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Os malfeitores da Mossack Fonseca: o holandês, a rainha do sul e o boss dos bosses

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APANHADO. O “boss” dos “bosses” numa imagem tirada do ecrã de televisão do tribunal onde compareceu, em Moscovo

Reuters

Neste artigo são contados os casos de seis destacadas figuras de vários países apanhadas no escândalo dos Panama Papers, incluindo uma chefe da droga conhecida como “Rainha do Sul”, um vigarista americano que criou uma falsa organização de caridade em nome de um santo católico e um alegado mafioso conhecido no submundo russo como “chefe dos chefes”. A investigação é do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, de que o Expresso é parceiro

TEXTO POR RYAN CHITTUM, JAKE BERNSTEIN E MICHAEL HUDSON, DO CONSÓRCIO INTERNACIONAL DE JORNALISTAS DE INVESTIGAÇÃO

Em novembro de 2005, funcionários alfandegários no porto holandês de Roterdão receberam uma dica: um carregamento de espargos do Peru poderia conter algo mais do que vegetais.
Cerca de uma semana depois, 60 paletes de espargos brancos enlatados chegaram ao porto dentro de três contentores. Oitenta por cento das latas continham espargos, e as restantes cocaína - com mais de tonelada e meia de peso.

Autoridades holandesas e peruanas disseram que um homem conhecido no Peru como O Holandês - Ment Dijkhuizen Cáceres - se encontrava por trás desse tráfico de droga em escala industrial. Investigadores descobriram que ele e o seu advogado, Eduardo Gallardo Arciniega, usavam uma série de empresas fantasma offshore para lavar o dinheiro.

Dijkhuizen e Gallardo registaram pelo menos quatro dessas companhias de fachada na Mossack Fonseca, o escritório de advogados sediado no Panamá que se tornou famoso em todo o mundo por criar empresas offshore (com um rasto difícil de seguir) para políticos, investidores ricos e, em muitos casos, criminosos notórios.

Dijkhuizen é um dos malfeitores da Mossack Fonseca - gente já condenada ou alegados criminosos que beneficiaram dos serviços fornecidos pelo escritório de advogados que se encontra no centro do escândalo dos Panama Papers.
Vêm dos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha e muitas outras terras. Incluem gangsters, traficantes de droga, traficantes de armas, autores de esquemas Ponzi e outras figuras criminosas, segundo revela um exame dos ficheiros internos da firma legal realizado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI).

36 americanos e 33 pessoas e empresas que estão na lista negra

Nos ficheiros internos da Mossack há pelo menos 36 americanos que foram acusados de fraude ou outra má conduta financeira grave. Os ficheiros também incluem pelo menos 33 pessoas e empresas que estão na lista negra do Departamento do Tesouro norte-americano por haver provas de que se envolveram em atividades ilegais, tais como negócios com barões da droga mexicanos ou com organizações terroristas como o Hezbollah.

A Mossack Fonseca disse ao CIJI e outros parceiros de media que "não fomenta ou promove atos ilegais". Explicou que confia em intermediários aos quais se refere como os seus "clientes" - banqueiros, advogados e outros operacionais que lhe encaminham negócio - para garantir que as pessoas que arranjam empresas offshore através do escritório não estão envolvidas em atividade criminosa. A firma diz que também tem os seus próprios processos de veto para identificar clientes suspeitos "até onde for razoavelmente possível".

Nos casos em que as empresas formadas pela Mossack Fonseca acabaram nas mãos de criminosos, disse um porta-voz, a firma tem "condenado fortemente essa situação" e tomado ações para lidar com o problema.

A firma recusou responder a perguntas sobre companhias offshore ligadas a Dijkhuizen e outras cinco figuras notórias cujas histórias são exploradas neste artigo - incluindo uma chefe da droga conhecida como "Rainha do Sul", um vigarista americano que criou uma falsa organização de caridade em nome de um santo católico e um alegado mafioso conhecido no submundo russo como "chefe dos chefes" (Boss of Bosses).

