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A misteriosa oferta de €21 milhões

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Judiciária investiga vários negócios que envolvem o navio “Atlântida”

Jaime Figueiredo

Estaleiros de Viana investigados por ignorarem proposta superior à da Douro Azul para a compra do navio

O “Atlântida” foi construído para ser o ferry que ligaria várias ilhas dos Açores e, mais tarde, o navio-hotel que faria as viagens pela Amazónia. Acabou por não ser nada disso, por falta de requisitos técnicos. Vai começar a navegar no final do mês nas águas gélidas da Noruega, com o nome “MS Spitsbergen”, mas deixou um rasto de segredos por explicar a 5 mil quilómetros dos fiordes de Lofoten.

Foram esses segredos que estiveram na origem das buscas de há oito dias nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVN), em gabinetes do Ministério da Defesa, na sede da Mystic Cruises, empresa de Mário Ferreira, e em moradias do Porto, Aveiro, Torres Vedras e Cascais.

Os investigadores da PJ tinham instruções para procurar em cofres, computadores e arrecadações documentação relacionada com uma oferta misteriosa enviada ao ex-presidente dos ENVC, Jorge Camões — um dos alvos destas buscas — para a aquisição do navio a 11 de janeiro de 2013. O comprador, cuja identidade está a ser investigada e que o Expresso não conseguiu apurar, propôs 21,3 milhões de euros, quantia que acabou por ser ignorada pelos responsáveis dos estaleiros. Um ano e meio depois daquela oferta, o empresário Mário Ferreira adquiriu o navio através de um concurso internacional por 8,7 milhões de euros, menos 13 do que a proposta de 2013. Uma discrepância de valores que os investigadores querem ver esclarecida, por considerá-la demasiado grande. Até porque a embarcação estará avaliada em 40 milhões de euros. Além disso, suspeitam de manipulação no concurso.

Ao Expresso, o dono da Douro Azul garante estar de consciência tranquila em relação ao negócio e que colocou toda a sua documentação à disposição da Judiciária. Já sobre a oferta misteriosa de 2013, diz nada ter a ver com o assunto.

“Perguntem aos anteriores donos dos estaleiros. Eles é que saberão a resposta.”
Mário Ferreira diz ter “ouvido uns rumores” acerca da identidade das pessoas que avançaram com a “tal proposta” de 21,3 milhões de euros. “Seriam uns empresários russos que queriam pagar o ‘Atlântida’ em dez prestações. As condições não eram boas”, critica.

Na mira da investigação estará também o facto de o empresário nortenho ter vendido o navio apenas oito meses depois de o ter comprado aos estaleiros por 17 milhões de euros, mais do dobro do preço pelo qual o adquiriu aos estaleiros de Viana do Castelo. “Não confirmo o valor da venda nem o modelo como foi vendido”, defende-se Mário Ferreira. E conta que, dois meses depois de comprarem o “Atlântida”, os responsáveis da Mystic Cruises aperceberam-se de que o navio não tinha afinal os requisitos necessários para realizar cruzeiros na Amazónia, como estava inicialmente previsto.

A partir de então, houve “um trabalho de transformação do navio” para poder vir a ter um valor comercial de mercado, em que participaram vários técnicos estrangeiros. Depois de 24 certificados internacionais, o negócio com os noruegueses teve então luz verde.

Intérprete indignada

A PJ fez também buscas na casa de uma alegada representante portuguesa da empresa grega Thesarco Shipping que em 2014 ganhou o mesmo concurso internacional para aquisição do navio com uma proposta de 12,8 milhões de euros. A companhia acabaria por desistir do negócio, permitindo que a Mystic Cruises ficasse com o “Atlântida”.

Contactada pelo Expresso, M. Santos garante que as autoridades se equivocaram sobre a sua ligação à Thesarco Shipping. “Fui requisitada para fazer serviços de tradução. Não sou, nem alguma vez fui, representante dos gregos. Nem nunca assinei qualquer documento ligado à empresa”, diz, indignada. E acrescenta que também não conhece Mário Ferreira. “Fui usada como bode expiatório”, conclui.

Não foi possível obter declarações da comissão liquidatária dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Já uma fonte oficial do Ministério da Defesa, entidade que tutela os estaleiros, prefere não fazer mais comentários ao caso.