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A amiga alemã do PS

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tiago miranda

Entre 1969 e 1979, Elka Sabiel foi a responsável por Portugal da Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata alemão (SPD). Foi quem tratou de toda a organização do congresso fundador do PS, realizado precisamente na Alemanha, em abril de 1973. Durante uma década veio a Lisboa cerca de 35 vezes, para dar apoio aos socialistas na luta contra a ditadura de Caetano e no combate pela consolidação da democracia

A primeira vez que Elka Sabiel veio a Portugal foi em 1969, vivia-se ainda em ditadura. “Fiquei com a impressão de que podia movimentar-me sem medo nas ruas, em contraste com a Espanha franquista, onde sentia uma repressão e um medo muito maiores” — conta ao Expresso, numa recente deslocação a Lisboa. “Em Madrid, por exemplo, sempre que saía do avião, era fotografada pela PIDE local. Em Portugal, isso não acontecia.” Nunca teve problemas em viajar para Lisboa. “Na embaixada em Bona, com quem a Fundação tinha boas relações, deram-me sempre o visto de entrada. Nunca me perguntaram o que é que ia fazer a Portugal.” A Fundação não tinha contactos com o Governo de Marcello Caetano. “Nem tentámos: nem a Fundação nem o Partido Social Democrata, SPD. Só depois da revolução.” Das muitas ditaduras que conheceu, na Europa e América Latina, considera que a portuguesa era “das mais brandas”. “A Espanha era diferente. Eu própria fui retirada pelos serviços centrais, de Bona, porque a situação se tornara demasiado perigosa.”

Elka Sabiel (que usava o apelido Esters, do então marido) lembra-se bem do primeiro português que conheceu: “Mário Soares, em Paris, creio que em 1969.” Desse encontro conservou “uma impressão positiva”. Alguma vez imaginou que aquele advogado da oposição poderia vir a ser um futuro Presidente da República? “Naquele momento não. Mais tarde sim — depois da fundação do PS e da revolução de 1974.”

Em Lisboa, os principais contactos começaram por ser com o advogado Gustavo Soromenho, administrador do jornal “República” e futuro tesoureiro do PS, e Carlos Carvalho, um jornalista que viria a ser o último diretor do trissemanário “Mundo Desportivo”. Os outros interlocutores estavam fora do país — ou exilados, ou refugiados, ou simplesmente emigrantes. O mais importante de todos era, naturalmente, Mário Soares, que em julho de 1970 se exilara em Paris. “Vim muitas vezes a Lisboa via Paris para me reunir com ele. Entregava-me correspondência e textos vários, que eu levava para Portugal.”

Elke Sabiel nasceu em Hanôver, em 1941, tendo emigrado aos dez anos, com a família, para a Argentina. Viveu e fez os estudos secundários em Buenos Aires, e regressou à Alemanha em 1960. “Fiz um exame de intérprete de espanhol e, mais tarde, participei numa reunião onde estavam funcionários da Fundação Friedrich Ebert; ouviram uma intervenção minha sobre os países em desenvolvimento, devem ter gostado e convidaram-me para ir para lá trabalhar.” Em 1964 passou a ser funcionária daquela fundação ligada ao SPD, o Partido Social-Democrata da então República Federal da Alemanha. A partir da sede em Bona, ocupou-se da América Latina, sobretudo dos países de língua castelhana, mas também do Brasil. “Abrimos um escritório nos anos oitenta, apesar de o país ainda viver sob a ditadura militar. Tal como no Chile, com Pinochet. De início só falava castelhano, mas a pouco e pouco fui entrando no português.” O fator linguístico foi um dos elementos determinantes para que passasse a acompanhar a Península Ibérica. “Os primeiros contactos da fundação com Portugal foram em 1966 ou 1967” — ainda o presidente do Conselho era Oliveira Salazar. Foi já com Marcello Caetano no poder que Elke assumiu, em 1969, a responsabilidade do trabalho político da fundação em Portugal.

