmalte e carrinhos de mão de higiene, de ferro, branco-amarelado, onde as enfermeiras transportavam os jarros e bacias de doentes com as iniciais HCL — Hospitais Civis de Lisboa, grupo criado em 1913 e que incluía São José, Desterro, Arroios, Dona Estefânia e, mais tarde, Capuchos, Curry Cabral e Santa Marta.

Pecados. Através 
de 266 figuras de 
cera dois médicos registaram as doenças 
de pele e venéreas 
dos portugueses 
nos anos 40

Pecados. Através 
de 266 figuras de 
cera dois médicos registaram as doenças 
de pele e venéreas 
dos portugueses 
nos anos 40

alberto frias

Neste espaço subterrâneo de 300 metros quadrados que recria o cenário do início do século há ainda um gabinete médico e uma farmácia cheia de frascos de vidro e com cestos de verga de 15 compartimentos onde os serventes transportavam alguns dos produtos mais utilizados na época: éter, álcool, hipoclorito de sódio, também conhecido como soluto de Dakin, muito usado para tratar feridas na I Guerra Mundial, o antissético cetavlon e vaselina. Ao fundo, está montado um bloco operatório e alguns metros à frente surgem amontoadas dezenas de peixeiras — recipientes em barro também utilizados na cozinha para assar peixe —, onde se ferviam os instrumentos cirúrgicos. Olhando para o lado, vê-se um serviço de dermatologia à antiga. No centro está uma banheira cinzenta com rodas e, ao lado, uma câmara de inox coberta de lâmpadas compridas de forma circular com uma cadeira branca no meio. Era ali que o doente se sentava para receber raios ultravioleta. Foram as primeiras máquinas do género no país e eram feitas de forma artesanal na oficina dos Hospitais Civis de Lisboa.

Estão também nesta reprodução de hospital os primeiros equipamentos de radiologia utilizados no país, segundo Célia Pilão, a administradora do Centro Hospitalar Lisboa Central, que está neste momento a organizar e a inventariar tudo o que existe neste espaço. “São milhares de coisas e precisamos da ajuda dos médicos para sabermos a história de cada uma”, explica. Destes aparelhos radiológicos sabe-se já, porém, que são as primeiras máquinas a chegar a Lisboa depois de o físico alemão Wilhelm Conrad Rontgen ter inventado os raios-x, em novembro de 1895. E sabe-se também que foi num destes equipamentos que a equipa de Egas Moniz fez as radiografias das angiografias e mais tarde lobotomias. Já a mesa onde o médico e único prémio Nobel da Medicina português realizou a sua primeira angiografia cerebral em 1927 está numa sala do Hospital de Santa Marta, onde foi diretor do serviço de neurologia. Durante anos, a histórica mesa esteve na sala de espera do serviço de radiologia, como se fosse um objeto qualquer, por baixo de uma televisão e ao lado de uma máquina de café, sem qualquer proteção, podendo servir até para colocar revistas ou copos de café em cima. Só em 2009 foi deslocada para uma sala forrada de azulejos, que só abre para aulas de formação aos médicos, onde se encontra agora em destaque em cima de um estrado preto. Foi colocada ali depois de ter sido emprestada para estar em exposição num Congresso Internacional de Radiologia naquele ano.

Na altura até foi feito um seguro de 50 mil euros — e a ocasião aproveitada para a colocar num local mais protegido. Por isso, já estava nessa sala quando foi fotografada por um jornalista da BBC, Hugh Levinson, que a 17 de outubro de 2011 veio a Lisboa, ao Hospital de Santa Marta, gravar o som que o médico ouvia quando fazia as suas experiências e saber como era o dia a dia de Egas Moniz naqueles tempos. Os responsáveis da unidade de saúde falaram com um médico, já reformado, que tinha estado no hospital na época em que Egas Moniz ali trabalhava e que os ajudou a recriar a vida hospitalar do pioneiro das lobotomias. Este testemunho, em conjunto com as revelações que Egas Moniz deixou no seu livro “Confidência de um Investigador Científico”, deixam claro que durante anos fez as suas experiências de forma clandestina, às escondidas dos outros médicos que não o receberam bem, entre eles Francisco Pulido Valente, avô materno de Vasco Pulido Valente. Já o seu maior apoio era Almeida Lima, o tio-avô de João Lobo Antunes, que executava com ele as técnicas revolucionárias. Isto além da enfermeira Deolinda, que o ajudou a esconder as cabeças de cães que para ali transportava, vindas do Instituto Rocha Cabral, no Rato, para fazer experiências, e mais tarde as cabeças de cadáveres, cedidas por Henrique Vilhena, diretor de anatomia patológica na Faculdade de Medicina.

Tal como a mesa de Egas Moniz, há muitas peças, algumas de médicos conhecidos, outras que representam importantes marcos científicos, que não estão naquele hospital subterrâneo na cave dos Capuchos, mas sim espalhados por várias unidades de saúde. É o caso da seringa de clister do século XVII, um urinol de estanho da mesma época, o estetoscópio de José Sousa Martins — o médico que combateu a tuberculose e que muitos diziam ser santo —, a caixa de instrumentos cirúrgicos que pertenceu ao cirurgião Custódio Cabeça ou uma liteira do século XVIII usada para transportar doentes doada pelo político e maçon Joaquim António Aguiar, que em 1834 extinguiu as ordens religiosas e ficou conhecido como “o mata-frades”. Estão em vitrinas no edifício da biblioteca do Hospital de São José e foram usados em operações a doentes do Hospital de Todos os Santos, o primeiro hospital português, lançado em 1492 por D João II e inaugurado por D. Manuel em 1504.

