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Sociedade

Rio: com açúcar e muito afeto

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reuters

É preciso acreditar que há horizonte para lá do Cristo Redentor e aventurar-se para oeste, descobrindo o mais novo bairro de uma cidade mágica, muito mais que dura

Uma música sobre as mulheres que sofrem, sempre à espera dos maridos. Foi assim, com olhos meigos, que Nara Leão pediu a Chico Buarque que lhe escrevesse uma canção. Ele atendeu e criou “Com Açúcar Com Afeto”, pequena pérola que fala de quem tenta agarrar o amor com laços doces, mas acaba presa na amargura da espera. Passou-se meio século, Nara já partiu, os cariocas estão mais preocupados com a política do que com o amor, Chico voltou aos palanques das manifestações, o trânsito é um inferno, ninguém se entende e há um bafo quente de medo no ar. Pois é, mas o Rio continua lindo.

E do lado de lá dos túneis — o “Tatuzão”, como eles chamam a enorme escavadora que já furou o morro permitindo que o metro ligue Ipanema à Barra — e dos carros que entopem a Zona Sul, há um novo Rio de Janeiro que se constrói a toda a velocidade. Um Rio Olímpico, virado para praias mais vazias, reservas ambientais e a longura do Centro da cidade. As capivaras andam soltas nas franjas do Parque Chico Mendes, onde também é possível ver corujas, jacarés e urubus em estreita convivência, como se da múltipla sociedade brasileira se tratasse. É a área de influência do Recreio dos Bandeirantes, o último bairro da orla carioca. E, depois de mais de uma hora do aeroporto internacional, finalmente chegamos ao Pontal. “Não há nada igual”, já cantava o gordo e negro Tim Maia, em “Do Leme ao Pontal”.

Prainha de Grumari

Prainha de Grumari

wikimedia commons

Prainha, Grumari, os nudistas do Abricó. Praias de ondas fortes, vento farto e areias despidas de multidões. É toda uma outra forma de viver o sol do Rio. E, quando se consegue tirar os pés da água, há destinos certos. Como o Sítio Roberto Burle Marx (3), em Barra de Guaratiba, que continua a ser um segredo mesmo para muitos cariocas. Refúgio do paisagista e artista plástico que lhe dá nome, os 80 hectares de mata atlântica guardam surpresas de tirar o fôlego, tendo por isso merecido o estatuto de unidade especial do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional brasileiro.

As visitas de hora e meia custam dez reais (2,5 euros) e têm de ser marcadas com antecedência. Aconselha-se que quem vá, leve consigo um bom repelente, mas vale à pena. A começar pelo deslumbramento que os guias guardam para o fim do percurso: o eucalipto arco-íris. Pelo caminho ficam bromélias, fetos gigantes e árvores de açaí, entre as cerca de 3500 espécies cultivadas.

A grande descoberta, contudo, não é verde, mas desenhada, construída e decorada pelo próprio Burle Marx, que trabalhou com Oscar Niemeyer e a quem a pintora Tarsila do Amaral chamava de “o poeta dos jardins”. Mas que é muito mais do que isso, como se percebe pelos dois ateliês, a casa onde viveu, o quarto onde esteve até morrer em 1994 ou o salão de festas, de cujo teto sai uma queda de água, como se de uma cortina diáfana se tratasse. Só vendo.

Sitio Roberto Burle Marx

Sitio Roberto Burle Marx

wikimedia commons

Como se também veem, só que à distância, rasgando a via que atravessa o Recreio, os enormes 21 edifícios construídos para abrigar os milhares de atletas que em agosto chegam para os Jogos Olímpicos.

As compras fazem-se no Terreirão, misto de favela e centro comercial ao ar livre. Frutas, biquinis, sandálias, doces típicos, há de tudo. E assim, de caldo de cana na mão, língua adoçada pelas cocadas, pele tisnada pelo sol, é possível descobrir um Rio de Janeiro mais largo, menos assustado e igualmente doce. Um Rio em tempo de Recreio.

Postal

Casa do povo
Um museu com nome de lar é sinal de que chegamos a um local para guardar do lado esquerdo do peito. O Museu Casa do Pontal tem o maior acervo de arte popular brasileira e é resultado da paixão de um francês (Jacques Van de Beuque), dos seus mais de 40 anos de pesquisas e viagens por todo o país. Localizado no Recreio dos Bandeirantes, a casa é cercada por jardins e permite ao visitante um percurso antropológico através das 8500 peças de 300 artistas brasileiros. São esculturas, instrumentos musicais, bonecos articulados, modelagens em barro, madeira ou tecido, miolo de pão ou arame. Há tipos humanos como o cangaceiro, o sambista e figuras míticas como o diabo ou iemanjá. Há o Brasil real, sofrido, ou o imaginário, colorido e sem problemas.