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“O meu amigo foi vítima de bullying”

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“Parto-te a boca toda”. “Queres levar mais na tromba, ó nojentinho?” No palco, a tensão é grande. Pedro é a personagem em quem os outros atores descarregam a violência. Verbal e física. A peça de teatro “Bullying – uma história de hoje” decorre perante uma plateia de alunos do secundário

Francisco e Diogo não tiram os olhos da ação e sentem cada palavra do texto escrito por David Carronha. Quando chega ao fim, nenhum deles consegue conter-se. As lágrimas carregam os momentos que viveram na escola. “Sinto-me mal por voltar às vezes a relembrar certas coisas que aconteceram, às vezes emociono-me muito e começo a chorar”, explica Diogo, que via o amigo ser alvo dos colegas.

Só coincidiram na mesma turma no primeiro ano do primeiro ciclo, mas continuaram a ser bons amigos. Francisco começou a ser gozado, conta Diogo, porque passava muito tempo “a brincar com carros e a fazer pistas”. Podia ser outro motivo qualquer. O “bullying” começa sempre com um episódio que até pode parecer insignificante. Se não é logo travado, é provável que continue. No caso de Francisco, os insultos passaram para as agressões físicas. “Eram para aí uns 3 ou 4 contra ele”, conta Diogo.

Também na situação encenada no programa “E Se Fosse Consigo?”, três jovens cercam, insultam e agridem um outro, sozinho, isolado. Quem está disposto a intervir? A partir da cena ficcionada no meio da realidade, o programa da SIC conta com testemunhos de quem conhece o significado da palavra “bullying”.


Depois de deixarem de ser da mesma turma, Diogo passou a saber o que se passava com o amigo nos intervalos ou no final das aulas. “Contava-me que lhe tinham batido, as pernas estavam quase todas cheias de nódoas negras e feridas. Algumas até tinham um bocado de sangue por causa dos pontapés que lhe davam nas pernas.” Diogo insistia, “conta isso a alguém”, mas Francisco não queria. Tinha medo da reação. Que ainda lhe fizessem pior. Que o irmão cinco anos mais velho achasse que aquilo não era “bullying” mas “porrada”. Que o pai achasse que ele era fraco. Que a mãe não acreditasse. Calar obriga à coragem de guardar o sofrimento. Carga demasiado pesada para qualquer adulto, quanto mais para uma criança ou um jovem.

Diogo foi o único em quem Francisco confiou para desabafar. Olhando para trás, sabe que podia ter feito mais do que fez mas, apesar disso, sente que nunca abandonou Francisco. “Não se deve deixar um amigo só porque ele sofre de ‘bullying’ ou lhe batem ou gozam com ele. Nunca se deve abandonar uma pessoa no estado em que ele estava, porque nunca se sabe se ele tem mais amigos na escola ou não e se aquilo podia piorar. Acho que foi por isso que eu não deixei de ser amigo dele.”

Uma vez, Francisco conseguiu contar à mãe e a mãe foi falar com a diretora de turma. Nessa altura, um dos colegas também tinha relatado à professora as agressões e humilhações que tinha visto no balneário. Os alunos agressores ficaram de castigo, a fazer serviço comunitário na escola. Mas um deles ainda ameaçou Francisco: “Agora... se eu te apanho lá fora.”

Desta vez, a escola interveio mas não é certo que seja sempre assim. Para combater todas as formas de violência associadas ao “bullying” e impedir as marcas que deixam na formação de crianças e jovens, nos últimos anos têm sido discutidas várias hipóteses.

Há quem defenda que seja considerado um crime público que qualquer um pode denunciar, há quem queira responsabilizar os pais dos agressores, há quem reclame que o combate à violência seja disciplina obrigatória nas escolas e há quem acredite que é entre os alunos que esse combate faz mais sentido. Qualquer destas hipóteses nasce de uma mesma vontade. Quebrar o silêncio. O maior aliado do “bullying”. Ninguém é mais forte porque bate ou humilha, ninguém é mais fraco porque é vítima. E se fosse consigo? Tem a certeza de que não é?


“E SE FOSSE CONSIGO?”, esta noite, a seguir ao “Jornal da Noite”, em simultâneo na SIC e na SIC-Notícias

  • Não sou racista, até tenho um amigo...

    “E se fosse contigo, e se fosse consigo?, sempre tão polido, ‘até tenho um amigo’”. São as primeiras palavras do rap de Carlão feito a propósito do programa da SIC “E se Fosse Consigo?”. O episódio de estreia, esta noite, aborda o racismo e questiona os comportamentos e as atitudes dos portugueses perante uma cena ficcionada em que um pai racista humilha o namorado da filha e a filha numa esplanada, à frente dos clientes. “O teu namorado? Preto? Estas pessoas não são como nós.” À volta há pessoas a ouvir a conversa que passa dos limites. Até que ponto alguém se levanta ou diz basta?