Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A Peregrina

  • 333

rui duarte silva

A caminho do centenário das aparições de Fátima em 2017, a primeira Imagem Peregrina, que já deu a volta ao mundo, passou o último ano pelas estradas e caminhos de Portugal. Ninguém deu por nada, mas houve um país que saiu à rua para a ver

Está a terra toda à espera e o padre Hermínio a ler o jornal à mesa do café. Há música na rua, flores e velas pelo chão e nos muros dos quintais, colchas à janela. Lá fora, a chuva parou. Vem o jantar, com a família do dono do restaurante, sopa de nabiças, costeletas com batatas fritas e arroz de ervilhas, um copo de vinho e um pudim caseiro — e toda a terra à espera. Toca o telefone, o padre atende e diz que é preciso ter calma. “Ainda é cedo. Temos tempo, temos tempo”, garante. Tempo para o café e um licor. “São os acólitos, está tudo nervoso”. Está a terra toda à espera e o padre fala. A mulher e a sogra do dono do restaurante já saíram porta fora, e a filha foi com a mãe e com a avó. O padre Hermínio fala do que encontrou nos últimos dias, longe dali. “Um mar de gente... Nunca vi uma coisa assim”.

A rotunda à entrada de Soalhães, no concelho de Marco de Canaveses, tem quatro saídas. Às oito e um quarto da noite, um ocaso pintado a rosa e dourado, só se veem três — a que leva ao centro da freguesia desapareceu no mar de gente de velas na mão. Estão à espera. O padre Hermínio Pinto veste uma túnica branca como a dos acólitos e confunde-se com eles — alguns rapazes e raparigas são mais altos do que ele. Como um maestro, dá as últimas indicações antes do concerto. Isto aqui, vocês acolá, é preciso acautelar aquilo e não esquecer aqueloutro. Há dois autocarros estacionados ali perto, carros por toda a parte, e continua a chegar gente. O mar de velas abre-se para passarem três crianças pela mão das mães. Duas meninas e um pequenito, nenhum com mais de quatro anos, vestidos de pastorinhos e assustados com a multidão — o padre arruma-os numa espécie de presépio.

Vem depois o presidente da Câmara de Marco de Canaveses, de fato e gravata e curta comitiva, que cumprimenta meia dúzia de pessoas antes de apertar a mão ao padre. Passam bombeiros engalanados e militares da GNR em farda de cerimónia. A República está em força na rotunda, e vestida a rigor. Uma solene ironia a passar diante dos olhos de Fátima. Fátima Alves Martins, 25 anos, olha mas não vê. Há gente por todo o lado, e é como se estivesse sozinha. Tem uma vela na mão e a cabeça noutro lugar. “Ela vem ao nosso encontro e estamos aqui à espera dela. É a primeira vez que ela está aqui.” Os acólitos perfilados, os três petizes encolhidos no presépio e o padre Hermínio à frente. Atrás, está uma terra inteira de velas acesas e a cantar baixinho. À espera. A qualquer momento, e será sempre com mais de meia hora de atraso, há de chegar pela variante à Estrada Nacional 321 a luz branca que todos aguardam. “Já lá vem, já lá vem”, grita um miúdo. Às nove da noite de quinta-feira, 15 de abril de 2016, Soalhães vê Nossa Senhora de Fátima.

A passagem da Imagem Peregrina de Fátima pela Diocese do Porto, da qual faz parte Marco de Canaveses, é a penúltima etapa de uma viagem histórica que começou há um ano, a 13 de maio, e percorreu todas dioceses do país, Madeira e Açores incluídos. A peregrinação da imagem por centenas de igrejas, em jeito de lançamento para a celebração do centenário das aparições de Fátima que se assinala no próximo ano com a presença do Papa Francisco, terminará dentro de uma semana, a 13 de maio, com a chegada ao Santuário de Fátima prevista para as 11h30, durante a missa da manhã. Há duas semanas, através de uma nota pastoral, o bispo de Leiria-Fátima, D. Jacinto Marto, destacou o “modo apoteótico” com que a imagem foi recebida “por toda a parte”. O padre Hermínio tinha contado algo parecido ao jantar, ele que estivera em Castelo de Paiva e Entre-os-Rios e vira, em pleno dia de semana, “fábricas e lojas fechadas e o povo todo na rua para a ver”.

