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A realidade pelos olhos da Facebook

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PRESTAR CONTAS. O patrão da Facebook vai prestar contas esta quarta-feira a alguns media conservadores norte-americanos que o acusam de os censurar naquela rede social

Reuters

É já depois de amanhã que Mark Zuckerberg vai prestar contas a um grupo de responsáveis de vários media conservadores norte-americanos. O “patrão” da Facebook é acusado de estar a filtrar as notícias de alguns meios de comunicação provenientes daquela área política. Ou seja, a escondê-las dos murais de milhões de utilizadores daquela que é a rede social digital mais utilizada no planeta.

A área “Populares” (ainda não está disponível no Facebook em Portugal) mostra tópicos, tendências e hashtags. Basicamente, revela os assuntos que estão a ganhar mais tração a cada momento. Aquilo que o Twitter já tem quase desde a sua génese. Supostamente, estes conteúdos são mostrados graças à “magia” de algoritmos que cruzam algumas variáveis. O local onde estamos, as páginas que visitámos no Facebook (ou aquelas de que gostamos), os gostos que fazemos… etc. Há pouco escrevi “supostamente” porque ex-trabalhadores daquela rede social vieram a público dizer que esconderam propositadamente da área “Populares” conteúdos provenientes de media conservadores que deveriam, se fossem respeitadas as regras dos algoritmos, aparecer com destaque naquela área (pode ver AQUI).

Aliás, estes curadores de conteúdos também revelam que receberam instruções para inserir artificialmente artigos nessa listagem. Artigos que, segundo as mesmas fontes, depois de destacados ascendiam, na maior parte das vezes, a número 1 da lista “Populares”. E quem são os curadores contratados pela Facebook? São jornalistas. Contratados na Ivy League (as 8 universidades norte-americanas mais conceituadas) e em universidades privadas prestigiadas. Estes jovens foram, alegadamente, instruídos a procurar outras fontes para notícias provenientes de órgãos de comunicação assumidamente de direita. “Tínhamos de procurar a mesma notícia, mas de uma fonte neutra”, chega a dizer uma das fontes ouvidos pelo Gizmodo.

O gestor dos “Trending Topics” na Facebook já veio dizer que não encontrou provas destas acusações (ver AQUI). O próprio Zuckerberg confirma a não existência de provas e os encontros que vai ter com alguns elementos da ala mais conservadora norte-americana (ver AQUI)

A responsabilidade da Facebook

Vamos por partes. Todos os sites informativos usam estratégias semelhantes às da Facebook para criar tração à volta dos conteúdos que os editores intuem serem os mais apetecíveis pelas suas potenciais audiências. É assim que são definidas quais as notícias que ficam na homepage mais tempo e em destaque. Depois, a leitura das audiências (o que é clicado, quando é clicado, o que é partilhado…) permite traçar perfis dos utilizadores e detetar padrões. Os conteúdos que funcionam melhor de manhã, junto dos homens, das mulheres, dos que são de direita, de esquerda, por exemplo.

Infelizmente (digo-o como produtor de conteúdos), não existe uma fórmula certa para conseguir a eficácia total. As audiências no digital são muito flutuantes e centram-se, hoje, muito, no Facebook. A grande diferença é que nos sites de informação sabe-se que são os editores a tomar a decisão sobre a forma como o conteúdo é mostrado. No caso do Facebook, até agora, a ideia geral é que a seleção da informação era, realmente, baseada em máquinas. Tudo estaria entregue ao todo-poderoso algoritmo, como pode ler-se na PÁGINA OFICIAL DO FACEBOOK ONDE É EXPLICADO COMO FUNCIONAM ESTES TÓPICOS.

NESTE artigo da “Wired” é apresentado um estudo do Pew Research onde se apura que 63% dos utilizadores do Facebook toma contacto com as notícias no seu mural. Ora, esta rede social tem 1.650 milhões de utilizadores. O valor é impressionante e a responsabilidade da Facebook enorme.

A empresa de Zuckerberg não é um órgão de comunicação social e não está, por isso, obrigada, por exemplo, às regras da deontologia. Mas perante a imensidão de utilizadores, é fácil perceber a capacidade que a Facebook tem de moldar a atualidade. Não mostrar notícias provenientes de alguns meios de comunicação tendo em conta a sua orientação política é uma deturpação da realidade. Não é um contributo para uma democracia saudável. Mas há o outro lado da moeda.

E reforço: a Facebook não é, mesmo, um órgão de comunicação social. A sua matéria-prima são as pessoas. Nós, todos. O que sentimos. O que lemos. Do que gostamos. Do que não gostamos. É uma empresa que faz dinheiro com as nossas emoções. Ponto. Não existe aqui qualquer dever cívico. Nenhum propósito nobre. É receber dinheiro pela publicidade que é servida tendo em conta o nosso perfil na rede.

Por isso, o encontro que Zuckerberg vai ter depois de amanhã com uma dúzia de conservadores é algo que se insere na esfera do “politicamente correto”. Uma cortina de fumo e uma benevolência de Mark. Na realidade, com 1.650 milhões de pessoas do seu lado, a Facebook pode mandar passear, literalmente, os críticos e continuar a fazer business as usual. É verdade que não se tem livrado de problemas legais, mas vender as informações pessoais é o seu negócio. E ninguém pode iludir-se do contrário. Disso e de que, apesar de nos venderem a ideia de que os algoritmos são capazes de verdadeiro milagres, neste caso, a intervenção humana é crítica e enviesada.

Qual é a agenda política da Facebook? Existe uma? Se sairmos da rede social e virmos como os bots (sobre os quais escrevi AQUI a semana passada) estão a ser usados na campanha das primárias das presidenciais norte-americanas (veja AQUI), é fácil perceber como as tecnologias estão a ter cada vez mais peso na atividade política. E quem controla a tecnologia? Em última análise, é quem a produz. Quem a faz. Não são os políticos. Podem pagar a conta, mas estão dependentes de terceiros. Não é uma situação nova nos EUA (basta relembrar a presidência de Obama e a sua presença nas redes sociais), mas a balança que medeia a relação de forças entre a política e a tecnologia pende, cada vez mais, para o lado dos geeks. Nós, cidadãos, temos sempre a “bomba atómica” na mão: deixar o Facebook, abandonar as redes sociais. Fácil, certo?