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Sociedade

A moda dos telefones estúpidos

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VINTAGE. Adeus telemóvel “inteligente”, quero o meu telemóvel “velho” de volta

JOÃO CARLOS SANTOS

Figuras públicas internacionais estarão, supostamente, a trocar o smartphone pelo telemóvel, como se pode ler AQUI, e alguns fabricantes podem relançar equipamentos de sucesso, como se pode ver AQUI. São dispositivos diferentes. Basicamente, o primeiro liga-o à Internet e a milhões de apps (e de pessoas); o segundo permite-lhe falar e enviar SMS – com sorte tem ligação à Net, mas muito limitada.

Estamos, assim, perante um retrocesso tecnológico que é defendido, por quem está a fazê-lo, como uma forma de libertação daquilo a que podemos chamar a “obsessão da atualização”. Ou seja, a dependência de estar permanentemente a beber no smartphone o que se passa, essencialmente, nas redes sociais. O argumento de uma maior autonomia (duração da bateria) também é utilizado para justificar a compra de um dumb phone (telefone estúpido).

Nos EUA, um em cada sete utilizadores de telefones móveis compra um telemóvel. Um valor que, segundo a consultora IDC, aumentou o ano passado (mais 2 milhões de unidades) fixando-se, agora, nos 24,2 milhões de terminais. Índia, Brasil e China são outros dos mercados onde os dumb phones ainda representam grandes quotas de mercado. O que se entende devido às características das infraestruturas de telecomunicações locais. Limitadas em dispersão geográfica e capacidades.

Mas não só. Este tipo de terminal faz sentido em várias situações e em perfis de utilizadores. Por exemplo, nos países desenvolvidos este deve ser o primeiro telefone entregue a uma criança – independentemente da idade a que os encarregados de educação decidem fazê-lo. Afinal, só queremos que esteja contactável. Nada de Internet e apps. O mesmo princípio é válido para a população mais envelhecida e infoexcluída.

Nos países em vias de desenvolvimento, a multidão que se prepara para comprar o primeiro telefone tem, no telemóvel, a melhor porta de entrada para o mundo da mobilidade. Nestes cenários, faz todo o sentido ter um dumb phone.

É óbvio que também existem escolhas pessoais. Os que acham os telefones inteligentes demasiado caros ou muito complicados de operar, por exemplo. Mas estes são uma minoria.
Ter um smartphone, hoje, é ter uma ligação permanente à realidade. Não só à que nos rodeia, à que está mais próxima, mas à do mundo. Ao que acontece na Síria, ao que está a ser dito e feito nas presidenciais norte-americanas, aos pormenores dos eventos desportivos… isto em tempo real. Resultado de uma mistura onde os produtores de conteúdos oficiais (órgãos de comunicação) competem com os prosumers – os que consomem e produzem conteúdos. Estes últimos quase só existem devido aos smartphones e à massificação da Internet Móvel. O smartphone é, igualmente, o veículo de eleição para estar e acompanhar as redes sociais. E é mais. É o GPS que nos leva ao sítio certo, é o guia para os melhores restaurantes, é a máquina fotográfica/câmara de vídeo que levamos de férias, é a biblioteca, o tradutor… é um mundo de possibilidades.

Em Portugal, segundo a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM), há muito que os smartphones ultrapassaram os telemóveis. Aliás, dos portugueses que usam um dispositivo móvel, mais de 60%, segundo a mesma fonte, tem um smartphone. Por cá, esta moda de usar um dumb phone, não existe. Mas vai existir? Provavelmente. Como quase sempre, os ecos vindos do exterior vão chegar ao parco star sytem nacional e é bem possível ver algumas figuras públicas a gritar aos sete ventos as benesses de terem abandonado o iPhone em prol de um qualquer telefone de 20 euros. Quando isso acontecer, e vai acontecer, tenho a certeza que algures nos bolsos das calças (ou do casaco) deles vai continuar a repousar um smartphone. Caso contrário, estaremos perante um contrassenso: uma figura pública que não acompanha o seu público.

  • Experimente viver sem ele. Consegue? Pois...

    Tal como o vício de tomar café sempre que se faz um intervalo ou se puxa do cigarro, também espreitar o telemóvel para ver se entrou algum e-mail, mensagem, notificação, chamada não atendida e afins tornou-se um hábito diário para a maioria de nós. Fazemo-lo, em média, 80 vezes por dia, para ser mais exato. Consegue viver seu o seu smartphone? Pois...