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A vida extraordinária do português atraído pelos olhos dos animais

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REALIZAÇÃO. Rui Oliveira dedica-se à oftalmologia veterinária há 14 anos. Tanto vê olhos de cães e gatos, como de pandas e linces

d.r.

Vive mais de metade do tempo fora de Portugal, entre voos e aventuras que ligam Lisboa, Hong Kong, Derby Shire ou Dubai. Tanto observa olhos de cães e gatos como de tucanos, focas ou pandas gigantes. E não é de estranhar que alguém lhe entre clínica adentro com uma chita pela trela ou uma píton, algures nesse mundo. A vida extraordinária do veterinário Rui Oliveira

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Rui Oliveira é um veterinário do mundo, no mundo dos animais de cujos olhos cuida. O português especialista em oftalmologia tanto opera cataratas, descolamentos de retina ou glaucomas em cães, gatos ou cavalos, como em espécies mais raras como linces ibéricos, tucanos, focas ou pandas. E fá-lo em Portugal, em Inglaterra, nos Emirados Árabes Unidos ou na China.

Diz que passa a vida a “fazer piscinas ... algumas de longo curso”. Certo é que vive mais de metade do tempo fora de Portugal. No dia em que falou com o Expresso, numa das clínicas em que colabora no centro de Lisboa, tinha chegado de Inglaterra pela manhã e preparava-se para levantar voo ao final da tarde para o Dubai, onde vai todos os meses.

“A minha agenda é bastante complicada e por vezes difícil de gerir”, explica o veterinário, de 43 anos. Além das consultas e cirurgias previamente agendadas, por vezes surgem urgências que o obrigam a operar de emergência em Singapura e em Hong Kong, em deslocações de dois dias sem tempo para pensar em “jet lag”.

No dia em que publicamos este artigo, Rui Oliveira já está em Hong Kong. A cidade chinesa passou a ser um destino regular desde que começou a colaborar com o Ocean Park, há cerca de seis anos. É neste parque — que alberga um oceanário com golfinhos, focas e leões marinhos e um zoo que engloba uma montanha — que teve “o privilégio” de contactar com pandas gigantes. Só ali existem três exemplares desta espécie em risco de extinção que se estima não chegar aos dois mil exemplares em espaço selvagem na China. Noutros zoos ou reservas espalhados pela China somam-se mais perto de duas centenas de exemplares.

A PANDA MAIS VELHA DO MUNDO SOFRE DE CATARATAS

CIRURGIA. Um dos pandas a ser observado na clínica do Ocean Park de Hong Kong

CIRURGIA. Um dos pandas a ser observado na clínica do Ocean Park de Hong Kong

d.r.

“É no Ocean Park que está a panda mais velha do mundo”, conta Rui Oliveira. “Chama-se Jia Jia e fez agora 39 anos. Tem cataratas, deslocamento da retina e glaucoma, mas só lhe fizemos uma biopsia ocular, porque, devido à avançada idade dela, decidiu-se não operar.” Em meio selvagem, os pandas têm uma longevidade média de 20 anos e Jia Jia já quase a duplicou, sendo já uma octagenária em anos de vida humana.

O facto de este e outros parques chineses terem tantos animais em fase geriátrica foi uma das razões para o Governo chinês abrir a porta a especialistas de vários cantos do mundo. O português é o oftalmologista de serviço na equipa internacional de veterinários que trabalha para a Fundação que gere o zoo de Hong Kong e vários projetos de conservação de espécies em risco em Xangai, Sichuan ou Chengdu. Da equipa fazem parte cardiologistas, estomatologistas, anestesiologistas, fisioterapeutas ou neurologistas, entre outros.

“Tradicionalmente, as universidades da China estavam mais vocacionadas para a agropecuária e muito pouco viradas para a parte clínica, sobretudo de espécies selvagens”, explica Rui Oliveira. Ele, como outros colegas estrangeiros, entrou no mercado asiático como formador em workshops para os colegas chineses, a convite da Fundação Ocean Park.

Entretanto, o currículo asiático já se estendeu a Singapura e Macau. Agora é a Malásia e a Indonésia que estão no horizonte: “Oxalá haja tempo para tudo”.

VIDA DE SALTIMBANCO

PRÁTICA. No tempo de faculdade chegou a praticar cirurgias na sala de jantar de casa de um colega. Hoje só se dedica a operar olhos, com a última tecnologia do mercado

PRÁTICA. No tempo de faculdade chegou a praticar cirurgias na sala de jantar de casa de um colega. Hoje só se dedica a operar olhos, com a última tecnologia do mercado

marcos borga

A vida de veterinário saltimbanco começou há meia dúzia de anos com o acentuar da crise. Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Técnica de Lisboa, Rui Oliveira tinha ajudado a fundar os primeiros serviços dedicados aos olhos dos bichos na Grande Lisboa e criara o Instituto Oftalmológico Veterinário, que ainda hoje lhe faz a ponte para as atuais parcerias com vários hospitais e clínicas em Portugal. Porém, a crise dificultou a procura, já que “poucos portugueses estavam disponíveis para gastar mil ou dois mil euros a operar e tratar do seu cão ou gato”.

À falta de dinheiro juntou-se o aumentar da concorrência. “Surgiram colegas mais novos na área de oftalmologia veterinária e a concorrerem sobretudo com preços mais baixos. Iniciou-se uma queda no volume de trabalho em oftalmologia.” Perante as dificuldades nacionais e as solicitações internacionais, a que “até então nunca tinha podido atender por falta de disponibilidade”, resolveu então “investir noutros mercados”, reforçando as colaborações em Inglaterra, nos países do Golfo e na Ásia.

