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Crónica de um padre na grande missa do rock’n’roll

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rita carmo/blitz

Fã assumido de Bruce Springsteen, o padre José Tolentino Mendonça foi ao Parque da Bela Vista vê-lo e ouvi-lo. Eis, na primeira pessoa, o seu relato de como vibrou e viu vibrar mais 67 mil pessoas que foram em romaria ver “The Boss”

A NOITE PERTENCE A BRUCE SPRINGSTEEN

Houve um momento em que Bruce Springsteen pegou na velha canção feita a meias com Patti Smith, “Because the Night”, e explicou aos milhares que acorreram ao relvado do parque da Bela Vista a quem é que a noite pertence. Explicou com a força de quem arrisca um manifesto e com a intimidade de quem soletra, entre iguais, uma confidência.

Virava-se para um lado e para outro da multidão e esperava que fossemos nós a dizer, sucessivamente “Because the night belongs…”, “Because the night belongs…”, até cantarmos juntos que a noite nos pertence. O que é verdade e não é. E simplesmente por isto: a noite pertence a Bruce Springsteen. E o concerto desta quinta-feira pode bem ser contado como essa poderosa revelação.

RITA CARMO/BLITZ

Por duas horas e três quartos, unindo canções quase sem pausas, ao jeito do fumador que acende compulsivamente os cigarros uns nos outros, e está ali ocupado unicamente com a sua obsessão, Bruce foi ele próprio. Ouvíamo-lo apenas a arrancar para os músicos o sinal “um, dois, três” e a deixar-se ir: a guitarra, a harmónica, a garganta recôndita e o resto, claro. Os braços levantados, os saltos, as palmas, a noite transformada em paisagem sonora, o microfone partilhado com o público, o avanço pela plataforma para ser tocado por um mar de mãos, para propagar-se também fisicamente, mostrando que não podia estar nem mais entregue, nem mais próximo.

Quem é este Bruce Springsteen? É um cowboy do asfalto. Um profeta bíblico. Um aborígene que vem até nós descendo o rio na sua jangada. Um sonhador insone. Um soldado cheio de ferimentos, a maior parte deles incuráveis, dos combates do amor. Um vigia da alegria e dos seus abismos. Um narrador para a solidão dos homens e para a invencível esperança. Ele é tudo isso. E também uma central alquímica de altíssima voltagem, uma rebentação de vida que não resigna, um incrível fenómeno estelar em expansão.

Chegou dizendo “olá Lisboa”, “olá Portugal” e atirou-se aos acordes de “Badlands” que é, como se sabe, um lamento ditado com voz de protesto contra as luzes apagadas que trazemos, mas também uma profissão de fé no amor que pode salvar. Entramos na noite ambivalente por essa porta que Bruce abria com a cumplicidade implacável dos seus músicos, Roy Bittan, Nils Lofgren, Garry Tallent, Steven van Zant, Maz Weinberg, Soozie Tyrell e Jake Clemons: uma tribo grandiosa. E por essa porta escorreu a grande surpresa. Seria ao álbum “Born in the USA” e não a “The River”, como era esperado, que Springsteen iria buscar o maior número de canções para este concerto.

RITA CARMO/BLITZ

Trouxe-nos novas versões de si mesmo, coisas que conhecíamos há muito ou de outra maneira, e que a repetição tornava agora mais puras, mas através de um estranho efeito de impureza onde a temporalidade ficava a descoberto e a sua combustão iluminava lugares perto de nós que desconhecíamos. Na sequência “Born in the USA”, “Born to Run”, “Glory Days” e “Dancing in the Dark”, Bruce arrancou literalmente a multidão do chão. A noite é um veículo inventado para que o contrabando dos sonhos se dê. Oiçam-no a ele. A noite fala uma língua de veludo e de fogo. Oiçam-no. A noite é uma dança e um duelo. A noite deflagra com a sua matéria brilhante. Oiçam-no ainda. A noite é o espinho cravado na carne e, ao mesmo tempo, a rosa que flutua pelos séculos. A multidão ouvia e flutuava na noite prometida.

Perto das duas e meia da manhã, já não tão longe assim do amanhecer, Bruce Springsteen regressa ao palco para dedicar a Lisboa uma última canção. A escolha recaiu sobre “This Hard Land”, uma jura de fraternidade que acaba dizendo que se tudo vier a correr mal, ao menos permaneçamos vivos e sedentos, pois sobre a terra dura sempre nos reencontraremos dentro dos nossos sonhos. Bruce Springsteen, o patrão da noite, sabe do que fala.