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Poluição do ar mata prematuramente 3 milhões de pessoas no mundo, mas em Portugal não se respira mal

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A contaminação atmosférica com origem nas atividades humanas, designadamente na indústria e na circulação automóvel, são responsáveis pela morte prematura de cerca de três milhões de pessoas por ano em todo o mundo

Nuno Fox

Cidades portuguesas estão de relativa boa saúde de acordo com relatório sobre poluição do ar divulgado pela Organização Mundial da Saúde

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Em Portugal, cinco cidades ultrapassam o nível máximo de partículas finas inaláveis (PM2,5), que a Organização Mundial de Saúde determina não dever ser superior a 10 microgramas por metro cúbico de ar. São elas Ílhavo (15 µg/m3), Albufeira (14), Coimbra (12), Faro, Lisboa e Vila do Conde (11). E apenas Ílhavo, cidade industrial do centro do país, ultrapassa o limite para as partículas mais grossas (PM10), com 21 µg/m3, quando o limite da daquele organização são 20 microgramas.

Porém, todas estas cidades apresentam valores abaixo dos limites impostos pelas diretivas comunitárias para estes indicadores de poluição do ar (respetivamente 25 e 40 µg/m3). E os valores registados em Portugal parecem quase ridículos quando comparados com os medidos nas 30 cidades mais poluídas do mundo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) analisou as medições de poluição em mais de três mil cidades em 103 países. No relatório divulgado esta quinta-feira, indica que no topo do ranking está Onitsha, na Nigéria, onde a concentração de partículas medida atinge 600 µg/m3 de PM10, ou seja 30 vezes mais do que o recomendado.

Entre as cidades mais poluidas do mundo estão também 16 indianas e várias paquistanesas ou do sudeste asiático, com níveis de concentração de partículas cinco a dez vezes superiores aos recomendados pela agência da ONU.

No mundo dito desenvolvido os limites de poluição do ar também são ultrapassados, mas em níveis inferiores aos dos países em vias de desenvolvimento. Por exemplo, Londres chega a 22 µg/m3, Nova Iorque a 16 e Sydney a 17.

POLUIÇÃO AUMENTOU 8%

A poluição do ar exterior que se respira nos quatro cantos do mundo tem vindo a aumentar e a OMS estima que só nos últimos cinco anos esse aumento foi de 8%. Esta contaminação atmosférica com origem nas atividades humanas, designadamente na indústria e na circulação automóvel, são responsáveis pela morte prematura de cerca de três milhões de pessoas por ano em todo o mundo. As partículas poluentes entram no sistema respiratório humano e aumentam o risco de mortalidade por infeções respiratórias, cancro ou problemas cardiovasculares.

Só na Europa estimam-se 430 mil mortes prematuras anuais, de acordo com um outro relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA) divulgado em novembro de 2015. A AEA chamava então a atenção para a perda de qualidade e de anos de vida dos europeus devido à poluição, assim como para os impactos económicos causados pelas doenças associadas. Os países da UE com o ar mais poluído são Bulgária, Itália, Polónia, Eslováquia e os Balcãs.

Apesar de se terem registado melhorias nalgumas regiões do mundo, cerca de 80% dos habitantes de áreas urbanas monitorizadas continuam expostos a níveis de poluentes que excedem os limites fixados pela OMS, aumentando este impacto junto das populações das cidades localizadas em países mais pobres.

ALERTA IMPORTANTE

O relatório da Oorganização Mundial de Saúde é "mais um alerta importante para os problemas da poluição atmosférica e que nos dá uma perspetiva mundial", sublinha ao Expresso o engenheiro do ambiente Francisco Ferreira. Contudo, acrescenta, "é limitado porque só se centra nas partículas e deixa de fora outros poluentes como o ozono ou o dióxido de azoto". Estes começam a ser "o principal problema na Europa, a que o escândalo Volkswagen não é alheio".

Os resultados do relatório em relação a Portugal não espantam o dirigente da associação ambientalista Zero. Francisco Ferreira lembra que "as medições recolhidas pela OMS foram feitas em 2014, um ano que até na estação da Av. da Liberdade em Lisboa não se ultrapassaram os valores impostos na União Europeia, e foram feitos em estações de fundo, representativas de uma região urbana mais ampla e não nas áreas de maior tráfego, no centro das cidades".