Sem filhos e com uma mulher hospedeira de bordo, aproveita algumas das deslocações para fazer uns dias de férias e descobrir novas terras e culturas. Viajar passou a ser também o novo “hobby”.

Todos os meses vai ao Dubai e começou também a fazer uma perninha em Abu Dhabi e no Kuweit. “No médio Oriente são mais cães e gatos que vejo, mas também pode surgir algum cliente com uma chita pela trela ou uma píton.”

AVES. A operar as cataratas de um papagaio, em Hong Kong

AVES. A operar as cataratas de um papagaio, em Hong Kong

d.r.

ATRAÇÃO POR OLHOS

A paixão pelos bichos surgiu cedo. “Era daqueles miúdos que chegavam a casa com lagartixas no bolso e adotava os gatos de rua.” Estes acabavam por ser dados a alguém, porque o pai era alérgico. Por isso, não teve dúvidas em escolher a medicina veterinária como curso a seguir.

No entanto, o percurso não foi sempre fácil e chegou a duvidar se queria ser veterinário, “porque os primeiros dois anos do curso foram uma seca”. Na memória retém as aulas de anatomia em que se abatiam e dissecavam animais de maneira grotesca — “um choque para quem gosta de animais”.

“Felizmente hoje já não é assim”, garante. Ele próprio dá aulas como convidado na Universidade de Évora e na Lusófona, assim como alguns workshops sobre cirurgia oftalmológica na Faculdade de Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa.

A especialização surgiu intuitivamente. “Os olhos eram a parte que mais me atraía, dado o meu gosto por imagem e visão, além de que problemas oftalmológicos normalmente não estão associados à morte”, confessa.

RECONHECIMENTO. As especializações em Portugal estão 20 anos atrasadas em relação a outros países

RECONHECIMENTO. As especializações em Portugal estão 20 anos atrasadas em relação a outros países

MARCOS BORGA

Mas não havendo internato em oftalmologia veterinária nas faculdades portuguesas, Rui procurou outros caminhos para o conhecimento. Em Portugal, teve uma “amiga fantástica” que lhe permitiu “aprender em bloco cirúrgico de humanos durante dois anos”. Depois também procurou formação no estrangeiro, em Espanha e Inglaterra, e adquiriu o certificado de oftalmologista veterinário após um internato no Royal College Veterinary Surgeons de Londres. Como “padrinho” contou com um professor-orientador que lhe abriu as portas para praticar em clínicas inglesas.

Hoje com 14 anos de experiência especializada e certificado pela Sociedade Europeia de Oftalmologia Veterinária, Rui Oliveira mantém colaboração regular em três clínicas no Reino Unido. Numa delas, no centro de Inglaterra (Derby Shire), a equipa é multidisciplinar de várias nacionalidades, e inclui três veterinários portugueses residentes a tempo inteiro.

Existem diferentes colégios de especialização no mundo, Rui tem o certificado do colégio inglês e está a trabalhar para adquirir agora o asiático. Nas faculdades de medicina veterinária portuguesas “as especializações estão 20 anos atrasadas em relação a outros países, sobretudo os do norte da Europa”. A Ordem dos Médicos Veterinários está a tentar harmonizar a certificação europeia.

CÃO, LINCE OU TUCANO

CONSULTOR. Rui Oliveira também é consultor do centro de reprodução do lince ibérico em Portugal

CONSULTOR. Rui Oliveira também é consultor do centro de reprodução do lince ibérico em Portugal

d.r.

Observar cataratas num cão, num gato, num panda ou numa pessoa “não é muito diferente”, afirma, mas “cada um tem a sua especificidade”. Porém, trabalhar com pandas continua a ser “a experiência de uma vida pela oportunidade de conhecê-los e de descobrir e aprender tanto sobre eles”.

Os pandas são o seu “ex-libris”, porém Rui Oliveira não esquece outros espécimes exóticos que já lhe passaram pelas mãos, como um “um tucano quase cego devido a cataratas” ou as focas que “desenvolvem queratites e cataratas em reação aos raios ultravioleta refletidos nas piscinas pintadas de cores claras nos parques marinhos”.

Rui Oliveira também já tratou dos olhos de linces ibéricos do Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro (CNRLI) de Silves. Ele é o especialista de serviço sempre que algum problema é detetado nos olhos dos exemplares que fazem parte do projeto de conservação da espécie ibérica em risco de extinção. É também o consultor para os problemas oftalmológicos dos animais do jardim zoológico de Lisboa ou do Oceanário, onde já operou um bacalhau, utilizando uma “máquina de anestesia para peixes onde o anestésico está dissolvido na água”.

Mas os animais mais complicados de operar, devido à logística necessária tendo em conta o tamanho do animal, são os cavalos. Rui Oliveira diz ter sido o primeiro veterinário em Portugal a realizar uma cirurgia de cataratas a um equídeo - uma égua lusitana de 12 anos de idade, cega há quatro meses. A operação foi feita no âmbito de uma aula para alunos do 5º ano da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa.

Por cá vai-se evoluindo na medicina veterinária, tal como se evolui na relação social e jurídica, reconhecendo os animais como seres sencientes. “Estamos a recuperar um atraso significativo”, lembrando que “hoje os animais de companhia fazem parte da vida das famílias”.

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