Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Um pensador em ato à escuta do mundo

  • 333

ilustração Alex Gozblau

Há pessoas reconhecidas pelo pensamento, outras admiradas pelo que fazem. Há ainda quem seja respeitado pelo que pensa e por aquilo que faz. O Papa Francisco estará neste último caso. Há quem o menospreze dizendo que ele é apenas uma pessoa simpática. Mas percebe-se, pelos seus textos e decisões, que, pelo contrário, é um pensador, em relação permanente com a realidade

António Marujo (texto), Alex Gozblau (ilustração)

Tudo começa numa escolha aparentemente pouco importante: depois de eleito, quando o levaram aos aposentos papais, Jorge Mario Bergoglio comentou que o espaço era demasiado grande e que precisava de pessoas na sua vida. Preferiu, por isso, ficar a residir na Casa de Santa Marta, onde estão alojados dirigentes e funcionários de serviços da Santa Sé, e que serve também de hotel para pessoas de passagem.

Santa Marta tem mulheres e homens a trabalhar na receção, na limpeza, no serviço de mesa. Pessoas que não vivem apenas fechadas no círculo do Vaticano e se cruzam diariamente com o Papa Bergoglio. Seja nos corredores, na capela, no átrio de entrada ou à mesa.

Os antecessores de Francisco só contactavam, no dia a dia, com os funcionários mais próximos — secretários, cardeais e bispos, religiosas. Ao contrário, o facto de este Papa estar numa residência normal permite-lhe aproximar-se dos funcionários, conhecer os seus problemas, as pequenas alegrias ou as grandes dores.

Há dois meses, por exemplo, Francisco foi rezar durante um tempo largo junto do corpo de Miriam Wuolou, rececionista de Santa Marta com 34 anos, de origem eritreia, grávida de sete meses, que morrera vítima de diabetes. Ver um Papa num velório de uma funcionária do Vaticano seria, até há pouco, muito pouco provável.

Se Bergoglio já era, por temperamento, próximo das pessoas, a decisão de residir em Santa Marta permite que, enquanto Papa, ele parta do quotidiano e da provocação da vida dos outros para refletir sobre factos e acontecimentos. Depois, num movimento permanente e circular, a sua reflexão propõe novas visões do mundo, dos modos de estar da Igreja e da relação dos crentes com a fé.

Um pensador, portanto. Mas, ao invés da escultura de Auguste Rodin, Francisco não se inclina sobre si mesmo. Antes se coloca à escuta do que o envolve.

Esse modo de estar reflete-se quer nas homilias que faz todos os dias na missa matinal quer em documentos importantes como o que publicou, a 8 de abril, sobre a família: “Amoris Laetitia — A Alegria do Amor”, e no qual fala de todas as situações de alegria ou tensão no contexto familiar. Ou ainda, em situações tão diferentes quanto o discurso perante os refugiados de Lesbos ou as referências a questões de economia ou emprego, a decisões no campo do combate à pedofilia do clero ou da reforma da Cúria Romana.

O padre jesuíta Antonio Spadaro, que fez a primeira grande entrevista a Francisco já depois de eleito, nota, no livro “Temos de Ser Normais”: “É significativo que, como declara o Papa, o discernimento espiritual guie as suas opções quotidianas, à primeira vista imediatas e espontâneas. Um exemplo: quando me falou da decisão de ficar a morar em Santa Marta, utilizou o termo ‘eleição’. Impressionou-me o facto de o Papa ter usado esta palavra, típica da linguagem de santo Inácio [de Loiola, fundador dos jesuítas], para indicar uma escolha que é fruto de um atento discernimento sobre a vontade de Deus.”

O conceito: misericórdia

No centro do pensamento e da ação do Papa, está o conceito de misericórdia, que o levou a proclamar um ano dedicado a esse tema. O cardeal Walter Kasper, autor de um livro sobre o assunto que o Papa citou logo no primeiro domingo depois de eleito, não tem dúvidas: “A misericórdia é o centro, o fulcro da mensagem bíblica” e é “a trave-mestra da Igreja”, afirma, no livro “Testemunha da Misericórdia”. Francisco, acrescenta o cardeal alemão, “fala da ‘hierarquia da verdade’, e diz que o cerne da verdade bíblica é a caridade de Deus. Por isso, a misericórdia constitui a hermenêutica das outras verdades e dos próprios mandamentos”.