Ela, a Imagem Peregrina, é a primeira das treze imagens peregrinas do Santuário — sendo que a imagem primeira de Nossa Senhora de Fátima, esculpida nos anos 20 e em cuja coroa está a bala que atingiu João Paulo II, se encontra na Capelinha das Aparições, de onde quase nunca sai. Há muito em comum entre as duas, a começar pelas poucas vezes que deixam o Santuário e também por quem as esculpiu: José Ferreira Thedim. Se a inspiração para a imagem da capelinha ainda hoje alimenta polémicas (dois artigos dos anos 50 referem que Thedim se baseou num catálogo de imagens de 1907, segundo Altino Maia, e na imagem de Nossa Senhora da Lapa, de acordo com Xavier Coutinho), a Imagem Peregrina, concluída em 1947, trinta anos após as aparições, percorre caminhos mais consensuais. “Enquanto que para a imagem mais antiga o autor tem acesso às informações sobre a aparição de forma indireta, através do Padre Manuel Nunes Formigão, que as havia colhido de Lúcia, para a Imagem Peregrina, Thedim fala diretamente com Lúcia, o que nos permite concluir que esta é a imagem mais próxima dos relatos da vidente”, explica ao Expresso Marco Daniel Duarte, diretor do Serviço de Estudos e Difusão do Santuário.

rui duarte silva

Há alguns anos, Zacarias Tedim, sobrinho do escultor, pôs as memórias no papel. Não é de estranhar, por isso, que aos 80 anos se lembre de tudo como se fosse hoje. Recorda-se de o tio contar que se encontrara três vezes com a Irmã Lúcia nos últimos meses de 1946. Num dos encontros, quando Thedim lhe perguntou como eram as feições da Virgem, a resposta deixou-o à beira do desespero. “Ela respondia apenas que era toda de luz. Como podia ele esculpir tal figura? Como podia alguém fazê-lo?”. Thedim prepara uns esboços, depois um modelo em barro e outro em gesso e, ao terceiro encontro, Lúcia aprova a imagem de que falara durante duas horas na primeira conversa. “Lúcia contou que ela apareceu sobre uma azinheira de poucos centímetros de altura, mas que a não tocava com os pés. Estava vestida de branco, sem cordão à cintura, com um manto que ia da cabeça aos pés, debruado a ouro. Ao pescoço pendia-lhe uma corrente de ouro muito fina, à qual estava pendurado um globo dourado, que Lúcia disse simbolizar o mundo. Tinha também uma estrela dourada no vestido”.

Thedim corre contra o tempo para ter a obra pronta a 13 de maio de 1947. A peça é esculpida em cedro do Brasil e pintada com tintas finas. Anos mais tarde, é o próprio Zacarias que participa na única intervenção de fundo feita à imagem: o pé esquerdo, desgastado por milhares e milhares de toques de fiéis por todo o mundo, é reconstruído em marfim. “Ninguém repara. Está muito bem feito”, garante Zacarias, sobrinho de José. A visão de Lúcia tem 110 centímetros de altura, 30,5 centímetros de largura, 27 centímetros de profundidade e pesa 12,6 quilos. São também estas as medidas de uma discussão que dura há 100 anos.

Parece fácil desconstruir Fátima, e é por isso que é tão difícil fazê-lo. Ao longo de dois anos, 1916 e 1917, três crianças analfabetas que apascentavam ovelhas foram interpeladas três vezes por um anjo, cuja existência não pode ser comprovada fisicamente, e seis vezes pela mãe de Jesus Cristo (o problema é o mesmo que se põe relativamente ao anjo) numa terra onde — como explicava há uma semana uma freira a um grupo de crianças de visita a Fátima — não havia absolutamente nada. Só pó, lama e pobreza — num país ainda na ressaca política da República, com uma divisão acentuada entre o Estado e a Igreja e já envolvido na Grande Guerra, com mortos e combates nos territórios africanos e milhares de homens a caminho da frente europeia. Nessas aparições, em que apesar de chegarem a estar alguns milhares de pessoas por perto só as três crianças viam, ouviam e falavam com a mãe de Cristo, é pedido aos miúdos que rezem e é-lhes garantido, entre outras coisas, que a Grande Guerra vai acabar em breve e que o comunismo será derrotado.

