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A hora dos bots

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CONVERSAR COM QUEM? O Facebook Messenger tem mais de 900 milhões de utilizadores que vão agora começar a falar com... robôs de software

reuters

Há quase duas décadas os produtores de videojogos perceberam que, em algum títulos, era necessário criar ação artificialmente. Ou seja, em jogos que permitiam o modo de multijogador, os programadores criaram personagens que nos possibilitavam ter alguém com quem jogar, mesmo quando esse “alguém” não era mais que um robô carregado com algumas instruções que lhe permitia ter determinados comportamentos dentro de um jogo. Exemplificando. “Quake” foi um dos jogos de ação de maior sucesso da década de 90 do século passado. Com 32 níveis marcados por muita violência e pintados a vermelho, o jogo alcançava a sua maior glória nos níveis de multijogador onde era possível jogar com outros utilizadores espalhados pelo mundo. Tendo em conta que as velocidades da Internet era ainda rudimentares, os criadores de “Quake” fizeram o mesmo que já tinha sido feito para outro jogo de grande sucesso na altura - “Doom” - e criaram modos de multijogador que podiam ser executados offline (sem ligação à Internet ativa). Para que a diversão fosse possível criaram bots - os tais robôs com alguma inteligência artificial - que corriam, disparavam e se escondiam como se controlados por outro jogador.

Estas personas virtuais evoluíram muito. Hoje, nos videojogos, são muito mais complexas e conseguem, por vezes, ter comportamentos que nos deixam a dúvida se não estaremos, mesmo, a interagir com uma pessoa. Mas deixemos a maior indústria do entretenimento.

Os bots estão a ganhar destaque em empresas como Facebook, Amazon, Google ou, por exemplo, Microsoft. A maior rede social digital do planeta anunciou o mês passado uma plataforma que permite às empresas desenvolverem bots para o Messenger - a app de chat do Facebook. Será importante referir que esta aplicação tem 900 milhões de utilizadores. Os bots de conversação vão interagir com os utilizadores, connosco, portanto, desencadeando algumas ações. A ideia é que se comportem como “amigos”. Sim, é isso mesmo que está a pensar: vamos trocar mensagens escritas com robôs de software que, ao longo do tempo, vão apreender os nossos gostos. É assim que vão ter a capacidade de sugerir, por exemplo, o que podemos comprar a cada momento. Relembro: estamos perante software que vai evoluir à medida que nos conhecer melhor.

A Microsoft também está a trabalhar nesta aplicação da Inteligência Artificial. A “empresa do Windows” chama a estes programas “a conversação como uma plataforma”. Vai começar a aplicá-los no Skype e em outras das aplicações que a Microsoft tem no seu vasto portefólio. A ideia não é diferente da seguida pelo Facebook. Também aqui se ambiciona conhecer melhor o utilizador e, é claro, poder sugerir-lhe, basicamente, onde deve gastar o dinheiro.

O maior site de comércio eletrónico usa os bots para ajudar no processo de compra. Por exemplo, a assistente virtual Alexa, da Amazon, está sempre atenta às necessidades do utilizador. O mesmo faz o Google Now, da Google, que ouve o que estamos a dizer para poder efetuar buscas mais eficazes. Aliás, o mesmo acontece com a Siri, da Apple.

O exército da Inteligência Artificial

Segundo a Internet Live Stats, existem hoje mais de 3 mil milhões de utilizadores de Internet. Desses, 1,65 mil milhões têm contas ativas no Facebook. Por dia, os utilizadores de Skype usam o serviço durante 3 mil milhões de minutos.

Perante a monstruosidade dos números é fácil perceber que os bots não são um capricho das empresas, são um imperativo. Só com a ajuda de software inteligente é possível desenhar perfis para tanta gente. Ou seja, é impossível conceber um modelo onde por trás de cada utilizador da Internet haja um interlocutor humano. Não há dinheiro que suporte esse modelo de negócio.

Os bots não se cansam, não comem, não dormem e têm uma memória incrível. O desafio que se coloca, agora, é outro: estaremos nós predispostos a interagir com eles?

Quem já usou a Siri, da Apple, já tem alguma experiência de terreno. Fazer perguntas à assistente virtual da Apple é, num primeiro momento, caricato e alvo da chacota de terceiros. No entanto, depois de se apanharem as manhas do sistema ficamos surpreendidos com os resultados. O mesmo para as buscas por voz da Google.

Acredito que os utilizadores até aos 45 anos e mais familiarizados com a utilização de dispositivos móveis vão, facilmente, acostumar-se a pedir a um bot que lhes diga o estado do tempo ou aceitar uma sugestão de compra. Às gerações mais novas - as que já nasceram com a Internet, com a mobilidade e com as apps - vai parecer-lhes apenas a evolução natural do comportamento que têm hoje online. Afinal, é às redes sociais que recorrem sempre que têm dúvidas.

Os bots podem não apresentar sempre as respostas mais honestas - em última análise, vai existir um anunciante a patrocinar algumas das sugestões - mas vão ser das “pessoas” que melhor os vão conhecer.