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Pesca ilegal, microplásticos e navios encalhados ameaçam Ilhas Selvagens

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Resultados da expedição são apresentados no Oceanário de Lisboa, que vai lançar a Fundação Oceano Azul para a sustentabilidade dos oceanos

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Grande diversidade de espécies animais e vegetais, sinais de sobrepesca extensiva em apenas 8% dos fundos marinhos, ecossistemas intactos, abundância de espécies que estão ameaçadas de extinção nas outras ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), microplásticos detetados em 85% das amostras de água do mar recolhidas, restos de navios encalhados.

São estes os principais resultados do Relatório Científico, a que o Expresso teve acesso, da expedição realizada pela “National Geographic” às Ilhas Selvagens (arquipélago da Madeira) em setembro de 2015, que são hoje, quarta-feira, ao fim da tarde revelados no Oceanário de Lisboa, numa iniciativa onde será também exibido o filme da expedição (ver “trailer”).

O evento conta com a presença da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, do ministro do Ambiente, José Pedro Matos Fernandes, do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, e do presidente do Oceanário de Lisboa, José Soares dos Santos.

ALARGAMENTO A “National Geographic” alerta que a área atual da Reserva Natural das Ilhas Selvagens deve ser ampliada, porque não assegura a proteção para muitas espécies largamente disseminadas

ALARGAMENTO A “National Geographic” alerta que a área atual da Reserva Natural das Ilhas Selvagens deve ser ampliada, porque não assegura a proteção para muitas espécies largamente disseminadas

ANDY MANN/NATIONAL GEOGRAPHIC

A expedição, integrada no programa “Pristine Seas” da “National Geographic”, que se dedica à proteção dos últimos ecossistemas selvagens dos oceanos, pretendia avaliar o estado de conservação dos ecossistemas marinhos das Selvagens e a sua equipa científica filmou o oceano profundo, captou imagens em mar aberto nas imediações das ilhas e visitou uma das maiores colónias de aves marinhas do Atlântico Nordeste.

O Oceanário de Lisboa, o ISPA (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida), o MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), o Waitt Institute (Washington, EUA), a Universidade da Austrália Ocidental (Perth) e a Universidade de La Laguna (Tenerife, Canárias), estiveram também envolvidos na organização desta expedição.

Como sublinha o seu Relatório Científico, “o mar profundo e as áreas de mar aberto das Ilhas Selvagens são pouco conhecidos e raramente investigados”. Com efeito, a primeira grande expedição à Reserva Natural das Ilhas Selvagens, que tem uma área total de 2,73 km2 e inclui não só as áreas submergidas mas também a orla marítima até 200 metros de profundidade, foi feita em 2010 pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), do Ministério da Defesa. Envolveu 70 cientistas nacionais e estrangeiros e fez o levantamento da biodiversidade das Selvagens até aos 2000 metros de profundidade.

PESCA Os pescadores ilegais vindos das ilhas Canárias são uma das ameaças identificadas pela “National Geographic”

PESCA Os pescadores ilegais vindos das ilhas Canárias são uma das ameaças identificadas pela “National Geographic”

MANU SAN FELIX/NATIONAL GEOGRAPHIC

Uma das recomendações feitas pela National Geographic é que a Reserva Natural das Ilhas Selvagens seja alargada, porque “a sua área atual é extremamente pequena em comparação com o número crescente de áreas marítimas protegidas a nível global”.

Por outro lado, “a área atual não assegura a proteção para muitas espécies largamente disseminadas como as aves marinhas, os mamíferos marinhos ou o atum”. A expansão da Reserva Natural à volta das Selvagens iria, assim, proteger estas espécies, “permitindo que crescessem mais, que se tornassem mais abundantes e que gerassem um “output” reprodutivo mais elevado”.

Embora seja um desafio complexo em termos de gestão, “as áreas marinhas protegidas no mar aberto têm o potencial para reduzir de forma significativa a mortalidade daquelas espécies, preservando áreas críticas necessárias à sua reprodução e alimentação”, argumenta o Relatório Científico.

RISCO Golfinhos nas águas das Selvagens: os microplásticos ameaçam as espécies animais e foram detetados em 85% das amostras de água do mar recolhidas na expedição

RISCO Golfinhos nas águas das Selvagens: os microplásticos ameaçam as espécies animais e foram detetados em 85% das amostras de água do mar recolhidas na expedição

MANU SAN FELIX/NATIONAL GEOGRAPHIC

A “National Geographic” identifica cinco ameaças à sustentabilidade dos ecossistemas da Reserva Natural das Ilhas Selvagens: a sobrepesca, o impacto da atividade pesqueira no fundo do mar, os pescadores ilegais vindos das Canárias, os restos de navios naufragados e os microplásticos encontrados nas águas do mar em 85% das amostras recolhidas na expedição.

“A ausência completa de tubarões nas filmagens submarinas feitas pela expedição é alarmante e sem medidas drásticas na gestão dos ecossistemas, a recuperação destes predadores do topo da cadeia alimentar não vai acontecer”.

E o declínio observado nos “stocks” de atum devido à sobrepesca “poderá ter efeitos negativos nas populações de aves marinhas das ilhas”. Na verdade, o atum é importante para o sucesso destas aves porque na sua predação empurra pequenos peixes e lulas para a superfície, onde podem ser caçados pelas aves mergulhadoras.

EXCESSOS Os sinais de sobrepesca extensiva ainda não são preocupantes, porque apenas se verificam em 8% dos fundos marinhos da Reserva Natural

EXCESSOS Os sinais de sobrepesca extensiva ainda não são preocupantes, porque apenas se verificam em 8% dos fundos marinhos da Reserva Natural

ANDY MANN/NATIONAL GEOGRAPHIC

O Oceanário de Lisboa anuncia também hoje ao fim da tarde o lançamento da Fundação Oceano Azul, que tem a ambição de vir a ser “um campeão mundial na sustentabilidade dos oceanos”, afirma ao Expresso Tiago Pitta e Cunha, administrador da instituição.