Esta é a parte fácil, e não é sequer necessário explorar teorias que defendem uma intervenção extraterrestre em Fátima. Logo a 23 de julho de 1917, o jornal “O Século” publica um artigo com o título “Uma embaixada celestial... especulação financeira”, onde se lê: “Algum indivíduo astucioso que, à sombra da religião, quer transformar a Serra d’Aire numa estância miraculosa como a velha Lourdes”. Mas não é a única nem a mais violenta. Os jornais republicanos da altura não poupam na tinta: “conto do vigário”, “mistificação indecorosa”, “fanatismo em ação”, “aquilo do milagre de Fátima é negócio que deu em droga”, “santas não existem e os milagres são cantigas”... Na sua dissertação final do mestrado em Teologia, Luís Ribeiro Ferraz, atual diretor-adjunto do jornal “Presente, Leiria-Fátima”, lembra um artigo do “Diário de Notícias” de 23 de outubro de 1917, onde se conta o corte da azinheira e o roubo do pequeno altar do arco — objetos que andaram depois em cortejo por Santarém. Eram dias violentos. Anos mais tarde, em 1922, o jornal local “O Mensageiro” classifica de “nefando atentado” e “ato selvagem” a dinamitação da capelinha, a 6 de março.

rui duarte silva

Há cerca de um ano, desafiado, como assume, pelos “100 anos das ‘chamadas’ aparições”, o presbítero Mário Oliveira, autor de “Fátima Nunca Mais”, voltou à carga com um explosivo livro novo, “Fátima $A”. Considera as aparições um “teatrinho” promovido pelo clero, aproveitando a ignorância das três crianças, para garantir a restauração da Diocese de Leiria (integrada em Coimbra desde 1882 e restaurada em 1918), classifica-as de “maior dos absurdos” e “a mais aberrantes das alucinações” — antes de lançar uma crítica feroz “à multinacional religiosa” que garante à hierarquia da Igreja “uma visibilidade, um palco de influência sobre a consciência das populações menos ilustradas, para lá de uma fonte de lavagem/acumulação de dinheiro, acima de toda a suspeita, totalmente isento de impostos e quase sem custos”.

Instado pelo Expresso a comentar o trabalho de Mário Oliveira, o reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, não se alonga: “Não concordo nem com os conteúdos nem com a forma”, diz. Já o padre José Tolentino Mendonça, colunista do Expresso, vai um pouco mais longe. “Acho que se devem escutar todas as críticas, mas também saber que pelos frutos se vê a qualidade da árvore. Nestes cem anos, Fátima tem sido um lugar em que a nossa humanidade se tem tornado melhor. Não a vejo de todo como uma máquina gananciosa de manipulação, mas como uma mensagem inspiradora.”

A questão, contudo, mantém-se. A única coisa tão fácil como provar que as aparições nunca ocorreram é provar o contrário. Que existiram. A dificuldade de Fátima começa aqui, num qualquer dia da semana. No último sábado, depois de ouvirem a freira explicar-lhes como viviam os irmãos Jacinta e Francisca e a sua prima Lúcia, as crianças que tinham saído de Peniche às nove da manhã (para uma visita de preparação para a Primeira Comunhão) seguiram até à zona de Valinhos (palco da 4º aparição de Nossa Senhora e de duas aparições do Anjo), não muito longe das casas dos pastorinhos, a escassos quilómetros da Cova da Iria. Em hora e meia de visita, cruzaram-se com um grupo de trinta japoneses, com meia centena de peregrinos vindos de Cochim, na Índia, com cerca de 20 espanhóis acabados de chegar de Tenerife, com alemães, ingleses e, claro, com centenas de portugueses a rezar ao longo da Via Sacra. Todos os dias, 365 dias por ano. Todos os anos. Há cem anos. De acordo com o Santuário, passaram por Fátima 6,6 milhões de pessoas em 2015, mais 250 mil do que no ano anterior. Estão todas certas? Estão erradas?

