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Professores nota 20

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RECONHECIMENTO José de Melo Órfão foi distinguido com o Prémio de Excelência Pedagógica da Faculdade de Engenharia do Porto. É um dos preferidos dos alunos

lucília monteiro

Famosos ou anónimos são exímios a cativar plateias e a dominar a arte de bem ensinar. Voltámos à universidade para ver como se faz

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

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Lucília Monteiro

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Luís Barra

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Há professores eloquentes, aborrecidos, cativantes, monocórdicos, fascinantes. Professores que chumbam a torto e a direito. Professores que nunca esquecemos. Por maus motivos e por boas razões. Por serem sumidades nas matérias que ensinam, porque falam de uma forma que nenhum aluno deixa de ouvir, porque simplificam o que é complicado, porque promovem o pensamento crítico, a criatividade e a discussão. São esses os preferidos dos estudantes, aqueles que têm os auditórios cheios e as disciplinas lotadas.

Longe vão os tempos em que o professor era rei e senhor na sala de aula, autoridade inquestionável, mesmo que muito questionáveis fossem os seus métodos de ensino. Os tempos mudaram, os alunos tornaram-se mais exigentes e reivindicativos e ao longo das últimas décadas cada vez mais instituições de ensino superior aplicaram sistemas de avaliação. Aos estudantes passou a pedir-se que se pronunciassem sobre a qualidade das aulas.

No Instituto Superior Técnico, um dos primeiros a querer saber o que diziam os alunos sobre os seus professores, foi desenvolvido o Sistema de Garantia da Qualidade do Processo de Ensino e Aprendizagem (QUC). Todas as disciplinas de licenciaturas, mestrados e doutoramentos são sujeitas a este escrutínio e os estudantes têm de fazer a sua avaliação, sob pena de não se poderem inscrever no semestre seguinte.

Há perguntas sobre a carga de trabalho exigida e sobre os professores. O docente mostrou-se empenhado? Expôs os conteúdos de forma atrativa? Demonstrou interação com os alunos? Neste caso, são os estudantes que dão as notas aos professores. E em cada ano os dois ‘melhores’ são distinguidos com o Prémio IST de Excelência no Ensino. Os piores enfrentam consequências, que vão da mera “observação” para corrigir aspetos “facilmente ultrapassáveis” até uma auditoria que pode incluir observação de aulas ou técnicas de coaching pedagógico.

Se no Técnico há o QUC, na Universidade de Aveiro usa-se o SGQ (Sistema de Garantia da Qualidade), que funciona em moldes muito semelhantes, a partir de inquéritos aos estudantes sobre o desempenho dos seus professores. Na verdade, cá e lá fora são cada vez mais as instituições de ensino superior a usar este tipo de sistemas.

Os resultados destes inquéritos foram um dos critérios utilizados pelas instituições a quem o Expresso pediu para identificarem casos de professores populares. Entrámos em diferentes faculdades das quatro maiores universidades do país — Lisboa, Porto, Coimbra e Nova — e por umas horas voltámos a ser estudantes. Sentámo-nos em salas de aula e auditórios e ouvimos lições de Química e Física das Superfícies a Obras da Literatura Portuguesa Contemporânea. Este é o resultado dos apontamentos.

Sumário: O que dizem os teus ossos

POPULAR. As aulas de Introdução à Antropologia Forense, dadas por Eugénia Cunha, são das mais procuradas na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra

POPULAR. As aulas de Introdução à Antropologia Forense, dadas por Eugénia Cunha, são das mais procuradas na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra

LUCÍLIA mONTEIRO

Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, 4 de abril
Aula de Introdução à Antropologia Forense


Às nove da manhã de uma segunda-feira chuvosa e escura, o auditório pedido emprestado ao departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCT/UC) começa a ficar cheio. Foi preciso um espaço maior para sentar os mais de 200 estudantes que se inscreveram este ano na cadeira de Introdução à Antropologia Forense, muitos mais do que os que estão a tirar o curso de Antropologia e que têm obrigatoriamente de a frequentar. Os outros fazem-no por opção, talvez seduzidos pelas muitas séries de investigação criminal que encheram os canais por cabo nos últimos anos, admite Eugénia Cunha, professora catedrática na FCT/UC há 30 anos.