PS nasce em Bad Münstereifel, a 25 km de Bona

O apoio da fundação alemã destinava-se à ASP, a Ação Socialista Portuguesa. Criada em setembro de 1964, em Genebra, era uma associação política sem carácter partidário assumido, embrião do atual Partido Socialista. Apesar disso, e uma vez que a legislação do Estado Novo não permitia organizações políticas além do partido único (a União Nacional, mais tarde transformada em Ação Nacional Popular), a ASP estava remetida à clandestinidade. A sua face legal era a Cooperativa de Estudos e Documentação (CED), criada com o apoio da fundação Ebert a seguir às eleições de 1969 para a Assembleia Nacional, e que tinha a sede num andar na Rua Duque d’Ávila, em Lisboa. “O nosso apoio era canalizado para a Cooperativa, que decidia o que fazer com o dinheiro. Depois a ASP apresentava-nos as contas, necessárias para legitimar os gastos, porque tudo tinha de ser contabilizado e justificado na Alemanha.”

Elke vinha a Portugal regularmente, “mais ou menos de três em três meses”. Após cada viagem, “fazia um relatório, dirigido à direção” da fundação. Era na própria carteira que trazia o dinheiro, em notas, para entregar aos dirigentes da Cooperativa (leia-se: ASP). “O dinheiro destinava-se a organizar colóquios, seminários e outras iniciativas do género, realizados em Lisboa, Porto e noutras partes do país, para aumentar a sua base de apoio. Ajudávamos ainda com a tradução e edição de brochuras sobre temas como sindicalismo, cooperativismo e partidos políticos. Para a fundação, uma das prioridades sempre foi a formação de quadros.”

A ASP nunca passou verdadeiramente de um pequeno grupo, formado por profissionais liberais, sobretudo advogados. Em 1972, após ter participado em nome da ASP no congresso de Viena da Internacional Socialista, Soares começou a encarar a hipótese da sua passagem a partido. Elke acompanhou esse debate. “A ASP fez uma análise da sua situação interna e decidiu promover um encontro alargado fora do país, para decidir o que fazer e muito especialmente transformar-se num partido.” Tudo foi montado com a ajuda da Fundação Ebert, que pagou as viagens de avião dos participantes e disponibilizou um espaço. O local escolhido foi Bad Münstereifel, uma estância a 25 quilómetros de Bona, onde a fundação possui um centro de formação. “Eram instalações que permitiam a realização de um encontro fechado e discreto. Não haveria outros grupos e o pessoal que trabalhava na parte logística era de inteira confiança. Mário Soares tinha insistido muito em que era importante garantir a discrição, que não houvesse nem imprensa nem público.” Compreende-se porquê: iriam estar presentes pessoas idas especialmente de Portugal e que, depois, teriam de regressar, havendo que garantir que não correriam mais riscos do que os habituais no combate político à ditadura. “Na prática, foi um congresso clandestino. Foi o único que ajudei a organizar.”

No caso dos socialistas espanhóis “não houve encontros clandestinos com esta importância organizados pela Fundação”, explica Elke. “Trazia-se um ou outro dirigente, como Felipe González ou o professor Tierno Galván, mas nada com dimensão semelhante.” O quadro do socialismo em Espanha, também remetido pela ditadura do generalíssimo Franco à clandestinidade, era inteiramente diferente. O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) — com uma longa e rica história na Espanha anterior ao regime franquista — estava a ser disputado por duas tendências antagónicas: a do exterior, radicada sobretudo no exílio e liderada a partir de França por Rodolfo Llopis; e a do interior, sem os traumas da guerra civil e protagonizada por uma nova geração, representada sobretudo pelo jovem advogado sevilhano Felipe González. A que se somava, para aumentar a confusão, o Partido Socialista Popular, de Tierno Galván e Raul Morodo, com quem Soares manteve relações privilegiadas durante alguns anos. Velho republicano e exilado desde o fim da Guerra Civil de Espanha, “Rodolfo Llopis tentou sabotar todo o trabalho de renovação e enraizamento do PSOE. Foi horrível.”