Modos finos e educados

Nome: Ment Floor Dijkhuizen Cáceres
Nacionalidade: peruano
Motivo da fama: tráfico de droga
Lugares: Peru e Holanda
Também conhecido como: El Holandés

A rede da cocaína de Ment Dijkhuizen estava sob escrutínio há anos, muito antes da sua prisão. Sandra Barrios Villacorta, secretária de uma figura-chave da organização de Dijkhuizen que tinha sido presa, foi assassinada quando levava a sua filha à escola. A polícia suspeitou que ela "sabia de mais", segundo o jornal italiano "La Republica".

Após saber, em 2006, que Dijkhuizen tinha sido alvo de uma maciça operação anti-droga, Jurgen Mossack, co-fundador da Mossack Fonseca, manifestou-se surpreendido que a empresa tivesse aceite um tal homem como cliente. "Há contas bancárias?", escreveu Mossack. "Somos signatários? (...) Pergunto que tipo de diligência devida é feita com clientes no Peru?"

Monica Ycaza, a representante da Mossack Fonseca no Peru, respondeu dizendo que ela não teria tido forma de saber.

O advogado de Dijkhuizen, Gallardo, que tratou da criação das companhias, garantiu que era "uma pessoa de modos finos e educados", que não lhes tinha dado "motivo para duvidar dele", disse Ycaza.

A rainha da droga

Nome: Marllory Dadiana Chacón Rossell
Nacionalidade: guatemalteca
Motivo da fama: tráfico de droga, lavagem de dinheiro
Lugares: Guatemala, Honduras, Panamá, México, Estados Unidos
Também conhecida como: Rainha do Sul

Em janeiro de 2012, as autoridades norte-americanas identificaram Marllory Dadiana Chacón Rossell como "uma das mais prolíficas traficantes de narcóticos na América Central".

Funcionários do Tesouro acusaram-na de enviar milhares de quilos de cocaína através da Guatemala para os Estados Unidos e de lavar dezenas de milhões de dólares todos os meses.
É tão raro uma mulher obter estatuto de barão da droga que a imprensa guatemalteca a alcunhou "Rainha do Sul".

No auge do reino de Chacón Rossell, ela e a sua família viviam de forma opulenta na Cidade da Guatemala, convivendo com políticos e a alta sociedade e fazendo férias na Europa. Próxima dos quarenta anos, era mãe de cinco filhos e chefe de um império empresarial que incluía hotéis, uma lotaria nacional, uma firma de construção e uma loja de roupa cara. Funcionários dos EUA identificaram 24 entidades de negócios relacionadas com ela.

A Mossak Fonseca desempenhou um papel no seu reino, segundo mostram os ficheiros internos do escritório.

Em 2008, ajudou a estabelecer a Broadway Commerce Inc. Chacón Russell era designada como diretor e presidente. A Mossack Fonseca também ajudou a companhia a criar contas no Banvivienda Bank do Panamá e no Banco Reformador, da Guatemala. Em outubro de 2009, registos mostram que a conta no Banco Reformador tinha 12 milhões.

Em 2015, Chacón Rossell fez um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, conseguindo uma sentença reduzida a troco da sua cooperação com as autoridades americanas. A pena com que na realidade ficou manteve-se secreta, e um juiz ordenou que o caso permanecesse selado durante cinco anos.

Operação Baleia Branca

Nome: Fernando del Valle
Nacionalidade: chileno
Motivo da fama: lavagem de dinheiro
Local: Espanha

Em 2005, as autoridades prenderam cinquenta pessoas na Operação Baleia Branca, uma investigação sobre aquela que foi chamada a maior rede de lavagem de dinheiro na história de Espanha. No centro da alegada operação de trezentos milhões de dólares, disseram os procuradores, estava um advogado chileno chamado Fernando del Valle, que criou empresas fantasma que ajudaram traficantes de droga, mafiosos, traficantes de armas e proxenetas a meter dinheiro sujo em imobiliário.

Em 2007, dois anos depois de ter sido preso no caso Baleia Branca, del Valle conseguiu que a Mossack Fonseca reativasse uma companhia por ele formada em 1979, chamada Nitel Values SA.

A Mossack Fonseca não soube da prisão de del Valle até 2009, quando ele pediu para criar uma nova companhia destinada a um cliente alemão. Um mês depois, a Mossack Fonseca demitiu-se de agente registado da Nittel Values.