É essa ideia — sinónimo de coração compadecido — que o Papa retoma a partir do Evangelho. E que lhe permite perguntar, quando é questionado sobre a homossexualidade: “Quem sou eu para julgar?” Ou que está por trás do gesto de levar três famílias de refugiados sírios do campo de Moria, em Lesbos, para viverem no Vaticano. Ou que o fez abrir novas possibilidades aos católicos divorciados que voltaram a casar, como o próprio admitiu a bordo do avião que o levou de Lesbos ao Vaticano, a propósito da exortação “Amoris Laetitia”.

O Papa teve a “genialidade” — a expressão é de novo do cardeal Kasper — “de compreender a imensa necessidade de misericórdia e de amor que percorre a noite do homem e da mulher contemporâneos”. Por isso, acrescenta ainda Walter Kasper, “não se compreende a oposição de muita gente ao Papa Francisco, que exprime esta centralidade da misericórdia de um modo novo e muito mais incisivo, porque a liga à necessidade de regressar à fonte evangélica”.

É o próprio Francisco quem fala de revolução, a propósito deste tema. Em novembro de 2013, na exortação “Evangelli Gaudium — A Alegria do Evangelho”, escrevia que “na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura”. No livro “A Felicidade Treina-se em Cada Dia”, que recolhe as homilias de 2014-2015 em Santa Marta e acaba de ser publicado, o Papa diz que a misericórdia é “uma grande luz de amor, de ternura”.

A misericórdia tem de ser vivida no concreto por todos os crentes, acrescenta Francisco, na carta que proclamou o ano santo: “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos — em suma, onde houver cristãos —, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.”

“É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança”, diz ainda, sobre o fundamento da sua proposta. Defendendo, como faz no livro “O Nome de Deus é Misericórdia”, que o perdão deve ser estendido às relações sociais e entre Estados. Sob pena de não se fazer justiça e de se correr o risco de “alimentar uma espiral de conflitos sem fim”.

A convocação do ano da misericórdia e a insistência do Papa no tema não são apenas ideias generosas. Antes correspondem a uma ideia central, fundamentada no Evangelho. A divisa que escolheu quando foi nomeado bispo — e que manteve como Papa — não deixa dúvidas: “Miserando atque eligendo”. Uma frase retirada do evangelho de São Mateus: “Jesus viu um cobrador de impostos e, olhando para ele com misericórdia, escolheu-o”. Quando passava por Roma antes de ser Papa, Bergoglio ficava numa casa ao lado da igreja de São Luís dos Franceses. E entrava aqui muitas vezes para contemplar o quadro “Vocação de Mateus”, de Caravaggio, como o próprio contou na entrevista a Spadaro...

O método: abrir portas

Francisco coloca a aproximação a cada pessoa acima da tradição, da norma ou do costume. Abrir portas é o seu método, baseado no modelo de acompanhamento pessoal proposto nos “Exercícios Espirituais” de santo Inácio de Loiola (no passado dia 22, o Papa assinalou o aniversário da profissão perpétua dos votos religiosos na Companhia de Jesus, em 1973).
Esta abertura traduz-se em mudanças em situações em que já há um ambiente favorável (mesmo que não unânime) à renovação; foi o caso da alteração ao ritual litúrgico do lava-pés, que passou a incluir mulheres; ou dos procedimentos que Francisco tem exigido no combate à pedofilia do clero — denúncias dos casos às autoridades, demissões de bispos silenciosos ou coniventes, etc.

Noutras situações, o Papa prefere propor caminhos que levem as pessoas a entender a necessidade de alterar regras, disciplinas, comportamentos. Com cautelas, por vezes, para não colocar em causa toda a proposta, mas insistindo nas suas ideias e sugestões como forma de levar a comunidade dos crentes a percorrer um caminho.