Ao final da tarde, quando os miúdos regressam ao Santuário, estão de partida milhares de acólitos vindos de todo o país para a peregrinação anual. Ao longe era um mar de albas. Só mais perto se percebem as ondas — cada diocese tinha uma cor atribuída para pulseiras, chapéus, etc. A do Porto, definida pelo Serviço Nacional de Acólitos, era “azul escuro (navio)”. Duas semanas antes, na tarde de 15 de abril, as nuvens por cima da Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses, na Diocese do Porto, estiveram assim, azul-escuras, antes de ficarem negras. E quem entra na igreja desenhada por Siza Vieira não consegue evitar olhar para cima, em direção ao céu. As portas de madeira têm 10 metros de altura, e parecem encolher os recém-chegados. Lá dentro, tudo é mínimo e branco e parece mais pequeno a cada passo em direção ao altar. A fila é lenta. Uma mulher desmaiou há pouco. Outra, amparada, caminha para a saída a falar alto. A falar para o alto. Quem já passou pelo altar traz lágrimas nos olhos. Uns choram, outros já choraram. Outros esperam ainda. A fila é lenta e começou a chover.

rui duarte silva

A fé cheira a flores pisadas e molhadas pela chuva. As pessoas apertam-se à porta para se despedirem da Imagem Peregrina, os bombeiros esperam junto ao altar, mas a pequena procissão está atrasada. Um problema com o andor, que está ser resolvido no centro paroquial por uma equipa especialmente vinda de Fátima. “Dada a importância da imagem, o Santuário constituiu uma equipa que esteve em vigilância permanente durante a peregrinação”, explica Marco Daniel Duarte. “Felizmente, a gravidade dos casos foi sempre relativa, pois os problemas estiveram invariavelmente relacionados com os elementos acessórios, o andor, o carro ou a coroa, e nunca com a imagem”, acrescenta. A coroa caiu em Beja, o carro, uma pick-up branca equipada com papamóvel, levou três embraiagens no último ano, e o andor foi substituído naquela tarde em Marco de Canaveses. “São mais 50 quilos. Agora passou a pesar 300 quilos”, desabafa José Melo, de 66 anos, um dos homens da equipa responsável pela logística na passagem da imagem pela Diocese do Porto.

É ele que vai ao volante quando a carrinha, na altura já com 20.700 quilómetros feitos, deixa para trás a igreja desenhada por Siza Vieira e toma a direção de Vila Boa de Quires, onde duas dezenas de pessoas já esperam junto ao cruzamento, à beira de uma estrada coberta de flores. Uma emboscada santa, que conta até com um carro colocado uns metros adiante e para buzinar quando a imagem estiver à vista. Um jipe da GNR passa pelo local e, para desagrado dos populares que seguram velas e cestos cheios de flores, manda “desobstruir a via”. “Ora esta? Mas não têm mais nada para fazer?”, desabafa uma mulher, sem tirar os olhos da estrada. Quando se ouve a buzina, já a imagem está demasiado perto. “Agora é que apitas? Ai, homem dum raio”. As mulheres cantam mais alto, atiram flores na direção da Peregrina, choram. Um dia inteiro de trabalho e ela já passou. Algumas vão atrás, e não cumprimentam o bispo que saiu do carro para distribuir beijos e apertos de mão.

São quatro quilómetros até à igreja, mas a carrinha vai devagar. Raramente passa os 50 km/h. “É uma grande responsabilidade”, admite José Melo, que não evita um esgar de dor quando, mais uma vez, tem de ajudar a retirar o andor. “Há muita gente que se oferece, mas isto pesa. Um velhote não consegue, têm de ser homens feitos a levar o andor. Não podemos correr o risco de acontecer um acidente”, avalia. Já leva vários dias de estrada, muitas horas a retirar quilos e quilos de flores dos vidros e da estrutura onde viaja a Imagem e alguns sustos. “Nunca sabemos o que vai acontecer. Vamos sempre devagar, mas por estradas cheias de gente. Às vezes, nem se vê o caminho e estamos sempre a pensar quando é que alguém se manda para a frente do carro”, conta, abrigado da chuva que cai com força à porta da igreja de Santo André de Vila Boa de Quires, um edifício do século XII. Lá dentro, onde não cabem todos, o bispo do Porto fala aos fiéis.

