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Experimente viver sem ele. Consegue? Pois...

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Ian Gavan

Tal como o vício de tomar café sempre que se faz um intervalo ou se puxa do cigarro, também espreitar o telemóvel para ver se entrou algum e-mail, mensagem, notificação, chamada não atendida e afins tornou-se um hábito diário para a maioria de nós. Fazemo-lo, em média, 80 vezes por dia, para ser mais exato. Consegue viver seu o seu smartphone? Pois...

Lembra-se da última viagem que fez sem o seu telemóvel? Do último dia que passou com o telefone desligado? Ou da última vez que o deixou voluntariamente em casa? Não? Deixe lá, é normal. Nos últimos anos, os smartphones passaram a ser presenças tão regulares na nossa vida que só lhes falta ocuparem um assento no sofá lá de casa (se calhar até já ocupam). Se antes uma família se reunia ao serão em frente à televisão, hoje reúnem-se à mesma, mas cada um munido do seu telemóvel. Há todo um mundo para verificar, a todo o momento: as notificações e os 'likes' da última foto que postámos no Facebook, as campainhas de aviso que indicam que aquela conversa de grupo do Whatsapp continua ao rubro para planear a festa surpresa de um amigo; é preciso ver se entrou algum e-mail a que tenhamos mesmo de responder; ou dar uma vista de olhos pelas últimas notícias. Sim, os smartphones abriram todo um universo novo – mas criaram também um possível vício.

Dados da Apple revelam que a maioria das pessoas desbloqueia o seu iPhone cerca de 80 vezes por dia. Se for um utilizador de Android, esse hábito de passar o dedinho no ecrã sobe para os 110 por dia. Isso quer dizer que mexemos no telemóvel cinco vezes por hora para "ver o que lá está". Parece muito, não é? E se lhe dissermos que em 2015 os norte-americanos passaram 4,7 horas por dia à frente do smartphone? Se não tiver ideia nenhuma de quanto tempo por dia dedica - ou perde - a olhar para o seu telemóvel, pode sempre munir-se das ferramentas certas para travar esta guerra: apps, claro. A Checky diz-lhe quantas vezes desbloqueia o seu telemóvel e o Moment diz-lhe quanto tempo passou a olhar para o ecrã.

Não é assim tão difícil perceber - e explicar - porque é que o telemóvel exerce um apelo tão grande sobre nós. Procuramos gratificação imediata no aparelho, recompensas materializadas em likes, retweets, mensagens ou comentários. De cada vez que existe atividade no nosso smartphone, o cérebro liberta uma pequena dose de dopamina, substância neurotransmissora que gera uma sensação de prazer.

Theo Wargo

Faça o seguinte exercício: pergunte-se se ao longo do dia existem períodos em que se afasta do seu telemóvel. E quando vai dormir, desliga-o? Ou dorme com ele no quarto, à distância de um braço, "não vá acontecer alguma coisa"? Segundo dados da empresa Telefónica, na vizinha Espanha 90% dos espanhóis afirmam não se afastarem mais de um metro do seu telefone durante todo o dia, e 72% não o desligam quando se vão deitar.

Há coisas que pode fazer, claro, para minorar esta omnipresença do telefone, que interrompe pensamentos e conversas a toda a hora com alertas, campainhas e vibrações. Pode começar por desligar as notificações nas definições gerais do telemóvel. O seu telefone não tem obrigatoriamente de dar sinal sempre que recebe um e-mail ou uma notificação no Facebook. Até pode ir mais longe e pô-lo no silêncio, consultando-o apenas quando você quer e não quando "ele" quer. Isso atribui-lhe mais controlo na sua vida, com menos interferência. E resgata-lhe um tempo precioso: aquele de que nós e o nosso cérebro precisamos para não pensar em nada. O tempo necessário para termos ideias, lembrarmos bons momentos, reafirmarmos objetivos perante nós mesmos e... aborrecermo-nos. Isto pode surpreendê-lo, mas o tédio tem uma enorme importância na nossa capacidade de sermos criativos. E pasme-se: existia vida social – muita, intensa e divertida - antes da chegada dos telefones de terceira geração. Lembra-se?