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Quina, a má da fita

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FURTO. Pelo segundo ano consecutivo, Quina, que se confessa inocente, foi apanhada na Queima das Fitas do Porto a roubar uma carteira. O julgamento está marcado para 18 de maio

rui duarte silva

Aos 85 anos, Joaquina Gonçalves voltou a ser apanhada a surripiar uma carteira durante o desfile do Cortejo Académico do Porto. “Quina, a carteirista”, como é conhecida pela polícia e pela vizinhança em Ermesinde, nega tudo, justificando a alcunha “sem proveito” à reputação do falecido marido, de quem se divorciou por ser “um ladrão” encartado

Na rua Miguel Bombarda, em Ermesinde, onde reside há quase 40 anos a suposta decana das carteiristas em atividade no país, questionava-se à boca pequena na segunda-feira, véspera da Queima das Fitas do Porto, se Quina iria ou não fazer das suas na confusão do cortejo.

“Ganharam os que porfiavam que sim”, diz uma vizinha de Joaquina Gonçalves, que não quer ser identificada por se dar bem com a idosa, “simpática, conversadora e que nunca fez mal a ninguém nas redondezas”.

Terça-feira, percorria o cortejo dos estudantes de Medicina a animada zona dos Clérigos quando Quina, no meio da multidão, terá alegadamente deslizado rápida a mão para o interior da mala de Emília Teixeira Vaz, que distraída e orgulhosa assistia ao desfile da neta.

Conhecida da polícia por atos similares no passado, Joaquina foi de imediato detida por agentes da 1ª Esquadra Criminal do Porto e presente, no dia seguinte, ao Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto, onde foi constituída arguida.

“O bruto do polícia agarrou-me com força no braço, que ainda tem a marca, e levou-me para a esquadra sem razão nenhuma”, queixa-se. Esta sexta-feira, ao fim da manhã, à saída de casa para ir apanhar o comboio para o Porto a fim de levar “uns papéis ao tribunal”, Quina contou ao Expresso, depois de se certificar que não era para a televisão, que tudo não passou de uma confusão, jurando pelas filhas que “nunca roubou nada a ninguém”, nem deu trabalho à polícia.

“Sou uma desgraçada com esta fama por causa do ladrão do meu marido, o Queiroga. Perdi a conta às vezes que fui parar com ele à esquadra devido às artimanhas dele”, lamenta-se.
Sobre o flagrante delito de terça-feira, garante que estava a ver o cortejo quando tropeçou numa coisa que parecia um telemóvel. “Peguei e vi que era um porta-moedas. Nem olhei quanto tinha. Estava para perguntar de quem era, quando apareceu o tal polícia, que me ficou com 20 euros que o meu neto me tinha dado e ainda com dois euros que tinha para pagar o comboio”, confidencia.

Há um ano, também na altura do cortejo, Quina foi detida por ter a mão ligeira, mas a vítima, uma veneranda senhora de 92 anos, optou por desistir da queixa. “Outra mentira. Fui ao cortejo com o meu neto e peguei na carteira no quarto de banho em Campanhã”, afirma a anciã, que, no próximo dia 18, irá pela quarta vez a julgamento, a segunda por crime de furto simples, uma em 2005 e outra em 2012.

rui duarte silva

Em 2006, a conhecida “carteirista de Ermesinde” foi ainda acusada por crime de maus-tratos de sobrecarga de menores, ao que consta por ter sujeitado dois netos à mendicidade. Situação que também rejeita, dizendo que criou os netos como filhos, um deles, de 18 anos, a residir com ela e a trabalhar em Vila do Conde.

Segundo o processo a que o Expresso teve acesso, nas três sentenças anteriores Quina foi condenada a penas suspensas de dois e três anos, duas remíveis a multas de 300 euros e uma de 360 euros, pena que fonte próxima da arguida refere que deverá voltar a repetir-se. “Apesar de ser reincidente, não é uma ofensa grave.” O porta moedas de Emília foi avaliado em 15 euros e continha 25 euros.

Medo só de morrer

A idosa, que a 24 de agosto celebrará 86 anos, diz que anda “muito envergonhada” com o sucedido, por ser incapaz de roubar seja o que for a alguém. “Comecei a trabalhar em feiras com a minha mãe em Fafe pequenina. Aos 11 anos, já ia vender sozinha roupas e outras coisas para a Rua Escura, no Porto. Aquelas mulheres de má vida que andavam por lá ajudavam-me bastante”, recorda com as lágrimas nos olhos.

Natural de Fafe, casou jovem com Queiroga, também vendedor de ofício em Penafiel, mas que pouco depois diz ter descoberto que “roubava mais do que trabalhava”.

Com seis filhos, três já falecidos, pediu o divórcio, resistindo aos pedidos do padre Américo, o sacerdote de Penafiel fundador da Casa do Gaiato e que os casara, para fazer as pazes com o marido.

“Criei os meus filhos sozinha e nunca fiz mal a ninguém”, afiança, razão por que não teme o julgamento do próximo dia 18. “Não sou culpada de nada. Medo só tenho que com a aflição me pare a pilha que tenho no coração, pois ainda quero viver mais uns anos”, refere.

Com uma pensão de 300 euros por mês, Joaquina Gonçalves reside num apartamento próprio comprado, segundo conta, com o dinheiro que recebeu de uma indemnização após ter sido atropelada quando se encontrava junto a um semáforo, em Ermesinde.

“É pouco, mas o meu neto ajuda-me e quando preciso peço às vizinhas, que sabem que sou de boas contas.” Apressada, Joaquina olhou para o relógio, fechou a porta, afastando-se ligeira para ir apanhar o comboio, mas não sem antes espreitar se não andava pela rua alguém da televisão.