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Morreu Querubim Lapa, um dos mais importantes ceramistas portugueses

Reconhecido sobretudo pelo seu trabalho em cerâmica, de que se destacam os painéis “A Cultura”, instalado na Reitoria da Universidade de Lisboa, e “Sol Ardente da Mexicana”, instalado na pastelaria Mexicana, em Lisboa, Querubim Lapa fez também tapeçaria, gravura, escultura e desenho

Helena Bento

Jornalista

Figura-chave da azulejaria e da cerâmica nacionais do último meio século, Querubim Lapa fez também tapeçaria, gravura, escultura e desenho. Morreu esta segunda-feira, aos 90 anos. Estava internado há cerca de uma semana, devido a complicações respiratórias causadas por um acidente vascular cerebral.

Querubim surge inicialmente associado ao neorrealismo português, fazendo parte de uma geração que lutava contra o Estado Novo. Ao longo dos anos, foi-se afastando gradualmente do movimento. Em meados dos anos 50, a sua primeira obra maior - “As Meninas e Os Meninos”, dois longos painéis retangulares instalados num muro da Escola Primária de Campolide - chamou a atenção da PIDE, que apareceu a fazer perguntas sobre o seu trabalho.

Das suas obras em cerâmica destacam-se os painés que criou para espaços públicos, avenidas, escolas e edifícios privados. É da autoria dele o revestimento de uma coluna do hotel Ritz (1959), o painel “A Cultura” (1961), instalado na Reitoria da Universidade de Lisboa, o baixo-relevo no café Mexicana, em Lisboa ("Sol Ardente da Mexicana", de 1962), e o grande relevo cerâmico no Casino do Estoril, de 1967. Em 1994, assinou o painel "Terraço" para um muro na Avenida da Índia, frente à estação de comboios de Alcântara-Mar.

Querubim Lapa sempre quis ser pintor. “Comecei a modelar, porque o primeiro curso que tirei foi de escultura, mas a minha paixão era a pintura”, disse numa entrevista ao Fugas, do jornal Público, em 2010. “Até costumo dizer que sou um pintor escondido atrás da cerâmica. A paixão pela pintura levou-me desde muito cedo a conjugá-la com a modelagem e foi isso que deu a cerâmica modelada. ”

Nascido em Portimão em 1925, Querubim começou a desenhar em miúdo – “sozinho, deitado no chão do quarto” – um bocado para fugir às suas quatro irmãs, como contava à revista "Up", da TAP, em outubro de 2014.

Em 1941, deu início ao estudo de pintura com Trindade Chagas, para rumar a Lisboa um ano depois e matricular-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde viria a dar aulas a partir de 1955. Da António Arroio seguiu para a ESBAL para estudar escultura - também ali concluiria o curso de Pintura, mas só muito mais tarde (em 1978).

Durante a década de 1960, Querubim Lapa dedicou-se quase em exclusividade à cerâmica. Em 1986, venceu o Prémio de Azulejaria da Câmara Municipal de Lisboa pelo painel Banco de Portugal. Desses anos - e de anos posteriores - datam também o painel para o Banco de Portugal (1986), o revestimento da estação da Bela Vista (1998), e os azulejos da Biblioteca Municipal José Saramago, em Almada (2009). Pelo meio expôs no Museu Nacional do Azulejo, em 1994, ano em que Lisboa foi Capital Europeia da Cultura.