O lugar da mulher na Igreja é um outro indicador de como se abrem portas que estão ainda mais trancadas. Em 1984, o Papa João Paulo II publicou uma carta em que afirma que a ordenação sacerdotal deve ficar reservada aos homens para sempre. Ao regressar do Brasil, em 2013, Francisco repetiu que o seu antecessor já encerrara o assunto, mas dizendo que a Igreja devia ampliar a participação das mulheres.

Dias depois, na entrevista que daria ao padre Spadaro, para as revistas jesuítas (publicada nos livros “Temos de Ser Normais” e “Sonho Com Uma Igreja Mãe e Pastora”), dizia ser “necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, que “não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel”; que “a mulher, para a Igreja, é imprescindível” e que é necessário “aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja”.

Depois, o Papa acrescentava algo de novo: “É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. (...) O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
Ao falar dos lugares de autoridade, o Papa está a referir a hierarquia católica. Se diz, por um lado, que a questão da ordenação está fechada, por outro abre a porta ao debate sobre o assunto. E insiste no contributo específico das mulheres, também em lugares de autoridade na Igreja. É a sua forma, tranquila, de provocar a revolução.

Uma tal opção do Papa tem implicações mesmo na teologia. Nas últimas décadas, os exegetas bíblicos têm relido os textos dos evangelhos e das cartas de São Paulo e descoberto algo que, durante séculos, se omitiu por razões culturais: as mulheres foram muito mais importantes nos primeiros seguidores de Jesus do que se pensava e tiveram mesmo um papel de liderança nas comunidades fundadas por São Paulo. Em várias homilias, Francisco pediu já o aprofundamento do papel das mulheres na Bíblia e, ao empossar cinco mulheres na Comissão Teológica Internacional, disse que elas não devem ser apenas a “cereja no topo do bolo”.

A prática: as pessoas no centro

A família, com dois sínodos de bispos dedicados ao tema, foi um dos campos onde mais se percebeu a estratégia de ir abrindo portas, constante nestes três anos de pontificado. Comentando a exortação “Amoris Laetitia”, o Papa disse explicitamente, aludindo à possibilidade do acesso à comunhão de católicos divorciados e casados segunda vez: “Posso dizer que sim, ponto final. Mas seria uma resposta demasiado curta.” Depois, remeteu para o que tinha sido dito na conferência de imprensa de apresentação do documento. O cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, falara de novidades, sem ruturas, no documento do Papa. E referira a importância do discernimento “delicado, mas necessário”, em relação a cada caso.

A abertura destes caminhos não tem sido fácil: o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da importante Congregação para a Doutrina da Fé, contestou várias vezes as soluções que o Papa e o cardeal Kasper propunham e que agora ficaram consagradas na exortação apostólica “A Alegria do Amor”. Em Portugal, houve uma diferença de sublinhados entre o patriarca de Lisboa e o bispo de Leiria-Fátima: D. Manuel Clemente destacou que o Papa não quis propor mudanças, enquanto António Marto acentuou que Francisco, “de modo genial, introduziu uma mudança da disciplina sem pôr em causa a doutrina sobre o matrimónio e a família”.

No documento, o Papa sugere uma arte poética, relacional, emotiva e erótica para a vida do casal. Um capítulo inteiro — o quarto, que fala sobre o amor no matrimónio — é dedicado a esses aspetos. Refere, mesmo, a união afetiva dos esposos como podendo reunir em si “a ternura da amizade e a paixão erótica”. E admite que, na formação do clero, “pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados”. Sempre abrindo portas, sugerindo caminhos, sem nada forçar.

Francisco insiste em três verbos como chave para a ação da Igreja: “acompanhar, discernir e integrar”, título do oitavo capítulo. Aqui, o Papa argentino inclui não só os divorciados, mas também os homossexuais ou as pessoas que vivem em união de facto, seja por relutância contra as instituições ou os compromissos, seja pela falta de segurança económica ou social. Também nestes casos os responsáveis da Igreja devem procurar valorizar “aqueles sinais de amor que refletem, de algum modo, o amor de Deus”. E, se neste documento o tom é sério, também já se referiu, com humor, às sogras ou a situações de discussão e conflito nos casais, quando os pratos voam entre marido e mulher.

