Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Krugman: só há uma “pequena margem” para deslizes orçamentais

  • 333

Nobel da Economia veio a Portugal participar no Congresso da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED)

José Caria

Prémio Nobel da Economia diz não saber dizer se a passagem da troika por Portugal foi um sucesso ou insucesso. Para já concorda com as orientações de António Costa, mas avisa que este tem pouca margem de manobra

É um dos economistas mais respeitados do mundo e também um dos que mais vezes criticou as medidas de austeridade aplicadas por vários países da Europa nos últimos anos. Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, em entrevista ao "Jornal de Negócios" e à Renascença esta quinta-feira, diz concordar com a "orientação geral" do Governo de António Costa, mas avisa que existe uma "pequena margem" para deslizes orçamentais. "Portugal não pode ter um programa de estímulo orçamental", sublinha.

Para o economista, o primeiro-ministro não tem planos radicais. "Não vão sair do euro, não vão repudiar a vossa dívida, o mais que podem fazer é suavizar a austeridade um pouco, reduzir um pouco o custo humano. Acho que é isso que este Governo está a tentar fazer. Portanto, a orientação geral é correta. Há alguma margem de manobra. O Governo está a tentar aproveitar essa pequena margem."

Tal como já tinha escrito num artigo de opinião pessoal esta semana no “The New York Times”, Krugman volta a descrever a situação da economia portuguesa não como um desastre, mas "só muito” má. "Se dissesse a alguém em 2007 que era assim que Portugal estaria em 2016, achariam que era um enorme pessimista."

Por outro lado, o economista norte-americano alerta para as ideias erradas, as "baratas", que continuam a ressurgir na Europa. Por exemplo, o orçamento como pecado original da crise. "Na Europa, há o medo da inflação, o medo orçamental de tudo, como se todos os problemas fossem o resultado de pecados orçamentais. Isso continua a surgir quando há cada vez mais provas de que não é verdade", explica.

Krugman diz ainda ao “Jornal de Negócios” e à Renascença que "Portugal não tinha escolha a não ser fazer alguma austeridade". Mas isso não quer dizer que a passagem da troika por Portugal tenha sido um sucesso. "Houve grande sofrimento. Os tempos difíceis ainda não terminaram e ainda existem muitos riscos, mas o pior não aconteceu. Não sei se quer chamar a isso um sucesso ou um falhanço. Se pensou que aconteceria um completo desastre, isso não aconteceu. Se pensou que a Europa teria uma boa recuperação da crise, isso também não aconteceu. Nas últimas eleições nos EUA, brinquei que o slogan de Obama devia ser: "Não tão mau como a Grande Depressão". Felizmente, ele não seguiu o meu conselho. Se quiserem dizer que não estão tão mal como a Grande Depressão ou não estão tão mal como nos anos 30, isso é mais ou menos verdade. Mas é isso um sucesso ou um falhanço? Não tenho a certeza."