À chuva, três raparigas com impermeáveis azuis vendem lenços brancos e terços. Dois euros. Filipa Sampaio, 20 anos, de Viana do Castelo, há um ano que não faz mais nada. Deu a volta a Portugal atrás da imagem. Só não foi aos Açores (a Diocese de Angra insistiu numa visita mais longa e, por isso, seguiu para o arquipélago a Segunda Imagem Peregrina). “No norte sente-se mais a fé das pessoas”, garante. “Há mais gente na rua, nas procissões. No resto do país é diferente.” Chove com mais força e as três raparigas, sem fregueses, entretêm-se a tirar fotografias e à conversa com uma freira — a mesma que há de estar, semanas depois, com os miúdos da catequese de visita a Fátima. Todos os caminhos vão dar ao mesmo sítio. Neste fim de dia, a estrada por onde José Melo conduzirá a imagem acaba em Soalhães.

Está lá uma terra inteira à espera, com o padre Hermínio à frente e os pequenitos vestidos de pastorinhos cercados pelos acólitos. Não é um cálculo, é uma certeza. Soalhães tem cerca de 3500 habitantes e os poucos que não saíram à rua estão à janela a ver passar a procissão. A imagem vai à frente, escoltada por bombeiros e militares da GNR. O povo vem atrás, em duas longas filas, uma em cada berma da estrada sem trânsito e de sentido único. A maior parte das pessoas já não vê a luz branca do carro, mas ninguém tem pressa. Os cânticos do coro, que as colunas trazem da igreja e espalham pelas ruas, marcam o ritmo. A mulher que leva o neto pela mão já sabe que a imagem chegou ao altar, mas mantém o passo. O caminho é o mais importante. Fátima também lá vai, do outro lado da estrada. Estacionado à porta da igreja, na margem do mar de gente, está um carro cheio de balões iluminados. São brancos e ora acendem ora apagam.

As duas filas que caminham são o pretexto ideal para convocar Alexandre Palma, teólogo e professor de Mariologia na Universidade Católica Portuguesa, e discutir Fátima. “O debate tem estado situado na dialética entre os que aderem ao fenómeno e à mensagem e os que não a compreendem. Mas creio que não estamos fadados a essa dialética. Há níveis diferenciados de adesão, uma espécie de círculos concêntricos. Há pessoas que vão até certo ponto, outras um pouco mais, outras menos. A verdade é que Fátima tem mais substância do que se imagina”, explica. “Da parte da sociedade portuguesa, existe um silêncio estranho sobre Fátima e eu pergunto-me se o século XX português é documentável sem Fátima? A ideia de que quem vai lá é um certo Portugal rural é um cliché que ainda existe na cabeça de muita gente, mas bastante desfasado da realidade. Encontramos em Fátima desde o agricultor do Minho, ao professor universitário de Coimbra ou de Lisboa ou ao administrador de uma empresa high-tech. Se calhar, um nota-se mais do que outro. Mas todos vão.”

Jacinto Farias, também especialista em Mariologia, teólogo e professor, resume muito numa frase. “Não faz sentido colocar a questão de que todos os católicos têm de acreditar em Fátima. Esse ‘ter de’ não faz sentido. Acontece espontaneamente. Estas coisas são uma questão de fé. E fé, na tradição católica, é aceitar pertencer a uma comunidade que me transmite valores, sentimentos, conteúdo. Quando digo acredito, digo amo”. A verdade é que a tensão existe, e as múltiplas edições dos livros de Mário Oliveira provam-no. “A mensagem de Fátima é de conversão, de penitência. É uma mensagem escatológica, de guerra, de infernos, de morte. São os temas cruciais. Ninguém pode ficar indiferente. Posso aceitar ou não, acreditar ou não, mas isso não interessa nada. É uma mensagem muito forte e é de esperança: ‘No fim, o meu imaculado coração triunfará’. A nossa história está nas mãos de Deus”, refere Jacinto Farias.