Em 2011, um tribunal espanhol condenou del Valle a mais de seis anos de cadeia por lavagem de dinheiro e fraude fiscal.

Lista de tarefas

Nome: Martin Frankel
Nacionalidade: americano
Motivo da fama: fraude
Lugar: Estados Unidos

Em fevereiro de 2000, as autoridades americanas abordaram a Mossack Fonseca através do procurador geral da Ilhas Virgens britânicas, pedindo informação sobre duas companhias offshore detidas pelo colorido criminoso financeiro Martin Frankel. Ele tinha sido um cliente de longa data da empresa, abrangendo até o período em que roubou mais de duzentos milhões de dólares a companhias seguradoras em cinco estados, fugindo com parte do dinheiro quando foi descoberto.

Frankel também estabeleceu uma falsa fundação caritativa à qual deu o nome de um santo católico, e que prometia angariar dinheiro para os pobres, mas em vez disso financiava o seu estilo de vida faustoso, com mansões, carros de luxo, guarda-costas e uma sucessão de namoradas.

Quando Frankel fugiu dos Estados Unidos, em 1999, disseram as autoridades, levou consigo uma carta astrológica feita para responder à pergunta "Irei para a cadeia?" e uma lista de tarefas que incluía "lavar dinheiro". Quando as autoridades finalmente o apanharam, em Hamburgo, na Alemanha, encontraram 547 diamantes e nove passaportes falsos.

A Mossack Fonseca demorou vários meses a responder ao pedido oficial de documentos em 2000. No interim, tratou de encerrar companhias ligadas a Frankel e descomprometer-se da sua associação com ele. Em 2002, Frankel reconheceu-se culpado de vinte acusações de fraude eletrónica, assim como de acusações de fraude com valores imobiliários e de conspiração para cometer fraude.

Armas e dinheiro

Nome: John Knight
Nacionalidade: britânica
Motivo da fama: tráfico de armas
Lugar: Reino Unido

Em novembro de 2004, John Knight admitiu que tinha negociado com o Sudão para lhe fornecer tanques, lança-rockets, armas de artilharia e aviões soviéticos - enquanto o país levava a cabo um genocídio em Darfur.

Knight já era conhecido na Grã-Bretanha. Em 1991, um repórter do "Daily Mirror" a trabalhar disfarçado conseguiu fazer um acordo para lhe comprar Kalashnikovs. Quando o jornal "The Scotsman" lhe perguntou porque vendia armas ao regime sudanês, Knight referiu Adolf Hitler, dizendo que "as pessoas forneciam-lhe coisas. Ele era o maior tirano de todos".

Através de um intermediário em Chipre, Knight comprou à Mossack Fonseca uma companhia fantasma nas Ilhas Virgens britânicas, chamada Endeavour Resources Limited, em 2005. Usou essa companhia para traficar armas no Médio Oriente, segundo o governo britânico.

Em 2007, as autoridades alfandegárias britânicas fizeram um raide à sua casa de 3 milhões de dólares à saída de Londres, buscando provas de que ele tinha estado a negociar armas com o Irão. Encontraram documentos triturados que, reconstituídos mais tarde, mostraram que Knight havia criado um rasto falso para cobrir o seu plano de comprar 130 armas automáticas ao Irão e vendê-las ao Koweit por meio da Endeavour Resources. Ele foi condenado a quatro anos de prisão pelo esquema.

A Mossack Fonseca resignou como agente registado da Endeavour Resources, mas permanece o agente da Business Systems Consultant Ltd, uma companhia das Bahamas que estava listada como diretor da Endeavour Resources.

Chefe dos chefes (Boss of Bosses)

Nome: Semion Mogilevich
Nacionalidade: ucraniana
Motivo da fama: chamado "o mais perigoso gangster do mundo"
Lugar: Moscovo
Também conhecido como: o Chefe dos Chefes; o Don Cerebral; Mr. Bigsky; Seva

Em 2009, o FBI pôs Semion Mogilevich no seu top ten dos fugitivos mais procurados, designando-o como "um vigarista global e criminoso impiedoso" que estava "envolvido em tráfico de armas, homicídios por encomenda, extorsão, tráfico de droga e prostituição a uma escala internacional". Conhecido por Chefe dos Chefes, este ucraniano encorpado que fuma compulsivamente usa a bomba no carro como método característico de eliminar um inimigo, segundo o jornal "The Guardian".