A ideia de reunir todo este valioso espólio — que está ainda disperso por muitos outros sítios e que em alguns casos está em risco de degradação — é antiga e foi recuperada pelo Governo, que garante que só falta concluir as negociações com a Estamo (empresa que gere o património imobiliário do Estado e é proprietária dos hospitais) para arrendar um espaço e abrir um Museu da Saúde. O plano, adiantou ao Expresso o ministro Adalberto Campos Ferreira, é fazer a inauguração a 15 de setembro, por seu o dia do Serviço Nacional de Saúde. Tudo indica que o local será um edifício onde em tempos foi a neurocirurgia nos Capuchos.

Duelos de doentes e médicos

“É preciso juntar tudo o que está disperso”, explica Germano de Sousa, antigo bastonário dos Médicos, que o ministro da Saúde nomeou como alto comissário do novo Museu da Saúde, lembrando que é urgente garantir que os objetos não se perdem. “Quando eu era jovem e estava nos Hospitais Civis de Lisboa, deitava-se microscópios para o lixo.” Já a primeira diretora será Helena Rebelo de Andrade, que dirige o museu da saúde que existe no Instituto Nacional de Saúde Pública (INSA) Ricardo Jorge, que desde 2007 tem a competência de gerir este projeto cultural.

No próprio INSA, refere Helena Rebelo de Andrade, estão também várias coleções, como as da tuberculose, malária, psicologia e uma recente sobre anestesia resultante de uma doação de Avelino Espinheira. As peças estão agora a ser recolhidas e entre elas encontram-se desde máscaras metálicas de inalação de éter do século XIX a modelos mais modernos, passando por banheiras onde as pessoas que iam receber transplantes de coração tinham de ficar sob gelo até atingirem 18 graus. Não é a primeira vez que se tenta criar um museu: em 1835, a Sociedade de Ciências Médicas montou um e em 1889 Ricardo Jorge lançou também um espaço de exposição. A partir daí sucederam-se as tentativas. Em 1957, abriu um museu no Hospital de Santa Marta com as peças do prestigiado cirurgião Alberto Mac Bride e do seu pai, Gregório Rodrigues, mas fechou em 1970. Alguns anos depois, em 1997, surgiu o Museu Ary Catarino, naquela cave dos Capuchos. Porém, algum tempo depois também encerrou.

alberto frias

História. Na cave do Hospital dos Capuchos estão montados vários serviços hospitalares que nos transportam para o início do século passado, como a reanimação. Há também um bloco operatório, onde um placard com giz mostra como se marcavam as operações. Já as teses dos médicos, como as de Miguel Bombarda e Alfredo 
da Costa estão guardadas na biblioteca do São José

História. Na cave do Hospital dos Capuchos estão montados vários serviços hospitalares que nos transportam para o início do século passado, como a reanimação. Há também um bloco operatório, onde um placard com giz mostra como se marcavam as operações. Já as teses dos médicos, como as de Miguel Bombarda e Alfredo 
da Costa estão guardadas na biblioteca do São José

alberto frias

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A ideia, explica Germano de Sousa, é preservar todo este património que conta a história da medicina em Portugal. E que só fica completa com os mais de 10 mil documentos internos dos hospitais, que estão na Torre do Tombo desde 2004. Saíram da biblioteca do Hospital São José, onde estavam no cofre forte, explica a bibliotecário Ana Quininha — que está desde 2007 a organizar o espólio aqui existente. Entre eles estão todas as teses de medicina feitas pelos médicos portugueses entre 1843 e 1926. Miguel Bombarda, por exemplo, apresentou a tese em 1877 sobre o Delírio das Perseguições e Alfredo da Costa formou-se com um Breve Estudo sobre a Elefancia em 1884.

No meio dos milhares de livros que enchem as salas da biblioteca está também um conjunto de 70 volumes com recortes da imprensa diária. Foram feitos pelo médico Joaquim Alfredo de Sousa, que durante anos foi recortando as notícias que iam saindo nos jornais. Ao todo, são mais de 11 mil episódios. O primeiro recorte é de 1851 e relata a história de um concurso para um lugar de médico cheio de peripécias. Os últimos, de 1932, contam a história de um homem que foi operado oito vezes em dez anos e que estava reduzido ao tronco, o êxito de um medicamento chamado Lugent para a tuberculose e a conclusão das inspeções médicas às crianças que queriam ir para a Colónia Balnear Infantil o Século. Pelo meio, fica-se a saber que o marechal Saldanha era adepto da homeopatia, que as agressões de doentes a médicos acabavam em duelos, que havia duras críticas ao Governo por não ter autorizado um doente (um oficial da marinha que foi mordido por um cão e morreu) a ir a uma consulta a Paris, que eram feitas denúncias de cunhas para lugares e que se sucediam as queixas sobre a falta de dinheiro para a saúde e os hospitais. Podiam ser notícias de jornais de agora. Mas não. Muitas foram publicadas há mais de um século.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016