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“A Europa precisa de crescer para o Atlântico”

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Octávio Passos

Apesar do séc. XXI ser considerado o século do Pacífico, o presidente da IPDAL (Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina) acredita que o Atlântico pode ser um grande oceano do comércio e que Portugal pode desempenhar um papel central na triangulação América Latina-Europa-África. Esta questão será debatida hoje e amanhã em Lisboa ao mais alto nível

No dia em que arranca o V Encontro do Triângulo Estratégico América, Latina - Europa - África, Paulo Neves, o presidente do Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina (IPDAL) antecipou o que vai ser discutido neste fórum, que reúne esta segunda e terça-feira, em Lisboa, embaixadores de mais de 50 países, o chefe da Casa Real de Marrocos, o Presidente da República, o ministro dos Negócios Estrangeiros e a ministra do Mar, entre outros. “Há um enorme potencial no Atlântico que deve ser explorado e que tem que ser debatido. A diplomacia triangular é essencial. Teremos oportunidade de discutir isso neste encontro”, afirma ao Expresso Paulo Neves.

Embora o séc. XXI seja considerado o século do Pacífico, o presidente da IPDAL acredita que o Atlântico pode ser um grande oceano do comércio internacional e que Portugal pode desempenhar um papel central na triangulação América Latina-Europa-África. “A Europa precisa de crescer para a frente, para o Atântico e Portugal tem que estar à frente nesta discussão. É errado dizer que somos um país periférico, só se em relação à Europa, porque temos uma posição geoestratégica no Atlântico e somos muito maiores no mar do em que terra”, sublinha.

Além da dimensão atlântica de Portugal, com dois arquipélagos virados para esse triângulo – a Madeira mais próxima da América do Sul e de África, e os Açores mais próximos dos EUA – o país tem uma relação histórica com a América Latina e pertence à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), aspetos que Paulo Neves considera que não podem ser esquecidos.

Oportunidades em mais de 130 países

Segundo o responsável, a América Latina está a olhar pouco para a Europa, cabendo ao velho continente fazer com que países como o México e a Colômbia estejam mais atentos às oportunidades comerciais. “Estamos a falar em três continentes, 133 países e 2300 milhões de consumidores. Há aqui oportunidades inequívocas que têm que se aproveitar. A Europa não pode continuar com esta lentidão perante o impasse no acordo Mercosul-UE. São precisos acordos de livre comércio justos.”

As exportações portuguesas para a América Latina atualmente correspondem ao dobro do valor de há cinco anos, ultrapassando os 3 mil milhões de euros, mas ainda é um valor reduzido em termos absolutos. “Quando se vende mais para a Galiza do que para a América Latina, algo de mal se está a passar. A distância não é desculpa, veja-se o caso de Angola”, observa.

Por exemplo, África tem grandes necessidades ao nível da agro-indústria e a Argentina e o Brasil têm fortes conhecimentos no sector, pelo que Portugal podia ser o intermediário nessa relação, sustenta o presidente da IPDAL. “Uns têm as necessidades, outros o dinheiro e outros o conhecimento. Há espaço para criar aqui relações”.

Guterres defende triângulo estratégico

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Esta segunda-feira, o V Encontro do Triângulo Estratégico América - Latina - Europa - África contou na abertura com a transmissão de uma mensagem gravada por António Guterres, candidato a secretário-geral da ONU, onde afirma que “o triângulo estratégico é uma prioridade”.

No final do encontro – que conta com diversos painéis que reúnem empresários, dirigentes políticos e investidores – será elaborado um policy paper com as conclusões do debate e a apresentação de dois relatórios. As recomendações serão enviadas este ano à Secretaria-Geral Iberoamericana (SEGIB), em Madrid, à Comissão Europeia, em Bruxelas, e à União Africana.

Está também prevista a discussão das conclusões do encontro em Madrid, no Instituto Real Elcano, na cidade da Praia, em Cabo Verde, e em Bruxelas. “Porque é preciso sensibilizar as instituições e os organismos dos vários países. No fundo é preciso passar do papel à prática”, conclui.