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Uma solidão com S grande

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Maus tratos a idosos. O tema do próximo “E se fosse consigo?” dá visibilidade a uma realidade dura, que a todos deve dar que pensar

"Quando ela era pequenina, às vezes estava-lhe a dar banho e ela dizia "quando a mamã for velhinha...", e depois parava e começava a chorar, "eu não quero que a minha mamã seja velhinha" e hoje sou velhinha e ela não quer saber da velhinha."

Adelaide carrega o desgosto de não ouvir a voz da filha há dois anos. Da última vez que falaram desentenderam-se, a discussão foi feia. Até hoje, estão excluídas da vida uma da outra. Diz que não entende como o coração da filha mudou tanto. Razões à parte, certo é que Adelaide vive sozinha e não consegue sair de casa sem companhia.

As amigas de uma vida já cá não estão. Uma delas, perguntava-lhe de vez em quando se não pensava na velhice. E ela respondia: "Eu não, pensar na velhice para quê? Eu sei lá se chego a velha. Eu só comecei a pensar na velhice quando fiquei um ano sem mexer o braço". Na ocasião, deixou de poder contar com a mão direita e andou um ano na fisioterapia. "A primeira vez que eu mexi o café com a colherzinha, uma coisa tão simples, pensei: 'Como é tão bom ser capaz de fazer isto'... eu não me podia vestir sozinha, não me podia abotoar...". Aprendeu a escrever com a mão esquerda e a vida continuou mas depois veio a doença do marido que o levou. Já viúva, ainda tomou conta da mãe. "Tive a minha mãe acamada, tratei dela, acho que a minha mãe foi uma velhinha muito feliz. Naquela altura eu sentia-me útil, agora não me sinto útil, sinto-me inútil", as palavras vão saindo com tristeza.

É daquelas pessoas que têm sempres histórias para contar, que desfia as memórias sem mágoas mas a apreciar a vida que teve e a forma como a viveu. Uma boa conversadora. Mas as conversas só pode tê-las ao telefone ou quando alguém aparece. Seja a rapariga a quem paga para a ajudar e levar à rua ou o fisioterapeuta ou o voluntário da Junta de Freguesia. São os dias especiais em que põe a conversa em dia.

Adelaide diz que não tem razões de queixa de quem tem aparecido para cuidar dela. Mas nem sempre é assim. Tratar de alguém desamparado ou com idade avançada é um desafio que exige dádiva e não egoísmo, paciência e não rudeza, respeito e não abuso. E nem todos têm essa humanidade, essa preparação e esse gosto.

No programa "E Se Fosse Consigo?", um idoso em cadeira de rodas é maltratado por uma mulher que cuida dele. A cena é protagonizada por dois atores mas reproduz o que acontece muitas vezes na realidade. O lugar é público, passa muita gente, mas quantos se indignam ao ponto de intervir?

Quando se pergunta a Adelaide do que sente mais falta, a resposta sai pronta: "Companhia. Do que sinto mais falta é de companhia. Não é de espectáculos, não é de cinema, não é de praia, que eu gostava muito. Começava a ir à praia em Abril, a última vez que fui foi em 2004."

"Às vezes, quando vejo estes dias de sol, ponho-me ali a olhar à janela, vejo a ponte... se eu pudesse sair mesmo só com uma canadiana beber um cafezinho, conversava com as pessoas." No silêncio da casa, pensa muito na vida que já passou, nos colegas de trabalho, que eram como uma família, nas férias em Lagos quando a filha era pequena, nas idas ao cinema com o marido "saíamos da primeira matiné e entrávamos na segunda", nas reuniões de família no Natal, quando o pai fazia sempre questão de ter pão e azeite na mesa. Nos últimos três anos, o Natal foi sem a filha e sem os netos.

Para onde a conversa vá, Adelaide tem palavras para acompanhar o rumo. O que lhe vale são os livros, "Se estou a ler é a única forma de não pensar em coisas aborrecidas e tristes, porque quando estou a ler estou a ver e então não penso em mais nada". De vez em quando, fica chocada com o que vê nas notícias sobre os mais velhos, maltratados em lares, abandonados nos hospitais, ignorados pelas famílias: "Acho que há falta de humanidade, perderam-se os valores, é uma pena. Eu gostava que esta gente nova, os filhos, os netos, não se esquecessem dos idosos, não se esquecessem dos pais, não se esquecessem dos avós". No que à vida dela diz respeito, não tem dúvidas sobre o maior desejo nesta fase da vida, voltar a ouvir a filha: "A coisa melhor que me podia acontecer era ouvir a voz dela ou ela dizer-me ou consentir que eu dissesse: 'vamos pôr uma pedra neste assunto, não aconteceu nada'. Eu estou no meu final de carreira, não sei se posso durar um ano, não sei se posso durar seis meses, dois anos..."

Os números que se conhecem sobre maus tratos a idosos registam agressões verbais, físicas, psicológicas, falta de cuidados de saúde, alimentação deficiente, excesso de medicação ou exploração financeira mas, entre todos, a solidão vem no início da lista.

Como diz Adelaide na lucidez dos seus 84 anos: "A solidão é uma forma de maltratar os idosos, porque normalmente são mais novos e não sabem, não avaliam o que é a solidão... e uma solidão com S grande é muito triste".

"E Se Fosse Consigo?", esta segunda-feira, às 20h50 na SIC, a seguir ao "Jornal da Noite".