“CSI”, “Ossos”, “Dexter”, “O Mentalista”, “Castle”, “Body of Proof”. A lista podia continuar. “Às vezes é preciso trazê-los à realidade”, explicar-lhes que dali não saem diretamente para uma sala de autópsias e ajudam a desvendar crimes olhando para um par de ossos, diz. Mas se o quiserem fazer no futuro, é ali que aprendem os passos iniciais.

A primeira imagem projetada é a de um crânio. Seguem-se sacros, vértebras, fémures, cristas ilíacas. O objetivo é perceber se o corpo a que pertenciam era de um adolescente ou de um adulto. “Assim como não há duas pessoas iguais, também não há dois esqueletos iguais”, lembra ao auditório, constituído por uma larga maioria de raparigas.

Joana Duarte é uma delas. Aluna da licenciatura em Antropologia, ajuda a explicar por que razão as aulas são tão populares: “A reputação da professora precede a do curso. No 1º ano, toda a gente fica ansiosa pelo momento em que vai ter aulas com a professora Eugénia Cunha. Há poucas mulheres nesta área e muito menos com a projeção internacional que tem. É catedrática há bastante tempo e conseguiu-o não pelo tempo de casa, mas pelo currículo que tem.”

Além de ser uma das maiores responsáveis pela introdução da Antropologia Forense no ensino superior em Portugal, é consultora do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses e por isso é chamada a fazer identificação de ossos e corpos em avançado estado de degradação que surjam de Lisboa a sul. Foi presidente da Forensic Anthropology Society of Europe, trabalha com o grupo de peritos internacionais que investiga crimes contra a Humanidade e é convidada habitual de universidades e instituições policiais um pouco por todo o mundo. Assim como vêm de toda a parte investigadores que querem fazer os seus doutoramentos com Eugénia Cunha. Do Sri Lanka à Colômbia, passando pelo Brasil, onde goza de idêntico prestígio. Numa das visitas que fez a uma instituição nos arredores de Salvador da Baía chegou a deparar-se com a sua fotografia num outdoor gigante que anunciava a sua presença.

Mais do que uma simpatia pessoal ou de grande proximidade com os alunos — Eugénia Cunha faz questão de lembrar logo no início que não irá saber o nome de cada um dos 200 que estão à sua frente —, são as suas experiências e o conhecimento adquirido que vai partilhando que seguram e cativam a plateia. Depois de duas horas de apresentação da matéria, é hora de meter a mão na massa. Ou melhor, nos ossos, com os alunos a fazer exercícios de identificação de idade na altura da morte a partir de caveiras e fémures dispostos nas bancadas.

Sumário A turma que atravessou o Atlântico

LONGEVIDADE. Aos 75 anos, Jorge Miranda continua a dar aulas na Faculdade de Direito de Lisboa. É um dos mais antigos

LONGEVIDADE. Aos 75 anos, Jorge Miranda continua a dar aulas na Faculdade de Direito de Lisboa. É um dos mais antigos

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Faculdade de Direito, Universidade de Lisboa, 13 de abril
Aula de Direitos Fundamentais

“Há o professor medíocre, que diz, o bom professor, que explica, o professor superior, que demonstra, e o grande professor, que inspira”, escreveu William Arthur Ward, escritor norte-americano do século XX. E há, acrescentamos nós, os professores que se confundem com a escola à qual dedicaram anos de vida. É impossível falar do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e do estudo das Relações Internacionais em Portugal sem referir Adriano Moreira. Ou da Faculdade de Letras de Lisboa sem invocar o nome de Lindley Cintra, que permanece como figura maior da instituição e da Língua Portuguesa mais de 20 anos depois de ter morrido. Mais recentemente, quem passou pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova de Lisboa e assistiu às suas aulas não esquece a inspiração de Eduardo Prado Coelho ou as reflexões de José Gil, que o “Nouvel Observateur” considerou um dos 25 maiores pensadores contemporâneos.

