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Acorda! Ele não manda em ti

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O próximo programa “E Se Fosse Consigo?” testa as reações perante um rapaz que insulta a namorada em público e tem atitudes violentas. A cena foi feita com atores mas podia ser real. Alguém está disposto a intervir?

Quando começou a ser controlada, Ana diz que não estranhou. Ele era uns anos mais velho, ela pensava que os relacionamentos a sério provavelmente eram mesmo assim. Por isso, quando ele a impedia de ir ter com os amigos, ela cedia. Quando ele lhe pediu a password do Facebook ela cedeu e cedeu ainda quando ele sugeriu que tivessem uma página em comum. A pouco e pouco, os contactos da agenda telefónica foram passando para ele, até ao ponto de ela pedir aos amigos que não lhe enviassem mensagens. Para ele não ver. Um dia em que iam os dois sair, ela foi obrigada a voltar a casa para mudar de roupa: “Tu comigo não vais nessa figura, friso figura, a lado nenhum. É para quê, para olharem para ti? O que é meu é meu.” Se não tivesse mudado de roupa e insistisse na “triste figura”, não tinha saído nessa noite. Uma das poucas vezes em que podia conviver com outras pessoas, ou pelo menos ter essa ilusão.

Ele passou a controlar tudo da vida dela e ela foi deixando de ter vontade própria. Agora consegue ver o que lhe aconteceu na adolescência: “Perdemos sobretudo a capacidade de olhar ao espelho e de gostarmos daquilo que vemos, tanto intelectualmente como fisicamente”. Agora sabe que devia ter saído daquela relação ao primeiro sinal.

O próximo programa "E Se Fosse Consigo?" testa as reações perante um rapaz que insulta a namorada em público e tem atitudes violentas. A cena foi feita com atores mas podia ser real. Alguém está disposto a intervir?

“Se te deixas ser controlada, deixas-te ser ofendida, se te deixas ser ofendida deixas-te ser agredida e passa de um estalo a dois, de dois estalos a um puxão de cabelos e a seguir o empurrão, o pontapé”. A cada vez, o agressor vem com o pedido de desculpas “porque estava exaltado, porque tu me fazes 'passar da cabeça'”. E Ana continua: “A fragilidade emocional em que ele nos coloca é tanta que nós chegamos a acreditar que sim, que ele nos está a atribuir culpa porque nós de facto fizemos aquilo e nós é que desencadeámos aquela reação, quando na verdade não é assim.”

O caso de Ana é exemplo do ciclo habitual de violência entre namorados. Ela ia desculpando sempre, à espera que as agressões parassem. Nunca pararam. Pioraram até ao dia em que ele a trancou no carro, fechou os vidros e subiu o volume do rádio para que quem passasse no parque de estacionamento não ouvisse os gritos de socorro. Foi em plena luz do dia. Ela acabou por conseguir libertar-se e foi direto para o hospital, onde chegou com o pulso partido, os olhos negros, os braços pisados. “Eu costumo dizer que desejo que ele sentisse só um décimo das dores que eu senti naquele dia.”

E a partir desse dia, o namorado ficou a contas com a justiça que o condenou. Ana não esperava uma pena pesada mas queria que acreditassem na palavra dela. Acreditaram.

Muitos relatos como os de Ana não chegam sequer às autoridades. Os últimos números da PSP registam um aumento do número de queixas relacionadas com violência no namoro. O relatório de 2015 refere 1.680 participações, a maioria delas feitas pelas vítimas. A polícia atribui o aumento a uma maior visibilidade deste problema na sociedade portuguesa, que só em 2013 foi considerado crime público. Qualquer pessoa pode fazer uma denúncia mas, antes disso, é preciso olhar para o terreno livre em que os agressores se movimentam, quando muitas das jovens aceitam o controlo e sentem que as manifestações de ciúme e posse são o máximo que podem ambicionar. É preciso perceber por que razão na altura em que as raparigas ambicionam ser independentes, ganhar autonomia, se deixam envolver neste jogo de poder em que estão dispostas a perder. Em nome da palavra amor que, pelo que a realidade mostra, não sabem o que significa. O que está a falhar?

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