Para Carlos Cabecinhas, a mensagem de Fátima é tão atual hoje como há um século. “A chamada de atenção para o lugar de Deus na vida dos crentes, a misericórdia, mas também o tema da paz. É uma mensagem de paz que mantém toda a sua atualidade na ‘terceira guerra mundial por episódios’, como tem designado o Papa Francisco os múltiplos conflitos que hoje fazem milhares de vítimas por todo o mundo.”

A Mariologia é o discurso sobre o papel de Nossa Senhora na experiência cristã. O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, considera “possível, desejável e indispensável” conciliar o culto a Maria e a centralidade de Cristo na fé cristã. “O beato Papa Paulo VI afirmou que não se pode ser cristão se não se é mariano”, explica. Alexandre Palma descreve o papel de Nossa Senhora numa palavra: mediação. “O lugar de Maria, o rezar a Maria, tem sempre esta lógica de mediação, de caminho para. Não é por acaso que um dos melhores ditos da Virgem Maria nos Evangelhos, dos poucos que existem, é o das Bodas de Canã. Quando os criados se queixam de que acabou o vinho, ela diz: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’. É a grande Mariologia feita pela própria Virgem Maria: fazer tudo o que Jesus disser. É o entendimento mais cristalino do seu papel”, conclui.

rui duarte silva

Está lá uma terra inteira à espera, com o padre Hermínio à frente e os pequenitos vestidos de pastorinhos cercados pelos acólitos. Não é um cálculo, é uma certeza. Soalhães tem cerca de 3500 habitantes e os poucos que não saíram à rua estão à janela a ver passar a procissão. A imagem vai à frente, escoltada por bombeiros e militares da GNR. O povo vem atrás, em duas longas filas, uma em cada berma da estrada sem trânsito e de sentido único. A maior parte das pessoas já não vê a luz branca do carro, mas ninguém tem pressa. Os cânticos do coro, que as colunas trazem da igreja e espalham pelas ruas, marcam o ritmo. A mulher que leva o neto pela mão já sabe que a imagem chegou ao altar, mas mantém o passo. O caminho é o mais importante. Fátima também lá vai, do outro lado da estrada. Estacionado à porta da igreja, na margem do mar de gente, está um carro cheio de balões iluminados. São brancos e ora acendem ora apagam.

As duas filas que caminham são o pretexto ideal para convocar Alexandre Palma, teólogo e professor de Mariologia na Universidade Católica Portuguesa, e discutir Fátima. “O debate tem estado situado na dialética entre os que aderem ao fenómeno e à mensagem e os que não a compreendem. Mas creio que não estamos fadados a essa dialética. Há níveis diferenciados de adesão, uma espécie de círculos concêntricos. Há pessoas que vão até certo ponto, outras um pouco mais, outras menos. A verdade é que Fátima tem mais substância do que se imagina”, explica. “Da parte da sociedade portuguesa, existe um silêncio estranho sobre Fátima e eu pergunto-me se o século XX português é documentável sem Fátima? A ideia de que quem vai lá é um certo Portugal rural é um cliché que ainda existe na cabeça de muita gente, mas bastante desfasado da realidade. Encontramos em Fátima desde o agricultor do Minho, ao professor universitário de Coimbra ou de Lisboa ou ao administrador de uma empresa high-tech. Se calhar, um nota-se mais do que outro. Mas todos vão.”

Jacinto Farias, também especialista em Mariologia, teólogo e professor, resume muito numa frase. “Não faz sentido colocar a questão de que todos os católicos têm de acreditar em Fátima. Esse ‘ter de’ não faz sentido. Acontece espontaneamente. Estas coisas são uma questão de fé. E fé, na tradição católica, é aceitar pertencer a uma comunidade que me transmite valores, sentimentos, conteúdo. Quando digo acredito, digo amo”. A verdade é que a tensão existe, e as múltiplas edições dos livros de Mário Oliveira provam-no. “A mensagem de Fátima é de conversão, de penitência. É uma mensagem escatológica, de guerra, de infernos, de morte. São os temas cruciais. Ninguém pode ficar indiferente. Posso aceitar ou não, acreditar ou não, mas isso não interessa nada. É uma mensagem muito forte e é de esperança: ‘No fim, o meu imaculado coração triunfará’. A nossa história está nas mãos de Deus”, refere Jacinto Farias.