Também não é possível contar a história da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa sem referir o atual Presidente da República, a quem o título de professor nunca deixará de ser colado. Marcelo Rebelo de Sousa, que deu aulas até ser eleito em janeiro deste ano, distribuía livros a quem acertasse nas respostas e metia-se com os alunos com uma informalidade, humor e à-vontade pouco comuns naquela instituição. Tal como não era habitual haver notas tão generosas nas pautas finais, o que lhe permitia conquistar mais uns pontos na admiração dos jovens.
Jorge Miranda é outro dos nomes incontornáveis daquela faculdade, onde continua a dar aulas aos 75 anos. Para um dos mais eminentes constitucionalistas portugueses, a referência maior é Marcelo Caetano. “Além do papel que teve no meu percurso profissional, pois foi ele que me incentivou a seguir o ensino, era um grande professor. Independentemente das opiniões políticas todos diziam o mesmo na faculdade. A clareza das suas exposições, a assiduidade e pontualidade, a capacidade de despertar o interesse dos alunos. Era o que mais impressionava e é o modelo que tenho procurado seguir.”

O verbo é utilizado no presente, pois se o professor catedrático está formalmente aposentado há uma década, são uma minoria os dias da semana em que não se desloca à faculdade para dar aulas de mestrado, doutoramento, orientar alunos e dirigir o Instituto de Ciências Jurídicas, cargo para o qual foi reeleito aos 73 anos. “É a minha vocação, a minha vida. Não sei fazer outra coisa senão ensinar. Enquanto tiver vida e saúde — saúde mental também — quero continuar.”

A paixão de Jorge Miranda pelo ensino é evidente. É sem hesitação que diz há quanto tempo dá aulas: “Desde o ano letivo de 1969/70, mas estive saneado 25 meses, entre 10 de janeiro de 1975 e 25 de fevereiro de 1977”. Mais difícil, se não impossível, é dizer quantos alunos já teve à sua frente. Com certeza que foram largos milhares. “São sempre 300 ou mais que entram todos os anos. Acontece-me ser cumprimentado na rua por pessoas que dizem que foram meus alunos. Eu peço desculpa por não me lembrar. De alguns com certeza. Mas de todos é impossível.”

Os alunos é que não se esquecem. Ao passar por uma secretária, recebe um cestinho embrulhado com papel transparente e uns doces dentro. “Uma aluna deixou isto para si”, diz-lhe a secretária. À porta de uma das aulas do mestrado científico em Direito Constitucional, é esperado por alguém que o cumprimenta, curvando-se ligeiramente, como se fizesse uma vénia de reverência, e pede para assistir à sessão. Lá dentro, estão cerca de 20 alunos. Todos brasileiros.

“O professor é mundialmente conhecido nesta área. É uma referência muito grande no Brasil. Como as nossas Constituições são semelhantes, faz sentido frequentar este mestrado. E também sabíamos por outros colegas que o professor sempre recebeu bem os alunos brasileiros”, explica Rafael Prates Castro.

Sumário: As aulas são como um aperitivo para o jantar

FAMA. Maria do Carmo Fonseca é admirada pelos alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa, que não perdem uma aula da premiada cientista

FAMA. Maria do Carmo Fonseca é admirada pelos alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa, que não perdem uma aula da premiada cientista

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Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, 18 de abril
Aula de Oncobiologia

Os alunos de Medicina são habitualmente tidos como marrões, não só porque precisaram de médias altíssimas para entrar como pelo gigantesco volume de matéria que têm de decorar. Isso não significa, no entanto, que sejam estudantes assíduos no ensino superior. Pelo contrário. Na maioria das aulas teóricas, são muitos os gazeteiros. As faltas são tantas que não raras vezes os professores acabam a ler a sebenta para anfiteatros quase totalmente compostos de cadeiras vazias.

Está longe de ser o caso de Maria do Carmo Fonseca, professora catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e nome maior da ciência em Portugal. As aulas dadas pela presidente do Instituto de Medicina Molecular, vencedora do Prémio Pessoa em 2010, são conhecidas por bater recordes de assistência — tanto em Biologia Molecular e Celular, do 1º ano, como em Oncobiologia, do 3º.

