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Declaração de amor à Língua Portuguesa

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ilustração Tiago Pereira Santos

Celebrou-se esta semana o Dia da Língua Portuguesa. Fazemos-lhe uma declaração de amor nesta edição: proclamamos as virtudes e os defeitos dela, anunciamos os encantos e as complicações dela. Porque estamos apaixonados por ti, Língua Portuguesa. E não temos vergonha de escrever sobre isso

Esqueçamos desde já o zus, que o próprio dicionário parece desdenhar ao dizer que é de origem onomatopeica, e a última palavra da última página é zurzir: açoitar, vergastar, espancar, castigar, repreender com severidade, criticar asperamente. Tudo o que não dá jeito absolutamente nenhum para começar um texto que se quer de exaltação das virtudes da Língua Portuguesa. Uma declaração de amor, pedia-se.

Como se qualquer declaração, por mais apaixonada que fosse, pudesse conter em si tudo o que é amar. Se contivesse, provavelmente não precisaríamos da palavra amar – cujos vizinhos do lado são amarácino (o unguento de amáraco ou manjerona) e amaquiar-se (arranjar boa maquia, enriquecer). O amor, como o medo ou o simples ato de dormir não se ordena, não há maquia que o consiga. De nada vale mandar alguém amar algo ou alguém, como é inútil dizer que não vale a pena ter medo. São coisas que sentem, que nos mantêm acordados. E o sono, esse, chega quando chega, não quando queremos ou quando nos mandam dormir. “Dorme ou levas uma zurzidela.” Pois, está bem.

Saltemos agora as siglas, os artigos e os prefixos, ignoremos os aachenianos (todos os que nasceram ou vivem na cidade alemã de Aachen) e os aalenianos (também alemães, de Aalen, embora a palavra, em termos geológicos, possa também referir-se ao andar situado no fim do Jurássico interior, mas na base do Jurássico médio). Passemos mais uma dúzia de siglas espalhadas pela primeira página, e ainda os ababás (o povo aborígene que habitava as margens do Corumbiara, no Mato Grosso). Chegamos a meio da segunda coluna e lá está ababalhado, sujo de baba, babado - condição natural de quem está apaixonado, de quem ama. Pode, portanto, alguém ficar ababalhado de amor pela Língua Portuguesa logo no começo do dicionário. Uma espécie de amor à primeira página.

Vejamos o amor, essa coisa que apenas se sente e que não há declaração ou palavra que a explique sem a deixar incompleta. Diz aqui que é um sentimento que predispõe a desejar o bem de alguém, um sentimento de afeto ou extrema dedicação, apego. Um sentimento que nos impele para o objeto dos nossos desejos, atração, paixão, adoração, veneração, devoção... Cabem muitas palavras na palavra amor e ficam sempre tantas de fora. Quem chega ao amor, já passou por amoquecar, palavra de origem brasileira que significa assar na brasa. Quem passa por ele, consola-se com uma amora, fruto suculento e doce da amoreira e de algumas silvas, geralmente de cor vemelho-escura. Ou amorado, que é a cor da amora, que também serve para pintar corações. E o coração, como toda a gente sabe, é a forma do amor.

Arrisquemos um pouco, só o bastante para garantir a fluidez das ideias. Na palavra amar, quatro letras onde cabem um pequeno artigo definido e ainda todos os oceanos da Terra, cabem também as sete letras da palavra confiar. A matemática do português é estranha. Não é de fiar, é de desconfiar. Como se pode confiar numa língua cuja palavra três tem quatro letras? A palavra um tem duas. Quatro tem seis letras e seis tem quatro letras. Tudo ao contrário. Podemos ser honestos como um cinco – redondo e perfeito nas suas cinco letras – e dizer que confiamos porque amamos. Soa bem, tão bem como pensar que ver faz parte de viver. Vi e ver. O mesmo verbo, cinco letras.

Mergulhemos à volta daquilo que o dicionário define como quatro mais um. Depois do cinco, vem o cinco-em-ramo (planta da família das rosáceas que é espontânea em Portugal e também conhecida por potentilha), o cinco-réis (antiga moeda, coisa em importância) e, dentro desta, a expressão cinco-réis de gente. Antes do cinco está o cinclo, uma ave roliça, mergulhadora, de cauda curta e plumagem preta, mas branca no peito. Pode ter até 18 centímetros e é comum na Europa, vivendo quase sempre na margem dos rios. O bom da Língua Portuguesa é que está sempre a dar-nos bilhetes grátis para viagens improváveis. A propósito do cinclo, podemos imaginar a história de um homem apaixonado por palavras com três letras que um dia começou a escrever uma história que começava assim.

