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Arles. A luz quente do sul de França

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A grande arena romana em dia de corrida

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Território outrora romano é até hoje um refúgio mágico onde calma e buliço andam a par

Van Gogh teve um sonho que nunca chegou a realizar. Quis criar um coletivo de artistas que viveria em comunidade no sul de França. Escolheu Arles como a cidade perfeita para materializar o desejo. Instalou-se na sua famosa “casa amarela” em fevereiro de 1888 e esperou pelos amigos. Vieram poucos e por pouco tempo. Gauguin foi o que permaneceu mais tempo naquele refúgio de luz bem no meio da Camarga provençal. Nos dois meses que por lá ficou presenciou como ninguém a evolução artística do amigo e até quis homenageá-lo pintando-o a pintar. O tributo, porém, dizem, não foi entendido por Vincent van Gogh e a briga entre os dois deixou mazelas. O pintor holandês cortou a orelha e Gauguin quebrou a amizade com ele acusando-o de loucura. As crises nervosas de Van Gogh vinham de trás mas intensificaram-se a partir dali. Internado num hospício morreu pouco depois, em 1890. Tinha 37 anos. Exatamente a mesma idade com que visitei Arles pela primeira vez e experimentei a mesma luz que saía dos quadros coloridos de Van Gogh.

A chegada quente àquela arena onde as arenas são romanas, lembra-me um dia mágico. O calor abafado não impede a energia de se fazer sentir. A cidade fervilha de turistas e visitantes. As velhas ruas, hoje Património Mundial da Humanidade, impávidas, desinteressadas de toda a movimentação, naquele seu tom neutro parecido com a areia, convidam a deambulações sem destino. Mas é tantas vezes que a chamada se faz a partir do Ródano, o rio que leva o ruído da cidade embora. Lá desaparece aquele cantar acutilante das cigarras, que de tempos a tempos me faz bem ouvir no meio daquele campo do sul. Lá desaparece o buliço da Place du Forum, uma regalia para o descanso no meio da agitação, onde vibra a tourada dos aficionados naquele cantinho que é o Tabourin, ou nas esplanadas no meio da praça aquecidas pelas paelhas monumentais que todos comem em qualquer dia. Lá desaparece o manto de relíquias chamadas igrejas mas ocupadas com exposições de fotografia — Arles é o centro mundial da fotografia durante o verão (ver abaixo).

À esquerda, uma das exposições dos Rencontres de la Photographie, ao lado, “Terrace”, de Van Gogh, a praça central de Arles

À esquerda, uma das exposições dos Rencontres de la Photographie, ao lado, “Terrace”, de Van Gogh, a praça central de Arles

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Mas não é lá que percorro o território da cidade agigantada pelas ruínas de outros tempos. Aquele anfiteatro aberto ao sol, às projeções, ao teatro, à dança, à literatura até, é um espaço de alegria e meditação, um cartão postal, uma peça rara, um monumento de convívio. Deixo-me ficar por lá até a noite cair. As noites claras de céu estrelado veem-se dali enquanto se espera pela música cigana que os irmãos Gipsy Kings fizeram questão de batizar lá, nas águas do tal Ródano, mas que habita a memória da velhinha Bodega nas ruas cruzadas deste território. O mesmo que Mistral, o poeta, calcorreou como eu e como o vento, o vento do sul que respira de porta em porta e que também se chama mistral.

Na velha vila há rastos de todos os passados, rastos de História e de histórias que as pedras contam quando passo e encontro quem fala e diz adeus. Não é difícil a conversa entre dois ou três copos de rosé plantados em todas as mesas onde as mulheres contrariam o pastis, qual aguardente açucarada e desesperadamente bebida pelos homens da terra. À mesa também se trocam ideias, dão-se dicas, discute-se arte, filosofia ou cinema. Não está longe a Actes Sud, a editora fundada por Hubert Nyssen, nos idos anos 70 do século XX. E lá, volta a desaparecer tudo, toda a cidade, Arles inteira. Lá onde os livros ganham vida, se abrem em páginas de diálogos infinitos com a arte do saber.

A cidade da fotografia

É sempre no verão que Arles vive um momento único chamado Les Rencontres (Os encontros). Acontece desde 1970 e junta na pequena cidade outrora uma das capitais do Império Romano cerca de 90 mil amantes da fotografia. Trata-se de um festival internacional criado pelo fotógrafo Lucien Clergue, o escritor Michel Tournier e o historiador Jean-Maurice Rouquette que desde a sua fundação leva para o sul de França o que de melhor se faz na fotografia em todo o mundo.

Exposições individuais e inéditas invadem igrejas do século XII e edifícios industriais do século XIX. Com elas chegam os artistas e a sua entourage e a festa começa. É de manhã à noite com mil e uma atividades numa programação que vibra sempre na semana inaugural, este ano de 4 a 10 de julho.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016