Quando chega ao auditório, quase sempre de ténis e calças de ganga, já dezenas de alunos a esperam. O sucesso alcançado como investigadora, comprovado por inúmeras distinções nacionais e internacionais, confere-lhe uma admiração invulgar entre os estudantes. E Carmo Fonseca fá-los acreditar que também eles poderão vir a ter o mesmo reconhecimento. “Quando falo de um avanço científico, digo-lhes sempre: esta descoberta podia ter sido feita por vocês. Estar sempre a aprender e a correr atrás das novidades é fantástico, mas poder criá-las é ainda mais.”

Para despertar nos jovens o espírito de cientista, a professora começa por desmontar tudo aquilo que dão por adquirido. “A função principal da universidade é ensiná-los a ter um pensamento crítico e a não parar nunca de questionar, porque não existem verdades absolutas. O que hoje está escrito num livro pode já não ser assim amanhã. A ciência é, por natureza, antidogma”, explica. Por isso, as aulas não servem para debitar matéria. A professora evita, aliás, perder tempo com nomes de moléculas, que facilmente poderiam tornar as lições cansativas e maçudas. O mais importante é cativar os estudantes com as últimas novidades, fazê-los pensar a partir de experiências com resultados contraditórios, “prendê-los” com histórias de sucesso de doentes tratados graças aos avanços que se sucedem e multiplicam numa área como a Biologia Molecular.

“Costumo dizer-lhes: vocês vêm à aula para perceber por que é que é importante agora irem para casa estudar o livro. Não vos vou dar os detalhes; esses têm de ser vocês a descobri-los. A aula é como o aperitivo num jantar. Serve para criar neles o apetite para saber mais.”

A “terapêutica” resulta. E é por isso que Carmo Fonseca costuma ter auditórios cheios. “Em muitas outras aulas, os professores limitam-se a dar-nos a informação e não nos mostram como é que se chegou lá. A professora não faz isso. Incita-nos sempre a querer saber mais, instiga-nos a ir à procura de novas soluções, a questionar o que achamos que já sabemos. Basicamente, põe-nos a pensar”, descreve Ana Rita Aranha, do 3º ano. Pensar. Não empinar.

Sumário: A importância de conquistar o líder rebelde

CATIVANTE. As aulas de Literatura de Paula Costa fazem sucesso e até atraem alunos de outras faculdades da Universidade Nova de Lisboa

CATIVANTE. As aulas de Literatura de Paula Costa fazem sucesso e até atraem alunos de outras faculdades da Universidade Nova de Lisboa

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Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 11 de abril
Aula de Obras da Literatura Portuguesa Contemporânea

O método de ensino de Paula Costa, professora de Literatura há 28 anos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, não é propriamente inovador. É, aliás, “o mais antiquado que há”, confessa a professora, de 53 anos: “Não passo vídeos, não uso powerpoints. Falo praticamente o tempo todo.” Dito assim, pode parecer enfadonho, mas não é. As aulas prendem desde o primeiro minuto.

A matéria ajuda — estudar obras da literatura portuguesa contemporânea pode ser, por si só, fascinante —, mas o prazer, o entusiasmo e a inspiração com que Paula Costa fala da poesia de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos ou da obra de José Saramago contagiam os estudantes. Chega a ter mais de 80 inscritos na cadeira de Literatura Portuguesa do Século XX, sendo que a disciplina só é obrigatória para os 20 alunos da licenciatura em Estudos Portugueses. Os restantes, que a escolhem como opção, vêm de muitos outros cursos da FCSH, da Filosofia às Ciências da Comunicação, e até de outras faculdades da Universidade Nova, como Direito ou Economia.

Mas foi com alunos do ensino básico que Paula Costa aprendeu a arte de cativar plateias. Aos 21 anos, mal acabou a licenciatura, foi dar aulas para a Escola Secundária Josefa de Óbidos, junto ao Casal Ventoso, o bairro de barracas conhecido, à época, como o maior hipermercado de droga do país. À sua frente tinha uma turma do 8º ano quase totalmente composta por repetentes, muitos deles já traficantes e marginais. Daniel, que chumbara quatro vezes, media quase dois metros de altura e já tinha 18 anos, menos três do que Paula Costa, era o líder da turma. Na primeira aula, entrou na sala aos pontapés. Era o pesadelo de qualquer professor, mais ainda de um estreante.