Era uma vez uma ave que viu rir um rio.

A história acabou na frase seguinte, porque, sem querer, ele escreveu a palavra há e olhou para ela e ficou para sempre a imaginar uma cadeira e, junto a ela, um soldado encolhido e a proteger-se com um escudo de uma flecha prestes a acertar-lhe. O cinclo voou para longe, assustado.

Imaginemos agora que chegou aqui, a este parágrafo, a esta linha, a esta palavra. Pois bem, é onde a magia acontece. Antes de ler a última frase, estava na palavra palavra, a unidade elementar da língua. E como é de Língua Portuguesa que se fala aqui, aposto que, pelo caminho, nem reparou no palavão, palavra de origem obscura, mesmo ali ao lado. É um eucalipto de Timor, que pode existir nas variedades palavão-branco e palavão-preto, e que não deve ser confundido com o vizinho palavrão, uma palavra obscena, grosseira ou ofensiva. Pode também ser uma palavra comprida e de pronúncia difícil, ou um termo pouco conhecido, considerado demasiado técnico ou rebuscado. Dizer palanfrório em vez de palavreado, esse conjunto de palavras sem importância - e haverá certamente quem, aqui chegado, esteja desesperado com tamanho palanfrório.

Apelemos à paciência de quem nos lê e recuemos ao início de tudo. No caso concreto, ao fim, onde está zurzir e o dilema de começar uma declaração de amor com esse verbo de dois zês. É um daqueles casos em que segurando uma espada somos capazes de ver uma cruz. Como se a linha vertical do T, de repente, desatasse a crescer e rompesse a linha horizontal. Mas ela nunca o faz e o tê é sempre um tê. Quando dizemos tenebrizador (aquele que é amigo das trevas, do obscurantismo) e quando dizemos tentação (esse desejo intenso de algo geralmente considerado censurável).

Reconheçamos que é tentador, e não torna ninguém num tenebrizador, brincar com as palavras. Pegar nelas e tirá-las do contexto, das palavras com que brinca todos os dias, e apresentar-lhes novos amigos, novas palavras. Insuflar alguma rebeldia na Língua Portuguesa – como é disciplinado este tê de portuguesa – e arrancar para uma frase disposto a não usar vírgulas e a repetir o e até à exaustão e não se preocupar com nada e esquecer todas as regras e sentir que a frase nunca mais acaba e que melhor do que um último e é mesmo um ponto final. E aí está a complexidade suprema: para descrever uma minúscula mancha de tinta, que pode facilmente ser confundida com um migalha, precisamos de duas palavras. Para descrever um sentimento tão complexo como é o de sentir algo inexplicável por algo ou alguém encontrámos uma palavra com quatro letras. Amar e ponto final.

Admitamos que é verdade. Que é possível escrever uma declaração de amor à Língua Portuguesa sem lhe enaltecer as virtudes, sem resgatar as gloriosas linhas que a fazem, sem recordar os poetas e os magos da prosa. Falar dela sem lembrar os heróis que a fizeram, que a fazem. O herói não é apenas aquele indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou qualquer outra qualidade considerada notável. Pode ser também a personagem nascida de um ser divino e outro mortal. E também aquele que é admirado por qualquer motivo, constituindo o centro das atenções. O ponto que fica no meio. Diferente do ponto final; diferente do ponto e vírgula. Diz aqui que reticências são um sinal gráfico que serve para exprimir suspensão do sentido ou omissão de palavras. Omitir é escrever três vezes o fim .(uma).(duas).(três)...

Aceleremos então para o fim, para o grandioso final, para a apoteose, a cena final de certos espetáculos, uma homenagem grandiosa ou a elevação de uma pessoa à categoria dos deuses. Um deus é o princípio ou a origem de todos os seres e origem e garantia de tudo o que de excelente existe no mundo. E de todas as coisas excelentes (muito bom, magnífico, perfeito) que existem no mundo, a língua é provavelmente a mais excelente das excelentes. Tudo começa e acaba nela. Entra pelos nossos dias todos os dias, todo o dia. Sem ela, não conseguimos pensar, não conseguimos dizer respirar. Escrever ou ler. Viver. As declarações de amor são inúteis. De nada vale declarar quando estamos condenados a amar.

(Fonte: Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)