Ao regressar de Lesbos, o Papa vincou a sua perspetiva: a família é um todo, entre questões morais, emocionais e sociais. Tomando como ponto de partida algumas leituras mediáticas que considera redutoras, dizia: “Estes media não se apercebem de que este [divorciados recasados] não é o problema importante: a família está em crise em todo o mundo, e a família é a base da sociedade; que os jovens não se querem casar; que há uma queda da taxa de natalidade na Europa que dá vontade de chorar; que falta trabalho; que as crianças crescem sozinhas. Estes são os grandes problemas.”

O Papa já deu exemplo de que a prática da Igreja Católica pode centrar-se mais nas pessoas do que nas regras ou em algumas práticas distorcidas. Nestes três anos, Francisco batizou já várias crianças filhas de situações “irregulares”, como uma mãe solteira ou um casal casado apenas pelo registo civil. O primeiro episódio deu-se em janeiro de 2014 e foi notícia não por quebrar uma regra (o Direito Canónico apenas pede que se garanta a educação cristã dos filhos), mas pelo inédito de um Papa fazer o que muitos padres não facilitam ou até contrariam.

A decisão de alterar a regra litúrgica que previa que, na Quinta-Feira Santa, a cerimónia do lava-pés fosse restringida a homens é outro exemplo. Apesar de o Papa o ter feito logo na Páscoa de 2013, dias depois de ter sido eleito, poucos bispos e padres se atreveram a seguir-lhe os passos. No início deste ano, Francisco promulgou um decreto afirmando que é assim que deve ser feito.

Realidade nova: as pessoas que sobram

Colocar as pessoas no centro é também o grande argumento do Papa nas invetivas contra a “economia que mata”. A expressão, cunhada na exortação “A Alegria do Evangelho”, de novembro de 2013, traduz, para Francisco, a condenação de um sistema que promove a “cultura do descartável” e a “globalização da indiferença”. Esta foi condenada na sua primeira viagem fora do Vaticano, quando foi à ilha de Lampedusa estar com refugiados e homenagear as vítimas de naufrágios no Mediterrâneo.

Para Francisco, já não está em causa apenas “um fenómeno de exploração e opressão”, mas antes uma “realidade nova”: os excluídos, que “não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. Esta exclusão atinge uma das suas manifestações mais dramáticas na “grave crise humanitária” dos refugiados — para a qual o Papa foi a Lesbos, sábado passado, implorar a resolução.

É na sua encíclica sobre a questão ecológica — “Laudato Si — Louvado Sejas (Sobre o cuidado da casa comum)” — que o Papa leva mais longe a sistematização das suas críticas a um sistema que submete a política à finança, relacionando diferentes fatores e realidades: crise ecológica e ambiental, pobreza e subdesenvolvimento, depredação e esgotamento de recursos, concentração de grandes grupos financeiros e dívida externa, natalidade e fim da biodiversidade, privatização da água e dívida ecológica, ecologia social e desigualdade.

O Papa entende que “uma verdadeira abordagem ecológica” exige uma “abordagem social”, ouvindo em simultâneo “o clamor da terra” e o “clamor dos pobres”. Francisco repropõe alguns princípios que vêm dos primeiros séculos do cristianismo: o destino universal dos bens e a sua primazia sobre a propriedade privada. Mas, precisamente por causa de tais argumentos, este foi o seu documento que mais críticas provocou em alguns sectores católicos e politico-financeiros.

O articulista espanhol Miguel Angel Belloso, publicado em Portugal pelo “Diário de Notícias”, apresenta-se como católico mas é muito crítico de Francisco. Em junho, depois da publicação da “Laudato Si”, escrevia que o Papa “chega a ser ofensivo ao assegurar que a propriedade privada não pode estar acima do bem comum”. Ora, já João Paulo II recordava, na encíclica sobre o trabalho, em setembro de 1981, que a tradição cristã “sempre” defendeu que “o direito à propriedade privada está subordinado ao direito ao uso comum, subordinado ao destino universal dos bens”. Aliás, lendo os teólogos dos primeiros séculos do cristianismo, eles chegam a pugnar que um pobre que roube para comer não deve ser condenado por esse ato.