Prender a atenção dos quase 30 jovens para conseguir ensinar-lhes “Os Lusíadas” parecia missão impossível. A única hipótese, pensou Paula Costa, era conquistar o “líder”. Chamou-o à parte, disse-lhe que precisava da sua ajuda e confiou-lhe uma tarefa de responsabilidade: Daniel teria de ler e apresentar aos outros alunos, na aula seguinte, o episódio da Ilha dos Amores. Teria de ser ele, por ser mais velho e muito mais maduro do que os colegas, que provavelmente ainda não compreendiam tão bem os “assuntos do coração”, disse-lhe. O argumento apanhou-o de surpresa. Estava habituado a que os professores o repreendessem e o pusessem na rua, não que lhe pedissem ajuda. Daniel cedeu e até se empenhou. A turma ouviu, em silêncio, o jovem e a professora recitarem Camões. E rendeu-se.

“Aprendi aí como motivar os alunos, como conseguir conquistá-los, prender-lhes a atenção e ao mesmo tempo responsabilizá-los, dando-lhes um papel ativo na aprendizagem”, conta. Quando, três anos mais tarde, em 1988, se tornou professora universitária na FCSH, de onde nunca mais saiu, Paula Costa sentiu que era tudo muito mais fácil.

Nas salas do velho Bloco B, multiplicam-se os dedos no ar. O entusiasmo é notório. São muitos os alunos que querem participar, fazer perguntas, arriscar a interpretação de um poema. A professora interpela-os sistematicamente, instando-os a acabar as suas frases, que deixa propositadamente em suspenso. E nunca para de os surpreender. Desafia-os com frequência a ir a museus e visitar exposições que os ajudem a compreender melhor correntes que aborda nas aulas como o modernismo português. Convida autores contemporâneos para falarem das suas obras aos alunos. E pelo menos uma vez por semestre leva-os num passeio literário pelos cafés ligados à Geração d’Orpheu, porque não podem não conhecer o Martinho da Arcada, onde Pessoa escreveu parte dos seus poemas.

“Há uma melodia no discurso da professora que nos mantém sempre atentos”, diz Catarina Santos, aluna do 3º ano de Estudos Portugueses. “Tem o dom de fazer as pessoas apaixonarem-se repentinamente pela matéria”, resume Marta Correia, de Ciências da Comunicação, que escolheu como opção a cadeira de Obras da Literatura Portuguesa Contemporânea.

Sumário: O compêndio de bem ensinar

Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto, 7 de abril
Aula de Química e Física das Superfícies

Menos provável é pensar que um professor que tem as cadeiras de Álgebra, Engenharia das Reações, Química e Física das Superfícies a seu cargo se possa tornar um dos preferidos dos alunos. Mas é o que acontece com José de Melo Órfão, docente do departamento de Engenharia Química na Universidade do Porto e vencedor do Prémio de Excelência Pedagógica da Faculdade de Engenharia daquela instituição em 2013. A distinção decorre em grande parte da votação dos alunos.

Não há truques na manga, nem vídeos, nem slides: “Gosto de manter as coisas simples”, diz. Basicamente, há um professor que se movimenta constantemente pela sala de aula, que sobe e desce os degraus de um anfiteatro repleto à primeira hora da manhã, um interpelar dos alunos com perguntas sobre matérias passadas, um piscar de olhos à atualidade. Explica o processo de expulsão de moléculas de soluções aquosas para a superfície com o polémico acordo de reenvio de refugiados, como se a Europa fosse a água e a Turquia a superfície.

No compêndio de bem ensinar, José de Melo Órfão, 39 anos de docência, inclui quatro capítulos obrigatórios. “É preciso ter conhecimento científico sobre o que se fala. Ser um bom comunicador, falar alto, virado para os alunos o mais possível. Dinamizar a aula, com a resolução de problemas ‘em direto’ —tenho de me manter mentalmente ativo durante a aula para a tornar interessante, acho que é um erro apresentar slides e transparências com tudo resolvido e não puxar pela cabeça. E o lado afetivo também é muito importante. Não significa que vá tomar café com eles, significa, por exemplo, não ser ríspido quando colocam alguma questão mais disparatada, tratar com consideração, tentar decorar o nome.”

