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Manuel Alegre: “Hollande e a esquerda europeia capitularam”

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Lucília Monteiro

Polémica reforma laboral em França continua a gerar protestos. Medidas propostas por Hollande facilitam os despedimentos, nomeadamente por motivos económicos (prejuízos ou descida de faturação), e diminuem os máximos de indemnização por despedimento (15 meses)

José Pedro Mozos

A polémica reforma laboral que o presidente francês, François Hollande, está a levar a cabo está a merecer protestos do Partido Socialista francês e do próprio PS. É mais um reflexo da Europa do poder financeiro. Houve uma capitulação da esquerda europeia, que cedeu ao poder financeiro", defendeu ao Expresso o histórico socialista Manuel Alegre.

No entender do ex-candidato presidencial, a “ausência de uma política de esquerda comum que possa combater o poder financeiro” e a falta de ”solidariedade da esquerda europeia” não ajudam a contrariar esta política. “O Governo português, com os apoios que tem, não faria uma reforma deste tipo”, mas Alegre considera que o caso português é apenas uma exceção à “capitulação dos socialistas e sociais-democratas europeus”.

Em França, a reforma laboral tem gerado muita contestaçãos nas ruas e teve de ser aprovada por decreto do governo, já que havia um elevado risco de não passar no Parlamento. O consenso não existiu nem mesmo dentro do próprio partido socialista francês e Hollande, muito criticado, mantém-se firme no que diz respeito à execução desta reforma.

O presidente francês chegou a ser visto como o salvador da esquerda europeia em 2012, quando foi eleito e numa altura em que a austeridade estava a ser imposta a vários países europeus. Mas Hollande já avisou: quer ser recordado como “um presidente de reformas” e não como um “presidente que não fez nada”.

"A corrente mais mainstream do PS não deve ter a mesma visão que eu, mas a minha perspetiva é mais liberal"

Mas não e só entre os socialistas franceses que esta reforma não gera consenso. O deputado socialista Vitalino Canas não vê que haja uma cedência de França ao “poder financeiro”, como descreve Manuel Alegre. Mas considera que é um efeito do “choque da realidade”. E prossegue: “O caso da Grécia é ainda mais evidente. Um Governo de uma esquerda mais radical também teve de levar a cabo certas reformas”.

Vitalino Canas deixa uma prevenção: “A corrente mais mainstream do Partido Socialista não deve ter a mesma visão que eu, mas a minha perspetiva é mais aberta e liberal no que diz respeito a matérias laborais”.

Mas se Manuel Alegre afirma que uma reforma deste tipo não teria cabimento no atual contexto português, Vitalino Canas diz que “a reforma que Hollande está a fazer em França vai no sentido daquilo que já foi feito em Portugal e que contou até com o apoio do Partido Socialista”. Em suma, o ex-secretário de Estado acredita que a questão não se põe para Portugal porque as reformas necessárias já foram feitas.

Mais de metade dos franceses apoia os protestos contra a reforma laboral

Apesar de compreender a reforma laboral francesa e de discordar de Manuel Alegre, Vitalino Canas admite que pode haver dedo da Europa nesta matéria. “Certamente, parte da motivação do governo francês é resultado da pressão europeia, mas não será a única motivação por trás da reforma”. E conclui: “Creio que Hollande está mesmo nisto”.

Uma sondagem divulgada no último domingo concluiu que mais de metade (56%) dos franceses apoia os protestos contra a reforma laboral, embora haja uma distinção clara entre os inquiridos de esquerda (67%) e de direita (33%) que apoiam o protesto.
Contactado pelo Expresso, o responsável pelas relações internacionais do PS, Porfírio Silva, recusou comentar a reforma laboral em França.

[Texto publicado na edição de 20 de maio do Expresso Diário, do jornal Expresso]