Para Carlos Cabecinhas, a mensagem de Fátima é tão atual hoje como há um século. “A chamada de atenção para o lugar de Deus na vida dos crentes, a misericórdia, mas também o tema da paz. É uma mensagem de paz que mantém toda a sua atualidade na ‘terceira guerra mundial por episódios’, como tem designado o Papa Francisco os múltiplos conflitos que hoje fazem milhares de vítimas por todo o mundo.”

A Mariologia é o discurso sobre o papel de Nossa Senhora na experiência cristã. O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, considera “possível, desejável e indispensável” conciliar o culto a Maria e a centralidade de Cristo na fé cristã. “O beato Papa Paulo VI afirmou que não se pode ser cristão se não se é mariano”, explica. Alexandre Palma descreve o papel de Nossa Senhora numa palavra: mediação. “O lugar de Maria, o rezar a Maria, tem sempre esta lógica de mediação, de caminho para. Não é por acaso que um dos melhores ditos da Virgem Maria nos Evangelhos, dos poucos que existem, é o das Bodas de Canã. Quando os criados se queixam de que acabou o vinho, ela diz: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’. É a grande Mariologia feita pela própria Virgem Maria: fazer tudo o que Jesus disser. É o entendimento mais cristalino do seu papel”, conclui.

E o papel de Fátima nessa experiência, nesse discurso? Carlos Cabecinhas reconhece que as aparições, ao contrário do culto mariano, não “vinculam necessariamente” os crentes. “Que as aparições de Fátima não sejam consensuais dentro da comunidade católica, e que haja cristãos com dúvidas acerca delas, é natural. Mas a verdade é que têm a adesão da esmagadora maioria dos cristãos católicos portugueses”, concretiza. Tolentino Mendonça partilha a opinião. “Fátima é uma visão privada que é reconhecida pela Igreja. O resumo das verdades da fé em que todo o católico é chamado a acreditar está contido no chamado ‘símbolo da fé’ que é o Credo. Tudo o resto é complementar”.

Alexandre Palma vai um pouco mais longe e define Fátima como um “serviço público de catarse, que a sociedade portuguesa sabe usar”, mas com o qual ainda falta fazer “as pazes culturais”. “Isso não significa canonizar Fátima e unificar a sociedade portuguesa à sua volta — que não se assustem as resistências que existem e cuja legitimidade é total. Trata-se de alcançar uma relação descomplexada com um espaço de digestão de tantas histórias de sofrimento. Sabemos usar esse espaço, mas ainda não conseguimos integrá-lo culturalmente. As minhas mãos já sabem lidar com Fátima, mas o intelecto ainda não”.

As mãos que antes se estendiam para tocar a Imagem Peregrina são hoje mantidas a uma distância segura. Seguram telemóveis e tablets para registar os breves instantes diante da Senhora de Fátima. “Não podem tocar na imagem”, repete um padre de cabelo comprido na igreja de Soalhães. A fila sai pela porta e dá a volta ao edifício, do período românico. “Não podem parar, há muita gente atrás”, repete. E as pessoas esperam. Nem sempre foi assim, mas as flores nunca faltaram. No dia da coroação, a 13 de maio de 1947, a imagem de Thedim, adornada com flores vindas da Holanda, recebeu a coroa de prata das princesas Maria Pia de Saboia, Isabel de França e Dona Mafalda de Bragança (Zacarias Tedim diz que, para ele, é na bênção que o bocado de madeira em forma de mulher se transforma em imagem de Nossa Senhora). Nesse dia, a Imagem Peregrina deixou o Santuário para a sua primeira grande viagem. Até 1996, ano em que esteve na Rússia, deu a volta ao mundo.

