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Sociedade

Córsega: Aqui a geografia foi abençoada

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ALEXANDRA CARITA

É a quarta maior ilha do Mediterrâneo. Viveu sempre ao sabor de guerras políticas e conflitos de poder. Mas soube sobreviver com uma pureza rara

A ilha é grande e generosa. Selvagem e de personalidade rebelde também. Sente-se tanto como se vê. Tudo ali é trabalhado pelos sentimentos e pelo olhar. Falamos daquela geografia tortuosa, sinuosa, feita de altos e baixos, entrecortada por montanhas, de onde espreitam precipícios e de onde se avistam horizontes infinitos de um Mediterrâneo manso. A Córsega é brutal nesse diálogo constante que estabelece entre a agressiva vegetação, o árido deserto de rocha nua e o mar sempre repousado.

Estamos em território primitivo — e o adjetivo aqui não tem qualquer valor pejorativo —, terra de gente rude, dura. Sociedade tão matriarcal quanto machista. Herança de uma história de sobrevivência carregada de reveses e disputas políticas. Terra de gente crescida com princípios de honra e de valores de amizade. Gente que se abre à lealdade e em nome dela se fecha. Terra de silêncios e de sons de animais. Aquele mistério que se esconde noite dentro no maquis rasteiro que encobre encostas e javalis, faz piar a coruja, gritar o abutre ou milhafre que voa já de dia à procura de comida. Um mistério que se adensa nas histórias de lutas entre homens e animais que mais uma vez caminham noite dentro ao ritmo da batida irregular do real e da ficção

A Córsega, essa Córsega grande e generosa, está ainda na sua arquitetura limpa, despojada, mas também no pitoresco do palacete velho e na torre mais antiga, está nas ruas estreitas, nos prédios altos, nas marinas e nos portos de pesca, nos bares de praia e nos hotéis despidos de sofisticações, está nas construções a cair, nas cidadelas, nas ruínas de aldeias abandonadas, nas curvas e contracurvas das estradas, nos jazigos ao lado de casa ou no cimo da montanha mais isolada. Está no peixe fresco do pequeno restaurante de Pietracorbara com os rochedos a deixarem escapar dois ou três salpicos de água salgada, no queijo a tresandar, no salsichão e no presunto da tasca de D. Marcello, nos gelados de todos os sabores, às portas da marina de Bastia (2), e nos quentes sonhos de castanha, que se escondem para não arrefecerem na antiga casa de Farinela, a meio da montanha que sobe pelo Cabo Corso (1).

Mas esse quadro que a ilha é nunca fica completo. Nesta Córsega que é França mas não francesa, italiana mas não Itália. Não se consegue terminar o desenho, a pintura ou a gravura. O seu retrato parece-se com um relógio sem ponteiros e com um livro de regras para não cumprir, qual puzzle onde as peças não encaixam apesar de lhes conhecermos as coordenadas: Erbalunga, Bonifacio, Ajaccio, Porto-Vecchio, Corte, Calvi, Thegime. São cidades, falésias, praias, vilas, lugares de passagem, sítios emblemáticos, pedaços daquela história que vem de 7000 a.C. Por lá passaram fenícios, etruscos, gregos e romanos, mouros e sarracenos. A Córsega andou literalmente de mão em mão. Pertenceu ao reino de Pisa (1077-1284) e ao de Génova (1284-1768) antes de ser conquistada pelos franceses, invadida pelos britânicos que em 1796 a venderam finalmente à França sob os comandos de Napoleão Bonaparte (3), corso de naturalidade.

Não podia ser de outra forma essa sua personalidade selvagem, rebelde, se lhe quisermos chamar. Foi a vida conturbada que levou que a moldou assim e que lhe deu a eterna juventude Jovem, é sempre fugidia e envolvente. Equilibrada no desequilíbrio dos dias longos. Esquecida e protegida, a ilha tem o pulsar de um orgulho intacto e a força de todas as feridas saradas, mas sobre as quais o sal do mar continua a fazer arder. Ilha impossível de domar. Mas não impossível de amar.

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Napoleão, um corso tornado imperador

A 15 de agosto de 1769 nasceu na capital corsa, Ajaccio, e 51 anos depois faleceu na pequena Ilha de Santa Helena mesmo em frente à terra natal. Foi a 5 de maio de 1821, depois de um exílio forçado e decidido pelas forças britânicas. O segundo de oito filhos do advogado Carlo Maria Bonaparte e de Maria Letícia Ramolino, uma família descendente da pequena nobreza italiana, que chegou à Córsega vinda da Ligúria ainda no século XVI, ingressou com dez anos na academia militar em Brienne-le-Château. Nunca mais deixou a prática e o estudo da estratégica bélica. O espírito que o leva a alcançar o título de Imperador e que o determinou a impor-se a toda a Europa.