O encontro dos socialistas da ASP realizou-se de 17 a 19 de abril de 1973. Foram 27 os presentes, idos de Portugal, Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra, Itália, Suécia e Suíça — entre os quais os três fundadores da ASP, todos exilados: Soares, Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa. Do interior, viajaram apenas 12. O maior grupo era o de Lisboa e incluía Maria de Jesus Barroso (a mulher de Soares, que vivia entre Paris e Lisboa, onde dirigia o Colégio Moderno), Gustavo Soromenho, Catanho de Meneses, Nuno Godinho de Matos, Roque Lino e três jornalistas do vespertino “República” (o diretor Raul Rego, Mário Mesquita e Alberto Arons de Carvalho). Ausentes algumas das grandes figuras da tradicional oposição republicana e socialista, como Francisco Salgado Zenha, Raul Rego, José Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes, António Macedo, Mário Cal Brandão. Por estarem a cumprir serviço militar, não puderam participar alguns dos mais jovens militantes da ASP, como Jaime Gama, José Luís Nunes e Alfredo Barroso. Mas, de todos, o grande ausente foi Salgado Zenha, que aliás Elke só viria a conhecer depois da revolução. “Porque não foi? Terá de perguntar a Mário Soares.” Mais tarde soube-se que Zenha era contrário à transformação da ASP em partido. Ele e o núcleo de Lisboa, que antes de partir para a Alemanha se reunira nas instalações da Cooperativa, tendo mandatado os respetivos delegados a votar contra.

Fundadores do PS. Retrato de família de 19 
dos 27 participantes no congresso que decidiu a transformação da Ação Socialista Portuguesa (ASP) no atual PS. O encontro teve lugar em abril de 1973 num centro de formação da Fundação alemã Friedrich Ebert, em Bona, que assegurou 
o financiamento e a organização

Fundadores do PS. Retrato de família de 19 
dos 27 participantes no congresso que decidiu a transformação da Ação Socialista Portuguesa (ASP) no atual PS. O encontro teve lugar em abril de 1973 num centro de formação da Fundação alemã Friedrich Ebert, em Bona, que assegurou 
o financiamento e a organização

foto fundação mário soares

A partir do exílio, Soares fora tecendo uma muito apreciável rede de contactos internacionais. Percebera que, como representante de um partido, mesmo que obrigado à clandestinidade em Portugal, disporia — como afirmou a Joaquim Vieira na sua biografia —, “de um instrumento para falar de igual para igual com os restantes” parceiros da Internacional Socialista. O jornalista Mário Mesquita, então com 23 anos, foi o principal opositor ao desejo de Soares de avançar de imediato para um partido. Para Mesquita (ouvido por Vieira), “havia uma grande diferença entre o estado de espírito” de Soares, “achando que o regime ia cair em breve, e o ponto de vista do núcleo de Lisboa, que vivia num grande desânimo”. Seja como for, e como o futuro diretor do “Diário de Notícias” fez questão de clarificar, a divergência era “contra a oportunidade, não contra o partido”.

A deliberação de “transformar a ASP em Partido Socialista” foi votada a 19 de abril, com 20 votos a favor e sete contra. Os votos desfavoráveis partiram todos do núcleo de Lisboa, incluindo Maria Barroso, a única mulher presente. “O meu marido ficou furioso”, contou a Vieira. Da representação saída da capital, só Arons de Carvalho votou favoravelmente. “Durante o debate, fui achando que o Mário Soares era capaz de ter razão. E entendi que o mandato que recebera não era rígido”, explicou ao Expresso.