O diário das cinco jornadas da peregrinação está publicado em outros tantos livros, recheados de episódios e imagens. Na Bélgica, no final da década de 40, a Imagem Peregrina aparece no fundo de uma mina de carvão, cercada de mineiros. Na Guiné, anos depois, acabada de desembarcar, está numa carrinha com as rodas dentro de água; em Angola segue de comboio para o interior; em Moçambique atravessa um túnel de folhas de palmeira; na África do Sul viaja numa carroça puxada por 16 bois. Passa no Quénia e no Uganda. Em Zanzibar, lê-se, “o pedestal está gasto de tanto o beijarem”. Na Etiópia tem honras de Estado e no Cairo há um homem que a segura dentro do carro. Vai depois da Índia até às ilhas do Pacífico, passando pelo Paquistão, Malásia e Austrália. Falta ainda o Brasil. Sempre a mesma imagem, a de uma mulher descalça, vestida de branco, com as mãos em oração e a cabeça ligeiramente inclinada para a frente e para o lado esquerdo. E é ela que ocupa o pequeno altar de Soalhães, olhando de cima para os que se prostram.

Marco Daniel Duarte, numa recente comunicação feita em Santiago de Compostela, considerou “as viagens da Virgem de Fátima como uma das estratégias pastorais mais eficientes para a difusão do catolicismo, em especial da sua componente mariana”. A imagem, explica, “não é uma escultura quieta que espera a veneração dos fiéis, mas antes uma escultura viajante que sai do seu santuário rumo aos destinos mais diversificados e longínquos”. Seja uma ilha no Pacífico, ou a igreja de Soalhães, onde José Melo espera à porta com um pano na mão. Já limpou os vidros da caixa que transporta a imagem, já lhe foi dito que está para breve o regresso à estrada e, na verdade, ele até já vê o esforço na cara dos homens que carregam o andor e que têm de o baixar para passar na porta. Acabou e está prestes a começar.

De Soalhães, a Imagem Peregrina vai seguir para Baião — onde chegará já depois da meia-noite para descer a rua larga que leva à igreja, e que está decorada com velas e flores. As pessoas abrigam-se como podem da chuva que cai com força. Estão à espera. José liga o motor, o coro da igreja de Soalhães canta “Boa-Noite, Maria. Boa-noite minha mãe”. Há centenas de lenços brancos a acenar ao carro que passa. A fé talvez seja isto: uma terra inteira a olhar para um bocado de madeira esculpido em forma de mulher, e pintado com pincéis fininhos, e incapaz de ver isso mesmo — vendo antes tudo o resto, ou seja, que vai ali o símbolo da mãe de Cristo que apareceu a três pastorinhos. Dois homens e duas mulheres largam os balões que tinham guardados no carro. São 34, um por cada paróquia do Marco de Canaveses. Trinta e quatro luzes brancas que sobem em direção ao céu e que, ao fim de uns minutos, se confundem com as raras estrelas que espreitam pelas abertas das nuvens. A luz dos balões dura doze horas. As metáforas ficam para sempre.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 7 maio 2016

  • Os muçulmanos não vão a Fátima

    A ideia, nascida há duas décadas, de que crentes de outras religiões, em especial muçulmanos, partilhariam com os católicos o lugar de culto situado em Fátima, parece ter desaparecido. Na estatística do santuário, não há registo de peregrinos não católicos. E se houvesse, para o imã de Lisboa isso não faria qualquer sentido, já que o lugar de peregrinação de quem acredita em Alá é Meca

  • Novos sons na Basílica

    É o maior órgão sinfónico português e o seu som voltará a ouvir-se este domingo, no concerto que abre as comemorações do centenário das aparições de Fátima. Entre as obras do programa, há uma estreia absoluta de João Pedro Oliveira

  • Fátima já é jogo para telemóvel

    “O Jogo dos Pastorinhos”: é assim que se chama a primeira aplicação para telemóvel com a mensagem de Fátima. É um jogo, mas não será o único. O Santuário quer assinalar o centenário das aparições com "a maior abrangência possível" e esta é só mais uma das iniciativas previstas. A empresa responsável diz que teve “toda a liberdade criativa”. O vice-reitor garante que não há risco de chocar com a mensagem religiosa, já que “os pastorinhos, antes de serem beatos, foram crianças que também gostavam de brincar”