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A saga do senhorio que vai ver a Câmara de Lisboa demolir-lhe três prédios

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DEMOLIÇÃO. Um dos edifícios que vão ser expropriados

marcos borga

António Barroso comprou três prédios na Mouraria em 2006. Agora, a Câmara vai expropriá-lo e demolir os edifícios para construir uma mesquita. O Expresso fez uma visita guiada

João Pedro Mozos

As ruas são estreitas. Muitas delas inclinadas. Percebe-se a razão para Lisboa ter uma vez sido apelidada de cidade das sete colinas. A Rua do Benformoso está no coração da Mouraria. Respira-se bairrismo lisboeta ao mesmo tempo que se observa a multiculturalidade que já vem sendo própria do local. As comunidades chinesa e do Bangladesh concentram-se nesta rua. No número 151, mora António Barroso, proprietário de três prédios que a Câmara de Lisboa quer demolir para construir uma mesquita.

O assunto não é pacífico, e a providência cautelar interposta pela advogada de António Barroso foi aprovada esta terça-feira pelo juiz. "É o início de uma boa notícia", regista o proprietário, embora com algum ceticismo. Mas há um caminho que vem de longe e ainda não chegou ao fim.

Num desses prédios, funciona a pequena agência de viagens de Mahomed Afzal. O gerente da loja é um dos inquilinos de António Barroso, que na segunda-feira recebeu uma notificação da Câmara Municipal a anunciar que foi declarada a expropriação "com caráter urgente" e consequente "posse administrativa" dos três prédios que detém.

marcos borga

Mahomed Afzal trabalha neste local há mais de um ano apesar de a agência que gere existir há mais tempo. Afzal conta-nos que o projeto em curso não lhe agrada e que tem esperança de que possa ser revertido, pelo menos espera que "os moldes sejam outros". A Câmara de Lisboa quer construir uma mesquita e, para o conseguir fazer, derrubar prédios com lojas e habitação. Em troca oferece uma indemnização ao senhorio e aos ocupantes dos espaços.

Mas nem o fim da obra nem a indemnização satisfazem os afetados. "Estou preocupado com o que vai acontecer ao meu negócio", conta Mohamed Afzal. E prossegue: "e ainda por cima não entendo o fim deste projeto. Não é que construir uma mesquita seja um problema, eu até sou muçulmano, mas não entendo a escolha do localização. A Câmara tem recursos suficientes e pessoas competentes para poder fazer esta obra noutros locais".

O gerente da agência de viagens não consegue encontrar a solução ideal, mas afirma que aquela que a Câmara propõe não tem em conta a realidade. No seu entender, "quem decide tem de sair do gabinete e sentir a realidade". Mohamed Afzal acredita que se os decisores percebessem a realidade que se vive naquela rua, a decisão seria outra.

Mas apesar de manter esperança numa mudança de decisão por parte da Câmara, não se conforma: "Não sei quem decidiu levar este projeto para a frente. Não sei se não estava em si ou se foi por senilidade, mas certamente só olhou para os prós e não quis saber dos contras", afirma antes de concluir: "Não sei o que vou fazer se ficar sem este espaço. Ainda não caí em mim".

O alentejano que chegou a Lisboa aos 15 anos e com mil escudos no bolso

A revolta é evidente e o espanto também. Mohamed Afzal confia no "bom senso de quem decide" para que a obra não vá para a frente ou para que, pelo menos, as indemnizações sejam justas e dignas.

A mesma indignação é a que sente António Barroso, senhorio dos prédios em causa. O alentejano de 63 anos vai direto ao assunto: "Isto é um negócio de cúpulas. É que os que decidem falam em interesse público, mas quando falo com a comunidade do Bangladesh [a quem se destina a nova mesquita] ninguém sente necessidade de ter uma nova mesquita". Neste momento, existem duas mesquitas na Mouraria, e a construção desta terceira não é vista por todos como uma necessidade. António Barroso diz mesmo que "esta situação não resolve nenhum problema mas cria muitos".

Aliás, esta situação já está a criar conflitos entre a própria comunidade do Bangladesh. Assim conta o proprietário dos três prédios: "Já tive até membros da comunidade bangladeshi que me disseram que eram contra o projeto mas que não falavam por medo de deixar de ser parte dessa comunidade". Mas Manuel Barroso não se fica por aqui e diz mesmo que há cerca de três meses a situação entre portugueses e bangladeshis era pacífica mas que hoje em dia "já não é bem assim, já existe uma tensão".

O alentejano que veio para Lisboa aos 15 anos "apenas com mil escudos no bolso" comprou estes prédios em 2006 por quase 400 mil euros, quando estavam em ruínas. Desde então, investiu dinheiro na reconstrução dos edifícios. Hoje valem mais do que na altura em que foram adquiridos. No entanto, a indemnização que o tribunal propôs não chega aos 600 mil euros. António Barroso pede cerca de 2 milhões de euros. "Não apenas pela valorização que sofreram ao longo dos anos mas também porque a zona da Mouraria está na moda". Mas a negociação parece difícil.

É que a CML exige que essa avaliação seja justificada por uma análise feita por peritos, alega António Barroso. Ao Expresso, fonte da Câmara de Lisboa garantiu que ainda não foi notificada da providência cautelar e salienta que o valor determinado para a indemnização foi feito em tribunal e não foi uma decisão unilateral da autarquia.

marcos borga

António Barroso aproveita para nos fazer uma visita guiada a um dos prédios remodelados. "Está a ver estas escadas de pedra? Durante a reconstrução não podemos removê-las porque se encontravam numa zona de proteção. Mas a zona de proteção parece que já não conta para nada". As escadas, conta, valorizaram o prédio, assim como os azulejos na parede ou a pia do século XVIII que se encontra a meio da escadaria e que sobreviveu ao terramoto de 1755.

O andar que António Barroso nos mostra é o sótão do prédio. Normalmente é arrendado por turistas, e "desde a Austrália até à Alemanha" todos saem encantados com o andar e com o prédio. Os moradores que connosco se cruzam estão todos indignados com a situação e esperam "bom senso" por parte da Justiça.

"Em última instância iremos recorrer ao Tribunal Europeu", desabafa. "A mim não me tiram daqui. Eu não saio", avisa ainda António Barroso.

É durante essa visita, na terça-feira, que a advogada de Barroso lhe liga a dar a notícia. A conversa dura cerca de seis minutos. No fim, mais aliviado, conta-nos: "A providência cautelar foi aprovada pelo juiz. Isto ainda não é nada porque o projeto nem sequer está suspenso. Mas é o início de uma boa notícia". Despede-se de nós e sobe ao andar onde vive para contar as notícias à sua mulher.