Mogilevich teve o seu começo no crime organizado extorquindo judeus soviéticos que emigravam para Israel, segundo o jornal "The Independent". Acabou por estabelecer operações na Hungria e em Israel.

Uma acusação obtida pelas autoridades americanas em 2003 diz que ele esteve por trás da fraude na YBM Magnex International, uma empresa da Pensilvânia presente em bolsa, que roubou 150 milhões de dólares a investidores.

Mogilevich teve várias ligações próximas a empresas registadas pela Mossack Fonseca, embora nenhuma pareça ter sido em seu nome. Em 2001, o gabinete do procurador geral das Bahamas escreveu à Mossack Fonseca a pedir informação sobre a Rosebud Consultants Inc., uma companhia registada pelo escritório de advogados em Nassau. Os funcionários das Bahamas agiam em resposta a um pedido das autoridades americanas que estavam a investigar o que alegavam serem pagamentos feitos a Mogilevich e ao seu advogado Adrian Churchward em conexão com o escândalo da YBM Magnex.

Os próprios ficheiros da Mossack Fonseca não mostram quaisquer laços entre Churchward e a Rosebud, mas o pedido de investigação dizia que os procuradores americanos acreditavam que Churchward estava "associado" à Rosebud e que a companhia estava a canalizar vinte mil dólares por mês em "honorários de consultoria" a Mogilevich.

Churchward também era diretor da Trinity Films Inc, juntamente com Galina V. Grigoryeva, que foi casada com Mogilevich e depois com Churchward. A Mossack Fonseca registou essa companhia nas Bahamas em março de 1996.

Churchward agora escreve 'thrillers', incluindo "Direção Moscovo", sobre a mulher separada de um oligarca russo e um advogado em fuga por um crime que não cometeram. Após a publicação das histórias iniciais dos Panama Papers, Churchward criticou fortemente a indústria offshore, dizendo no Twitter que os ricos e poderosos "têm um controlo apertado sobre a sua corrupção".
"Nada vai mudar", acrescentou. "A 'elite global' e os seus criados políticos não são perus que estão prestes a votar a favor do Natal".

Questionado sobre a sua ligação a empresas na Mossack Fonseca, Churchward disse num email: "Os meus advogados avisaram-me que se o senhor Moguilevitch for a julgamento eu poderei ser chamado pela acusação ou pela defesa a depor como testemunha e, como tal, não devo comentar sobre quaisquer aspetos de qualquer alegada relação com o senhor Moguilevitch, seja de negócios ou outra."

Outra conexão a Mogilevich nos Panama Papers é Igor Fisherman, um americano nascido na Ucrânia, que os EUA acusam a par de Mogilevich no esquema da YBM Magnex. A mulher de Fisherman, Olga Zhunzhurova, tinha procuração sobre a Hastan Finance SA, uma companhia comprada nas Seychelles, um refúgio offshore no Oceano Índico, através de um intermediário na Suíça.

O FBI disse em 2009 que Mogilevich estava a viver em Moscovo. Em 2015, a agência retirou-o da sua lista dos Dez Mais Procurados, notando que "a extensa publicidade nacional e internacional que ele recebeu não gerou informação que contribuísse para a sua captura".

Mogilevich não pôde ser contactado para comentar a presente história. Num artigo de 1999, o jornal "New York Times" citou-o a dizer: "Não sou um líder ou participante ativo em qualquer grupo criminoso". Quando a BBC lhe perguntou sobre o caso YBM Magnex em 1999, ele disse: "Bem, se encontraram trapaça da antiga, compete-lhes prová-la."

Frankel, Knight e Dijkhuizen também não puderam ser contactados para esta história. Num email, del Valle disse que não podia comentar. O advogado de Chacón Rossell disse que a sua cliente declinava comentar.

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