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Rui D`Espiney, a despedida do último guerrilheiro maoísta da Europa

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O preso político Rui D`Espiney na sua casa, em Setúbal

Zeynep Tinaz

Um repórter da agência norte-americana Associated Press esperou 50 anos para conhecer o preso político cuja tortura havia revelado na grande imprensa internacional. O detido chamava-se Rui d’Espiney e morreu aos 74 anos em Setúbal, no passado dia 28 de abril. O jornalista recorda uma frase da conversa que mantiveram há meses: “Disse-me algo que recordarei para sempre: ‘Há sempre corredores de liberdade, até nas prisões de alta segurança’”

Dennis Redmont

Ao entrar no apartamento parcamente mobilado em Setúbal, numa zona operária de classe média-baixa, deparei com um homem esquelético e esganiçado encaracolado na cama, com uma máscara de oxigénio de um lado e um maço de cigarros do outro. Inalava oxigénio daquela, para depois inalar nicotina destes. Desligava o oxigénio para fumar e vice-versa, alternadamente.

Eu esperara 50 anos para o conhecer. Por detrás dos óculos, ainda tinha um olhar vivo. Só o vira no Tribunal Plenário, meio século atrás, mas nunca fôramos apresentados. Sorriu, humildemente, mas o gelo só se quebrou após umas horas de conversa. Acabara de conhecer um jornalista dos Estados Unidos, o país capitalista que era inimigo da China maoísta naqueles tempos.

Era um quarto árido. Chamava a atenção uma enorme taça cheia de sabonetes e champôs colecionados em viagens do próprio e de outros amigos. Ao seu lado tinha blocos de notas e uns quantos cinzeiros, além da habitual parafernália médica. Este ser humano, cujo peso mal chegava aos 50 quilos, tinha deixado uma marca importante na minha carreira.

Prisão noticiada pela Associated Press

Mas a sua odisseia também deixara a sua marca em Portugal. E talvez tenha pressagiado o enfraquecimento de uma ditadura que reprimia, com dificuldade, a contestação estudantil e as pressões sociais. Seria ele um assassino? Talvez. Quando lhe perguntei, respondeu apenas: “Fui guerrilheiro na clandestinidade”.

Quando Rui D’Espiney foi detido, em 1965, a PIDE reservou-lhe um tratamento brutal. Fonte médica deu-me, então, pormenores sobre o seu estado, bem como o de outro estudante. O artigo que publiquei nos jornais “International Herald Tribune” e “Le Monde”, enquanto correspondente da agência Associated Press em Lisboa, teve bastante destaque. Embora a maioria dos portugueses nunca se tivesse apercebido do caso, houve quem ficasse a saber através da imprensa estrangeira, que era distribuída em inglês, francês e outras línguas, e não era sujeita à censura, como a imprensa portuguesa.

A notícia da tortura desencadeou manifestações estudantis na Universidade, contra a brutalidade da polícia e a favor de maiores liberdades. Era um tempo de guerra cada vez mais intensa nos territórios portugueses em África, que eu também cobria. Nesse mesmo ano fora assassinado o general Humberto Delgado, na fronteira entre Portugal e Espanha. Visitei o local com Mário Soares, então advogado e oposicionista.

Condenado por assassínio a 19 anos de cadeia

As manifestações foram demais para a paciência da PIDE, que mandou uma carrinha com oito jagunços ao meu escritório. Informado por colegas, contudo, encontrei refúgio na embaixada dos Estados Unidos. Só no dia seguinte fui escoltado à sede da polícia política por um funcionário consular.

O embaixador americano, o antigo almirante George W. Anderson, telefonara ao ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira. Essa comunicação deverá ter-me livrado de qualquer acusação, provavelmente porque Portugal terá pensado que expulsar um jornalista americano cairia mal junto da opinião pública.

D’Espiney foi processado e encarcerado por ter participado no assassínio de um alegado informador da PIDE infiltrado na oposição. Também era suspeito de ter colocado bombas dirigidas a governantes do Estado Novo. Veio a ser condenado, por assassínio, a 19 anos de cadeia. Mas não “desapareceu”.

Tudo isto está documentado no meu ficheiro secreto da PIDE – n.º 4287 CI (2) NT 7338 –, que consultei, já desclassificado, na Torre do Tombo, uns meses antes do meu encontro com D’Espiney, depois de o ter localizado. Durante essa reunião, D’Espiney disse-me que tinha fé no Governo de esquerda que subiu ao poder em novembro de 2015, e que apoiava Antonio Sampaio da Nóvoa nas eleições presidenciais.

Rui D`Espiney com o jornalista Dennis Redmont

Rui D`Espiney com o jornalista Dennis Redmont

Zeynep Tinaz

‘Enganaram-se na pessoa, este não é o meu marido’

Também falou longamente sobre a tortura de que foi vítima durante os seus nove anos de prisão. Foi atirado contra a parede repetidas vezes e, não raro, obrigado a ficar imóvel numa “posição de estátua”, como viria a suceder, passadas quatro décadas, aos prisioneiros de Abu Ghraib.

Uma estudante detida com ele terá, alegadamente, quebrado e engolido os seus óculos, numa aparente tentativa de suicídio. A dada altura, contou D’Espiney, fizeram entrar a sua mulher e companheira de luta, que fora igualmente detida. “A minha mulher não foi capaz de me reconhecer, tais eram as nódoas negras e o sangue na minha cara. Disse: ‘Enganaram-se na pessoa, este não é o meu marido’”, recordou. “A polícia julgou tratar-se de um truque, mas ela não me reconheceu mesmo.”

“De repente, o método de tortura mudou. Não tinham a intenção de matar. É provável que soubessem, depois de o seu artigo ter sido publicado, que não podiam fazer-me desaparecer”, disse-me D’Espiney durante o nosso encontro. Também me revelou que, tendo o meu artigo atraído atenções internacionais para o seu caso, a PIDE começou a preocupar-se com o seu aspecto físico. Inacreditavelmente, começaram a espalhar-lhe unguento nas feridas e cicatrizes.

A filha morreu de cancro na véspera de ser libertado

Um dia antes de Rui D’Espiney ser libertado, passados muitos anos — quando a Revolução dos Cravos derrubou o regime salazarista em abril de 1974 —, a sua filha morreu de cancro, exilada em Londres. Não a via desde que fora preso.

A sua libertação abriu os noticiários há 42 anos, quando saiu, de olhos encandeados pelo sol, da prisão política de Peniche. D’Espiney reconheceu a sua militância política, embora me tenha afirmado: “O mais que disse à PIDE foi que era guerrilheiro”. Jamais diria quem puxara o gatilho.

Depois de ser libertado, D’Espiney veio a trabalhar com cooperativas agrícolas, grupos de ativismo social e ligados ao ensino. Muitos dos seus colegas de trabalho não conheciam o seu passado. E muitos portugueses ainda hoje pensarão nele como uma nota de rodapé na História.

Perguntei-lhe como lidara com o encarceramento em Caxias e, mais tarde, em Peniche. Respondeu-me com uma frase que recordarei para sempre, lembrando que apreciara pequenos episódios como cruzar-se com Soares num corredor ou conhecer outros presos. “Há sempre corredores de liberdade, até nas prisões de alta segurança”.