Segundo Vieira, mais de metade dos fundadores estavam ligados à maçonaria. O médico Fernando Vale, que presidiu à sessão inaugural, era um deles. O futuro grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, António Arnaut, igualmente presente, conta que Vale, “em vez de dizer ‘camaradas’, disse: ‘Meus irmãos... desculpem: camaradas’.” Como símbolo do novo partido foi aprovado um punho estilizado com um punhal partido. Arnaut, o fundador do Serviço Nacional de Saúde, foi quem propôs que fosse da mão esquerda, “por ser do lado do coração”. Foi igualmente discutido o relatório do líder da ASP, Mário Soares, que, sem surpresa e por unanimidade, foi eleito secretário-geral do novo partido.

Três fundações, o IED e o jornal diário “A Luta”

Única observadora não portuguesa presente na reunião, Elke retém a “impressão de que havia uma boa dinâmica naquele grupo, particularmente entre os jovens, que estavam a tirar grande proveito do contacto com a geração mais velha”.

Quatro meses depois, em agosto, reuniu-se em Paris, em instalações cedidas pelo PS francês, um grupo encarregado de redigir a declaração de princípios e o programa do partido. António Reis foi um dos quadros que se deslocaram até França. “De Portugal fui eu, o Mário Sottomayor Cardia e o Francisco Marcelo Curto, todos ligados à revista ‘Seara Nova’”, contou Reis ao Expresso. “O Cardia era o único que pertencera ao PCP, de que saíra há pouco tempo. Ainda tentou levar-me para o partido, mas o controleiro dele, que era o Pedro Ramos de Almeida, disse-lhe que eu era um ‘oportunista de direita’...” Na discussão e redação dos textos “participaram, do exterior, Mário Soares, Jorge Campinos, Tito de Morais, Ramos da Costa e Bernardino Gomes. Aprovados os textos, em setembro já estavam a ser distribuídos em Portugal.”

O programa e sobretudo a declaração de princípios acolhiam uma orientação marxista e vincadamente à esquerda. Só muitos anos depois se saberia que um dos colaboradores do programa, nas áreas da defesa e política externa, fora o então major Ernesto Melo Antunes, o ideólogo do Movimento das Forças Armadas. O contributo do militar, no entanto, foi reescrito por Soares, por lhe ter parecido, como afirmou a Maria João Avillez (no livro “Soares. Ditadura e Revolução”), “bastante absurdo e radical”.

Tendo aberto um escritório em Lisboa em 1977, o primeiro delegado da Fundação Ebert foi Gerhard Fischer, mas nem por isso Elke deixou de continuar a acompanhar os socialistas portugueses. Ao todo, calcula que tenham vindo a Portugal “umas 35 vezes, mas sempre por períodos curtos”. “Ficava sempre ou no Hotel Mundial ou no Altis.” Nunca no Tivoli, que passava por ser o hotel de eleição dos vários serviços secretos que acompanharam de perto o curso da revolução — desde a CIA ao KGB, passando certamente pelos alemães (quer da RFA quer da RDA). Elke, que mais tarde passou a acompanhar a Roménia, conta que “no tempo do Ceausescu, a Securitate, a polícia política, montara microfones e câmaras nos hotéis. Não sei se em Portugal também acontecia com a PIDE, mas imagino que em Espanha seria assim.” A alemã nunca quis ir à Torre do Tombo ver se a PIDE/DGS tinha aberto alguma ficha em seu nome. “Na Roménia vi o meu dossiê, que tinha mais de 200 folhas. Para mim bastou, não quero saber mais! Mas em Espanha de certeza que tenho um dossiê.”

O apoio da Fundação Friedrich Ebert passava obrigatoriamente por “projetos que lhe eram apresentados”. Em Portugal, foram seis. “O primeiro foi a tal Cooperativa de Estudos e Documentação. Depois, conquistada a democracia, foram vários projetos nos sectores sindical, cooperativo, partidário e do poder local”. Nasceram assim as fundações José Fontana (o principal suporte dos sindicatos que viriam dar origem à UGT), Antero de Quental (autarquias) e Azedo Gneco (cooperativas). Qualquer dos três nomes foi escolhido entre os de dirigentes do anterior Partido Socialista, criado sob a monarquia e há muito extinto. Mais tarde surgiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento (IED), que Elke define como “uma espécie de think tank”. “Foram projetos lançados nos anos setenta e acabados nos anos oitenta e financiados em exclusivo por nós.”

