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Herbicida perigoso detetado em portugueses

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António Pedro Ferreira

Análises a grupo de voluntários revelam presença de elevados valores de glifosato

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Níveis elevados de glifosato — o herbicida mais usado em Portugal e no mundo para matar ervas daninhas em terrenos agrícolas e em passeios e jardins públicos — foram encontrados no organismo de 26 pessoas de diferentes idades e profissões do Grande Porto, alerta a Plataforma Transgénicos Fora.

O movimento que reúne várias associações ambientalistas lançou a petição pela “Proibição do glifosato em Portugal”, substância classificada como “carcinogéneo provável para o ser humano” pela Organização Mundial de Saúde.

A amostra de urina do grupo de portugueses foi analisada por um laboratório universitário norte-americano no âmbito de um estudo científico mais vasto (Projeto Detox) e confirma a presença da substância em todos os elementos do grupo com valores médios de 26,2 nanogramas por mililitro (ng/ml).

“Este valor é seis vezes maior do que o mais alto detetado num estudo realizado a duas mil pessoas na Alemanha e está 260 vezes acima do valor máximo permitido por pesticida na água para consumo humano (0,1 ng/ml)”, alerta Margarida Silva, uma das coordenadoras da Plataforma.

A bióloga admite que não se pode considerar este estudo verdadeiramente científico, tendo em conta a amostra diminuta, mas sublinha que “serve para demonstrar que há glifosato por todo o lado e que é necessário que em Portugal se façam análises à água e aos alimentos que consumimos”.

Esta substância está presente em mais de 700 formulações à venda no mercado e a sua venda aumentou 20% entre 2012 e 2014. Mas, até agora, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária não a incluiu na lista de produtos fitofarmacêuticos a analisar na água para consumo humano ou nos alimentos.

Isso deverá mudar, já que o Parlamento aprovou por unanimidade a proposta do PAN para se realizarem pelo menos análises a águas superficiais para verificação da presença de resíduos de glifosato. E o PAN quer incluir também análises a alimentos.

“São necessários mais estudos sobre a exposição a esta substância”, reforça Félix Carvalho, investigador no Laboratório de Toxicologia. O professor da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto diz não conhecer o estudo agora divulgado, mas admite que “os níveis detetados são preocupantes e é necessário perceber o que os justifica”.

O glifosato pode ser absorvido por via dérmica, respiratória ou digestiva e não se sabe como é que as pessoas do grupo da amostra o incorporaram. Só se conhecem os valores detetados na urina e estes representam um terço do total ingerido. Se bem que estejam abaixo dos níveis de ingestão diária aceitável por peso de massa corporal (0,5 miligramas por quilo de peso corporal por dia), é preciso ver o que se passa.

Num artigo publicado na revista da Ordem dos Médicos, há uns meses, o próprio bastonário, José Manuel Silva, chamou a atenção para a “toxicidade” e “as evidências dos riscos” do glifosato, referindo-se a estudos que “demonstram a associação epidemiológica do glifosato e o aumento de patologias como a doença celíaca, infertilidade, malformações congénitas ou doença renal” e lembrando que “há uma relação entre a exposição a esta substância e o linfoma não Hodgkin detetado em agricultores”.

A tentativa de proibir a venda e o uso de glifosato em Portugal e de levar o Governo português a votar contra a renovação da licença deste fitofármaco na União Europeia — proposta por três grupos parlamentares (BE, PEV e PAN) — foi chumbada na Assembleia da República, há duas semanas.

A Comissão Europeia tem uma proposta para prolongar por 15 anos a licença de glifosato (que expira a 30 de junho), mas o Parlamento Europeu aconselha a que não se prolongue por mais de sete anos e só para uso profissional.