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Viver o amanhã como dantes

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Na loja Maria Granel, em Lisboa, os produtos são vendidos a granel

mário joão

Andar em veículos sem motor, comprar produtos a granel e receber encomendas de estafetas em bicicleta. O segredo pode estar num regresso ao passado. Para preservar o futuro

Vivemos rodeados de produtos de grande consumo e andamos em carros que poluem mais do que esperávamos (e acreditávamos), mas tudo pode estar prestes a mudar. Há pequenos sinais de que o estado de coisas vai alterar-se em breve e há quem arrisque dar o primeiro passo. Pode ser pequeno, dado a medo, mas vale a pena. O dia a dia revela-se mais cheio e, se os passos se continuam a notar, a pegada ecológica tenderá a descer. Basta um conjunto de pequenos hábitos a adotar para que as rotinas mudem e a ecologia faça parte da forma de cada um olhar e viver o mundo.

O mais importante é começar e se a taxação dos sacos de plástico obrigou os portugueses a alterar a forma como transportam as suas compras — substituindo os sacos descartáveis por outros reutilizáveis e recicláveis —, o abandono das embalagens industriais em tudo o que consumimos pode ser o próximo passo. É uma tendência e é também o regresso a um passado que pode construir um futuro mais verde. Possivelmente não haverá nada que justifique a utilização de tantas embalagens e há espaços recentes que oferecem a possibilidade de comprarmos apenas as quantidades que queremos, sem a ditadura das embalagens.

No Maria Granel, na zona lisboeta de Alvalade, é possível encontrar avulso — ou como o nome da loja indica, a granel — vários produtos de origem biológica. A escolha é grande. São mais de duas centenas de artigos diferentes, que vão das especiarias aos frutos secos (como as amêndoas ou as avelãs) e nos quais se contam ainda gomas de origem biológica. Aqui nada falta e a produtos que se tornaram moda pelos seus benefícios para a saúde, como as bagas goji, a flor de anis ou o gengibre, juntam-se por exemplo as especiarias de sempre. Os chás têm um ar especial e comprá-los assim, como se estivéssemos no mercado de um país exótico, tem outro sabor. Às opções nas fotografias destas páginas juntam-se muitas outras, numa seleção alimentar que inclui ainda algumas farinhas, cacau em pó ou café em grão. Com algumas variações, a oferta neste género de lojas acaba por repetir-se por todo o lado e tende a multiplicar-se à medida que os consumidores se rendem a esta nova (ou antiga) forma de comprar.

REGRESSO ÀS ORIGENS

Há mais opções de escolha por todo o país e o que parece óbvio é por vezes esquecido. Os mercados tradicionais — ao ar livre em praças públicas ou em espaços concessionados — são sempre uma boa escolha para quem quer regressar a uma forma de vida mais sustentável. Nas grandes cidades ou nas mais pequenas, a escolha é grande e esta é também uma forma de apoiar os pequenos produtores. É lá que os produtos mais frescos chegam com uma relação qualidade-preço mais vantajosa e onde é possível manter uma maior proximidade com os vendedores. Estes são capazes de o aconselhar sobre a qualidade de cada produto e escolher os melhores. Há outra vantagem: esta forma de lidar com a compra de alimentos é uma maneira de apoiar os produtores locais.

mário joão

A história da fruta é outra e há uma iniciativa que pretende dar um lugar à fruta que não se encontra nos supermercados. Trata-se da Fruta Feia, nome de uma cooperativa que conta com um grande número de associados em todo o país e que tem já três locais de venda ao público (Casa Independente e Ateneu Comercial de Lisboa, em Lisboa, e na SMUP, na Parede). Para este ano, a iniciativa que evita o desperdício de quatro toneladas de alimentos por semana e que conta com 800 consumidores associados tem o objetivo de abrir um espaço na Invicta. Opções não faltam, mesmo para quem tem falta de tempo para escolher por si os melhores produtos. Há soluções simples que poupam tempo sem cortar na qualidade e uma delas surge em formato de cabaz alimentar. Os cabazes de produtos biológicos são uma forma alternativa de comprar o melhor da terra com maior comodidade e a oferta é vasta. São várias as empresas que operam por todo o país. Dos cabazes mais simples aos mais completos, em destaque estarão quase sempre as frutas e legumes da época, de acordo com a região de proveniência.

COM OS PÉS NOS PEDAIS

Não é só na alimentação que podemos ser mais verdes e a forma como nos deslocamos tem também uma grande influência no estilo de vida. Não será preciso usar o carro para todas as deslocações e há veículos mais simples e capazes de cumprir as voltas mais pequenas que todos os dias se fazem em cidade. Embora ainda não seja possível ou cómodo viver apenas de bicicleta (comum em cidades europeias como Amesterdão), Lisboa e Porto já estão mais cicláveis. Os municípios têm apostado na criação de ciclovias e os resultados já começam a notar-se. Há mais gente a deixar o carro e a optar pelos pedais. Para o futuro está pensada a implementação de uma rede de bicicletas de aluguer, mas enquanto isso não acontece é possível utilizar as privadas para as deslocações mais pequenas.

Pedalar também é negócio e Pedro Ventura fundou a Camisola Amarela com o objetivo de facilitar o mundo das entregas de mensagens expresso e mercadorias. Até pode parecer estranho, mas a empresa que gere faz a maior parte dos serviços através de estafetas em bicicleta (para cargas até 200 kg e 1 m³). É uma aposta ecológica e que tenta resolver problemas como o dos furgões nos passeios e em segunda fila. O last mile delivery é novidade e responde à problemática da finalização das entregas. A última milha pode ser a pior, mas há sempre formas de melhor. Pensar verde é e tem de ser uma prioridade. Cabe a cada um perceber quais os hábitos sustentáveis que consegue adotar. A mudança está aí. Não há desculpas para se manter indiferente.