Outra iniciativa em que a Fundação esteve envolvida foi o lançamento do jornal “A Luta” — o vespertino que ocupou o lugar antes preenchido pelo “República”, alvo e vítima de um dos maiores combates políticos e mediáticos da revolução. Alinhadas com o PS, em maio de 1975 a direção e a maioria da redação do “República” foram expulsas do jornal pelos restantes trabalhadores, liderados por sectores de extrema-esquerda e apoiados pelo PCP. O PS, que abandonou o Governo em sinal de protesto, decidiu então criar um novo jornal diário, para se opor ao domínio dos media pelos comunistas. “A Fundação fez um acordo com o ‘Vorwärts’, o jornal do SPD, no sentido de fornecer papel, crédito financeiro e uma rotativa”. “A Luta”, sob a direção de Rego e feita no essencial pela redação do “República”, saiu para a rua em agosto de 1975 e foi um precioso instrumento de luta política até à estabilização da democracia.

Colaboração com a Fundação Res Pública

O projeto que, no balanço de Elke Sabiel, “teve mais êxito” terá sido o da Fundação José Fontana, liderado durante anos por Maldonado Gonelha. Em 2005, e com José Sócrates como secretário-geral do PS, as fundações transformaram-se em centros de outra, chamada Fundação Res Pública. Presidida por António Vitorino, esta Res Pública continua a contar com a colaboração da Fundação Ebert, agora representada em Lisboa por Reinhard Naumann.
Elke nunca esteve à frente do escritório da Ebert em Portugal. “Na altura, a fundação era dominada por homens, que não queriam dar responsabilidades desse tipo a mulheres. Os delegados da fundação no estrangeiro eram quase sempre homens. Dos 120 quadros que a fundação chegou a ter para o trabalho fora da Alemanha, só uma dezena eram mulheres. Hoje em dia é completamente diferente.”

Punho esquerdo. Primeiro símbolo 
do Partido Socialista, saído do congresso fundador, na Alemanha. António Arnaut foi quem propôs que fosse o punho esquerdo, “por ser do lado do coração”

Punho esquerdo. Primeiro símbolo 
do Partido Socialista, saído do congresso fundador, na Alemanha. António Arnaut foi quem propôs que fosse o punho esquerdo, “por ser do lado do coração”

A Fundação Friedrich Ebert conta atualmente com seis centenas de funcionários, 106 representações no estrangeiro e um orçamento anual de cerca de 150 milhões de euros. Fundada em 1925 com o nome do primeiro Presidente democraticamente eleito na Alemanha (e uma das figuras históricas da social-democracia naquele país), foi proibida pelo nazismo, tendo renascido após a Segunda Guerra Mundial. Sendo a mais velha das várias fundações alemãs de carácter político, seguiram-se as fundações Konrad Adenauer (ligada à CDU, o partido democrata-cristão) e Friedrich Naumann (dos liberais do FDP). Muito mais tarde surgiram as fundações Heinrich Böll, ligada aos Verdes, e Rosa Luxemburg, conotada com o partido A Esquerda. Todas elas são financiadas pelo orçamento federal, por via dos ministérios do Interior, dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação. Os principais objetivos que lhe são fixados são a educação política e cívica, a cooperação para o desenvolvimento e a promoção da democracia e da justiça social. “O dinheiro do orçamento federal é dividido pelas várias fundações em termos proporcionais aos resultados eleitorais dos partidos, a partir de uma média das votações obtidas nas três últimas eleições.”

