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Túnel do Marão. Sócrates lançou, Passos resgatou, Costa inaugura

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O ministro Pedro Marques visitou as obras em dezembro e regressa amanhã ao Marão com António Costa para a inauguração

Rui Duarte Silva

Finalmente, há túnel. Sócrates lançou, Passos resgatou e Costa inaugura este sábado. O Marão destrona a Madeira. Sócrates estará presente. Com a abertura do lanço de 30 km fica concluída a ligação por autoestrada que faltava do litoral (Matosinhos) à fronteira com Espanha.

Recuemos no tempo. No fim de 2006, o governo de José Sócrates lançava o concurso para a construção do último e mais espinhoso lanço da A4, atravessando as graníticas entranhas do Marão em modo de dois túneis gémeos. Sete anos e vários contratempos depois, aí está o maior túnel rodoviário da Ibéria (5,665 km) em todo o seu esplendor e inaugurado o mais caro troço de uma autoestrada portuguesa (14 milhões/km).

Recuemos ainda mais no tempo. Em 1999, o governo de António Guterres replicava na revisão do Plano Rodoviário Nacional (PRN2000) a euforia exuberante em que o país mergulhara, após a adesão de Portugal à União Europeia. A rede de 3000 km de autoestradas consagrava a ligação por autoestrada do litoral aos principais saídas fronteiriças.

Este desígnio nacional incluía o IP 4(Matosinhos-Quintanilha) que contava já com troços em operação. Quase 20 anos depois, o porto de Leixões está finalmente ligado por uma autoestrada de 235 km até à fronteira mais importante no nordeste transmontano.

Para lá do Marão, mais fácil a exportação

Sócrates lançou, Passos Coelho resgatou após uma paragem de 42 meses e Costa inaugura. O governo convidou e Sócrates acetou estar presente. Passos recusou.

O investimento de 400 milhões de euros encurta em 25 minutos a viagem entre o Porto e Bragança, resolve os nevões. curvas e declives acentuados que potenciam a sinistralidade e infernizam a vida dos automobilistas e facilita a atração de investimento da região transmontana.

Para lá do Marão podem exportar mais facilmente as empresas que lá estão. E fica mais acesssível a Leixões e até Aveiro disputar a carga do lado espanhol, em Castela e Leão. As previsões da Infraestruturas de Portugal (IP) apontam para 13.000 veículos por dia (10% pesados).

Amanhã, a festa será rija e muitos os convidados, que a grandiosidade da obra justifica. António Costa estará acompanhado pelo ministro que tutela as infraestruturas, Pedro Marques. O governo tem de aproveitar a ocasião. Sem grandes obras públicas no terreno, não se perfilam muitas inaugurações destas no horizonte.

Custo: 22 milhões por quilómetro

Após um mês de testes aos níveis de segurança, ventilação e plano de evacuação, o túnel abre no domingo ao trânsito. A segurança no túnel mobilizou 17 milhões de euros, aplicados na rede de sensores de deteção de incêndos, sistema de ventilação, comunicação e escoamento de fumos. Cada um dos túneis, conta com 82 postos SOS, 110 câmaras de vigilância, 72 ventiladores, 13 passagens de emergência e 235 altifalantes, um a cada 25 metros.

Este último troço funciona como a porta de entrada do reino maravilhoso de que falava Miguel Torga e o túnel rompe, como refere o autarca de Vila Real, Rui Santos, “a barreira mítica do Marão”, abrindo “novas oportunidades de desenvolvimento à região transmontana”.

O caráter montanhoso encareceu a obra, ficando à razão de 14 milhões de euros por quilómetro. No caso dos túneis, cada quilómetro ficou a 22 milhões. Este lanço da A4 incluiu ainda dois viadutos admiráveis com perto de mil metros de extensão, entre 12 obras de arte. Com orografia e ocupação de solo favoráveis, o custo unitário de uma autoestrada ronda os 5 milhões.

O túnel ficou para a IP por 88 milhões, mas já havia obra feita quando foi adjudicado. Por partes: A 1ª fase (consórcio Somague/MSF) custou 250 milhões, na segunda a IP pagou 150 milhões pelas três empreitadas.

A4: 7,85 euros de portagem

Quem percorrer os 230 km da parte portuguesa da E82 terá de pagar 7,85 euros (ligeiros) até um máximo de 19,55 (pesados), lidando com portagens reais (Brisa), troços gratuitos e em modo de ex-Scut, com pagamento eletrónico.

Este troço entre Amarante e Vila Real varia entre os 1,95 e os 4,9 euros. Face a outras autoestradas e ao custo, são preços aceitáveis, mas a comissão de utentes e as forças vivas da região defendem, em nome da interioridade, que acima de zero é caro.

A empreitada fora lançada em 2008, em regime de Parceria Público-Privada (PPP), e esteve por três vezes parada, até ser abandonada pelo consórcio Somague/MSF, em 2011. Os explosivos e as escavadoras regressaram 42 meses e só o túnel permaneceu no modelo de conceção/construção.

Menos encargos

António Ramalho, presidente da IP, encontra neste caso uma lição em dois pontos. Ele prova “que todas as parcerias público-privadas podem ser resgatadas e a engenharia portuguesa encontra com rapidez soluções adequadas e com menos encargos para os contribuintes”.

A redução de custos de construção (70 milhões face aos preços-base) e o financimento comunitário (89 milhões de euros) permitem uma poupança de 800 milhões ao longo da vida do projeto, comparada com a anterior concessão. Tudo somado “cada português poupará 100 euros”, pelas contas de António Ramalho.

O financiamento comunitário, tal como sucedeu com a Autoestrada Transmonta (AET), decorre da integração da A4 na rede transeuropeia de autoestradas (E82). O processo da AET andou por Bruxelas mais de dois anos e tem a particularidade de ser a única PPP rodoviária a contar com dinheiro comunitário.

Quando foram as empeitadas foram lançados em modelo PPP, o túnel e as variantes de Bragança e Vila Real já constavam da lista dos troços portajados nos contratos com as concessionárias.

Marão destrona Madeira

Se este é o mais extenso túnel rodoviário português, onde estão os outros que impressionam? Na Madeira, pois claro. A ilha conta com oito túneis com mais de 2000 metros e nenhum é sob o mar.

A rede de 180 túneis (100 km) é um sexto da extensão da rede viária e dava para uma ligação dupla da Madeira a Porto Santo. Os mais extensos são os do Cortado (3160 m), Encumeada (3100 m) e Ponta do Sol (2700 m).

No continente, o primeiro desta tabela de túneis não urbanos é o que rasga a Gardunha, no Fundão (1580 metros). Mas, antes dele surgem 10 madeirenses.

No segmento urbano, a liderança cabe ao túnel do Marquês (1725 m), em Lisboa, seguido de representante bracarense, na Avenida da Liberdade (1040 m).

Com 24,51 km, o maior túnel rodoviário do mundo fica na Noruega, na ligação entre Oslo e Bergen, as duas principais cidades do país. Na Península Ibérica fica o túnel franco-espanhol de Somport (8,8 km) que atravessa os Pirinéus. Mas, na parte espanhola a extensão é 100 metros superior aos 5665 metros do túnel do Marão.