No livro “Papa Francisco – Esta Economia Mata”, os jornalistas italianos Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi sistematizam outras críticas feitas ao Papa: o comentador radiofónico norte-americano Rush Limbaugh acusa Francisco de ser marxista; Jonathan Moseley, expoente do Tea Party, acrescenta que Jesus chora “por causa das palavras do Papa” apelando à redistribuição, pois Jesus era “um capitalista, apelando à responsabilidade pessoal, nunca um socialista”.

A revista financeira americana “Forbes” colava Bergoglio às teses do Nobel Joseph Stiglitz, e o magnata Kenneth Langone, católico e dono de uma grande riqueza, dizia que iria repensar o seu apoio a obras católicas de beneficência. Sarah Palin e John McCain, candidatos republicanos contra Obama, também alinharam nas críticas ao Papa ‘liberal’. Michael Novak, católico e guru dos conservadores teológicos americanos, tentava reduzir o alcance das palavras do Papa à realidade argentina ou, quando muito, latino-americana.

Os autores do livro recordam, no entanto, que Novak já criticara, em 2009, a encíclica do Papa Bento XVI “Caritas in Veritate — A Caridade na Verdade”. Nesse documento, o Papa Ratzinger defendia, por exemplo, “a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitetura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”. E recordava que o subdesenvolvimento e a pobreza de muitas áreas do globo se tornou “mais agudo e premente com a crise económico-financeira em curso”.

Na “Laudato Si”, Francisco faz a defesa do trabalho como direito e fator de realização pessoal. A diminuição dos postos de trabalho, substituindo-os por máquinas, é “um exemplo de como a ação do homem se pode voltar contra si mesmo”. Conclui o Papa, defendendo a existência de políticas de emprego: “Renunciar ao investimento nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negocio para a sociedade.”

Por contraste, e dias antes da publicação da encíclica, o diretor da Faculdade de Economia da Universidade Católica Portuguesa, Francisco Veloso, condenava a 13 de junho, em entrevista ao “Diário de Notícias” e à TSF, a “rigidez” no despedimento e na contratação em Portugal, defendendo que é preciso “ir mais além” na flexibilização.

Uma linguagem: a homilia

Regressemos a Santa Marta: a homilia na missa matinal na casa onde reside acabou por se tornar uma nova linguagem com que o Papa fala ao mundo. No livro “A Felicidade Treina-se em Cada Dia”, o padre Antonio Spadaro cita o filósofo Giovanni Reale, especialista em Platão e nos grandes clássicos, que dizia que o livro com as homilias do primeiro ano (“A Verdade é Um Encontro”) era um verdadeiro tratado de filosofia. De uma filosofia oral, explica depois Spadaro, de um logos que acolhe a força das metáforas, das irregularidades gramaticais e tensão vital.

Basta ler um qualquer dos 155 textos reunidos neste volume (ou dos 186 de “A Verdade é um Encontro”) para perceber esse método filosófico franciscano: partindo da Bíblia, o Papa refere e brinca com o quotidiano, explica o que pode fazer o crente que o escuta, propõe novos modos de estar por parte da Igreja. Liberdade, desprendimento, pluralidade no pensamento, centralidade dos mais pobres na ação dos católicos, crítica da burocracia e do carreirismo eclesiástico, pedidos de perdão pelas falhas — ligeiras ou mais graves, como a pedofilia —, apelos à paz e condenação do comércio de armas, a proposta da alegria...

Jesus é aquele que abre portas e a Igreja “tem sempre as portas abertas”, dizia ele, na homilia de 17 de março do ano passado. E dia 23 do mesmo mês, remata assim, sobre o tema “sem misericórdia não há justiça”: “Gostaria apenas de dizer uma das mais belas frases do Evangelho, que me comove muito: ‘Ninguém te condenou?’ ‘Também eu não te condeno.’ ‘Também eu não te condeno’ é uma das frases mais belas, porque é cheia de misericórdia.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016