Porque tão ou mais importante que o conteúdo, que mais cedo ou mais tarde vão esquecer, é o modo como se ensina. “Dos meus professores preferidos e que tento copiar, o que me lembro é da postura na sala, de histórias passadas, e não tanto da matéria que ensinaram.”

Quando tudo resulta, acaba por surgir o reconhecimento que todos os professores admitem ser um dos lados mais gratificantes para quem escolheu dedicar a vida ao ensino. Pode ser um auditório cheio de estudantes atentos e que durante aquela hora só estão a ouvir o que o professor tem a dizer. Ou o gozo que vem de acompanhar um aluno particularmente excecional e a quem se ajuda a crescer e a ser autónomo, exemplifica Eugénia Cunha; estar num hipermercado e ser abordado por um ex-aluno que o apresenta ao filho como o “melhor professor que teve na faculdade”, como aconteceu a José de Melo Órfão. Ou acabar o ano, já depois das notas lançadas, e receber e-mails de ex-alunos agradecidos, conta Paula Costa.

Sumário: Revisão da matéria dada — A revolução na Universidade

Redação do Expresso, Paço de Arcos, 19 de abril

No mundo onde as novas tecnologias permitiram eliminar fronteiras e até a própria sala de aula, a popularidade dos professores pode hoje assumir novas proporções. Uma câmara, um canal de divulgação e uma ligação à internet são as condições suficientes para criar novas ‘salas de aula’ em que um professor é escutado por milhares de alunos, a qualquer hora e em qualquer parte do mundo. É esta a base dos chamados MOOC (massive open online courses), criados no início da presente década.

Quando três professores da Universidade de Stanford lançaram outros tantos cursos online o sucesso foi imediato: mais de 100 mil inscrições imediatas em cada um. A partir daí foram surgindo várias plataformas educativas (Coursera, Udacity e EdX, criada por Harvard e pelo MIT, são algumas das mais conhecidas) e disponibilizadas cada vez mais formações. Sem limitações de espaço, os MOOC mais frequentados de sempre registam para cima de um milhão de alunos matriculados ao longo destes poucos anos de vida, fazendo dos professores que os ensinam verdadeiras pop stars da academia virtual.

Maria do Carmo Fonseca não tem dúvidas de que “existem excelentes aulas, dadas pelos melhores investigadores do mundo, disponíveis no YouTube” e ao alcance de qualquer um. Mas não acredita que o ensino caminhe no sentido de se tornar virtual. A ligação que se estabelece com os estudantes continua a ser o mais importante. E isso não se consegue com uma câmara de vídeo pelo meio.

“Quando vou para uma aula nunca sei onde é que vou acabar. Os alunos começam a colocar dúvidas e uma questão leva a outra, de tal forma que a aula acaba num ponto totalmente diferente do que eu tinha imaginado. Isso nunca aconteceria se eles estivessem, passivamente, a assistir a uma aula em vídeo.” É por isso que as suas lições na Faculdade de Medicina, apesar de também serem todas gravadas e disponibilizadas gratuitamente aos estudantes, batem recordes de assistência.

Para a cientista, é preciso uma revolução no ensino superior, só que a mudança não é necessariamente tecnológica. “A universidade tem uma enorme inércia e resiste a evoluir, mas o sistema é anacrónico e tem de ser totalmente revisto. Tem de haver muito menos aulas teóricas — muitas das quais são um completo desperdício de tempo dos professores e dos alunos — e muito mais horas para estar em contacto livre com os estudantes. Não faz sentido debitar um livro. As aulas devem servir para discussão.”

Parte da mudança já está em curso, acredita José de Melo Órfão, da Universidade do Porto. “Os professores à antiga, que passavam uma aula inteira virados para o quadro e de costas para os alunos, estão a desaparecer.”

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 7 maio 2016