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“Somos bons cidadãos”, diz um fabricante de armas. “Não usamos offshores”

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As pistolas semiautomáticas (algumas com partes em rosa e púrpura, destinadas ao público feminino) tiveram muita saída no primeiro trimestre

Joe Raedle / Getty Images

No relatório trimestral dirigido aos acionistas, o CEO de uma empresa de venda de armamento elogia as virtudes da sua indústria

Luís M. Faria

Jornalista

A Sturm, Ruger & Co é uma empresa norte-americana que fabrica armas. Em particular, armas para uso pessoal. Num encontro com acionistas, o CEO Michael Fifer não se limitou a apresentar bons resultados. Exprimiu um orgulho que vai muito além dos números, evocando uma ansiedade atual à qual a sua empresa responde. “Compreendemos que a manufatura – a conversão de matérias-primas em algo útil – é uma fundação nuclear de qualquer economia de sucesso, incluindo a nossa”, disse. “Fazemos produtos em fábricas americanas. Vertemos metal. Cortamos madeiras. Montamos armas. (…) Somos basicamente um fabricante industrial de grandes produtos de consumo. Temos orgulho em ser um fabricante americano”.

Com fábricas no Arizona, em New Hampshire e na Carolina do Norte, a Sturm Ruger emprega duas mil pessoas. Após uma queda por volta de 2014, as vendas de armamento pessoal tornaram a subir, em parte por efeito de crimes como o ataque terrorista em São Bernardino (Califórnia), em parte por muitos cidadãos recearem que o controlo de armas seja apertado e fique mais difícil comprá-las. Entre 2010 e 2014, apenas havia armas em 31% dos lares dos Estados Unidos, mas os dados oficiais de vendas sugerem que elas dispararam de 5.5 milhões de unidades para mais do dobro. A conclusão inevitável é que os cidadãos estão a acumular armas.

“A nossa indústria parece de modo geral ter crescido ao longo dos últimos dez anos”, explicou Fifer, “à medida que o número de novos atiradores aumenta gradualmente, que a demografia dos novos atiradores se alarga, e que muitos estados adotam leis de direitos de armas mais favoráveis”. Ele destacou as leis que permitem transportar armas ocultas em locais públicos. Outro responsável da empresa explicou que hoje há muito mais mulheres atiradoras, e que mesmo em cenários urbanos e suburbanos – não apenas rurais, onde as armas são uma tradição, desde logo para caçar – o uso de armas está em crescimento.

A venda de armamento pessoal voltou a subir este ano nos EUA, pelo efeito de crimes como o ataque terrorista em São Bernardino e por muitos cidadãos recearem que o controlo de armas seja apertado e fique mais difícil comprá-las

A venda de armamento pessoal voltou a subir este ano nos EUA, pelo efeito de crimes como o ataque terrorista em São Bernardino e por muitos cidadãos recearem que o controlo de armas seja apertado e fique mais difícil comprá-las

Joe Raedle / Getty Images

Dezenas de milhares de empregos novos

Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, as vendas da Sturm Ruger subiram 26%, e os ganhos 50%, o que indica sucesso em extrair um lucro maior de cada dólar de receita obtida. Produtos novos como a espingarda semiautomática AR-556 tiveram sucesso, e as pistolas semiautomáticas (algumas com partes em rosa e púrpura, destinadas ao público feminino) também se saíram bem. Ao todo, a indústria das armas criou dezenas de milhares de empregos nos últimos anos, apesar – ou em consequência – de uma série de massacres em escolas e outros lugares que têm horrorizado o mundo.

No primeiro trimestre de 2016, segundo o FBI, os background checks (verificações de cadastro) subiram 36% no país, atingindo 7.682.141. O total do ano deverá ultrapassar largamente os 23 milhões do ano passado.

Como prova final da qualidade da sua indústria, Fifer deu um tiro moral a empresas de outras áreas. “Pagamos os nossos impostos e mantemos o nosso dinheiro nos Estados Unidos. Para nós, não há inversões fiscais ou offshores”, disse. “Somos bons cidadãos”.