Também a Fundação Naumann apoiou a consolidação da democracia em Portugal. “Estive cá com o secretário-geral da Naumann, para estabelecer contactos políticos.” Foi no tempo da coligação entre os sociais-democratas do SPD e os liberais do FDP no Governo de Bona, em 1974-82. O parceiro português foi o PSD, tendo apoiado a Fundação Oliveira Martins, criada na sua órbita e onde pontificava Mário Pinto. “De início, creio que chegámos a ser apoiados pela Ebert, mas depois, em conversações entre o PSD e o PS e também entre as fundações alemãs, ficou decidido que o nosso parceiro seria a Fundação Naumann”, recorda Mário Pinto, ex-ministro da República para os Açores. “Eles tinham um escritório em Madrid, cujo delegado vinha regularmente a Lisboa.” Já a fundação Adenauer privilegiou o CDS, através do Instituto Democracia e Liberdade (hoje, IDL — Instituto Amaro da Costa).

No final dos anos oitenta Elke deixou de acompanhar Portugal. “A grande batalha já estava ganha e a transição para a democracia já estava feita. E como tinha jeito para tratar de ditaduras...” Passou a acompanhar o Chile de Pinochet e a Roménia de Ceausescu. “No Chile, nunca estive em permanência e na Roménia fui a representante da Fundação no período de 1994 a 2004.”

Além disso, entre 1984 e 1990 foi a responsável por um programa de intercâmbio entre jornalistas alemães e de países do Leste europeu. “Foi uma experiência extremamente interessante. Todos os anos vinham à Alemanha, de cada país do bloco do Leste — incluindo a Albânia e a antiga Jugoslávia — um grupo de cinco jornalistas, para trocar ideias e informações, comprar livros, etc. Eu é que acompanhava esses grupos. Enquanto isso, um grupo de cinco jornalistas alemães visitava cada um daqueles países. Assim se criaram laços importantes.”

Orgulho por ter ajudado o PS

Nos 40 anos em que trabalhou para a fundação, a década portuguesa “foi o período mais interessante e estimulante, e em que aprendi mais”. O congresso fundador do PS foi um evento de que tem “especial orgulho”. “Em Bona pediram-me para organizar o encontro, o que foi um grande desafio.” Rejeita a acusação de tentativa de ingerência alemã na vida política portuguesa. “A ASP é que tomou a decisão de fazer o encontro e nos pediu auxílio. A fundação limitou-se a apoiar. E a seguir ao 25 de Abril voltou a ser o PS e Mário Soares a pedir auxílio a Willy Brandt e ao SPD.” Acredita que o seu trabalho “foi útil para a estabilização da democracia em Portugal”.
Com 74 anos, reformada na Alemanha, continua ativa na Roménia, onde é a presidente honorária da associação dos alemães deportados daquele país para a União Soviética. “É um país tão corrupto que é preciso fazer qualquer coisa”. Há muito que deixou de acompanhar a política portuguesa. “Na imprensa alemã Portugal não é tema, e na Roménia ainda menos”. Nos poucos dias que esteve recentemente em Lisboa não deixou de se inteirar do atual quadro político, que considerou “altamente interessante”. “A questão é saber como vai evoluir. Nos anos setenta e oitenta seria completamente impossível.”

Com trabalho político em três países europeus e uma dezena na América Latina (desde os gigantes Argentina, Brasil e México, até à Costa Rica, Equador e República Dominicana), não pensa em escrever as suas memórias. Houve já quem a desafiasse. Matéria-prima não lhe falta: os relatórios que escreveu, de forma sistemática, durante 40 anos para a fundação e que estão no respetivo arquivo, enriquecido naturalmente pelo espólio pessoal. “Mas eu interrogo-me: quem é que hoje na Alemanha estará interessado no que se passava naqueles anos em Portugal? Tenho dúvidas de que haja algum público alemão interessado. Agora há outras prioridades, bem diferentes.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016