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“Queremos liderar a sustentabilidade do mar”

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Tiago Miranda

Entrevista a Tiago Pitta e Cunha. administrador do Oceanário de Lisboa, um dos maiores especialistas portugueses em assuntos da ciência, ambiente e mar

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A “National Geographic” e o Oceanário de Lisboa apresentaram esta semana o relatório científico e o filme de uma expedição ao Parque Natural das Ilhas Selvagens (Madeira) que envolveu centros de investigação de Portugal, EUA, Espanha e Austrália. O relatório conclui que os ecossistemas marinhos estão bem preservados mas alerta para a sobrepesca do tubarão e atum, pesca ilegal, restos de navios afundados e microplásticos. Em entrevista ao Expresso, Tiago Pitta e Cunha fala da Fundação Oceano Azul que o Oceanário vai criar, “a primeira do sul da Europa dedicada à sustentabilidade dos oceanos”.

Como surgiu esta parceria com a “National Geographic”?
A rede de parceiros começou a ser estabelecida no momento em que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins) resolveu concorrer à concessão do Oceanário de Lisboa. Achámos importante que a proposta estratégica subjacente ao concurso fosse apoiada por parceiros nacionais e internacionais de grande credibilidade. E a “National Geographic” foi um deles, e acabou por incluir Portugal no itinerário das suas expedições científicas.

Que vantagens traz?
Tem uma visibilidade e uma reputação internacional sem paralelo, o que é importantíssimo para Portugal.

E os outros parceiros?
Vamos ter o Estado e o Governo como parceiros na sustentabilidade e literacia dos oceanos. Para o concurso do Oceanário reunimos 40 parceiros ligados ao sistema científico nacional, fundações americanas e suíças com grandes programas ambientais e ONG, que apoiaram a nossa proposta de criação da Fundação Oceano Azul, exclusivamente dedicada à sustentabilidade dos oceanos.

Há mais fundações deste género na Europa?
Na Europa do Sul é a primeira, o que é disruptor porque a região é conotada pelas grandes organizações internacionais defensoras dos oceanos como a Europa amiga das pescas e não a Europa amiga dos peixes. Criar um centro que atrai talento nacional e internacional e que quer liderar a sustentabilidade do mar no sul da Europa é motivo de enorme satisfação para organizações como a “National Geographic”, o WWF, a Oceana, etc. O Oceanário e a fundação vão investir €110 milhões nos próximos anos, o maior investimento de sempre em Portugal nesta área.

Há ambições globais?
Sim, a fundação precisa de jogar nas arenas internacionais em que as questões da sustentabilidade dos oceanos se discutem e se decidem. Mas há também objetivos em Portugal, um estado quase arquipelágico com uma área marinha 40 vezes maior do que a área terrestre emersa, onde a sustentabilidade dos oceanos é absolutamente crucial no século XXI.

Portugal está a fazer um bom trabalho nas Selvagens?
Quando a “National Geographic” vai às Selvagens e descobre que está bem conservada, que as espécies estão em harmonia, desenvolvidas e com menos sinais de degradação ambiental do que noutras regiões, significa que Portugal fez um bom trabalho. A conservação dos ecossistemas marinhos é um investimento no capital natural e não um custo.

Então vale a pena investir?
Nas áreas protegidas a produção de biomassa (de stocks pesqueiros) aumenta de tal maneira que transborda para fora dessas áreas e, por isso, contribui também para a economia do mar. Assim, são um exemplo concreto do capital natural azul em ação, têm um impacto enorme e permitem que o capital manufaturado das economias venha a ganhar.

O Relatório Científico da expedição alerta para várias ameaças, como a sobrepesca.
Em Portugal continua a haver sobrepesca de tubarões, nomeadamente da Madeira, quando é feita a pescaria do peixe-espada. É um problema grave porque o tubarão, tal como o atum, é fundamental para a harmonia dos ecossistemas marinhos, pois está no topo da cadeia alimentar. Continuamos a comer os leões e os tigres do mar quando comemos predadores, coisa que não fazemos em terra. E corremos o risco de chegar a 2050 sem predadores no mar se não fizermos nada.