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J. Rentes de Carvalho: “Nasci rebelde e nunca deixei de o ser”

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Aos 85 anos, continua a dividir o tempo entre Amesterdão e Trás-os-Montes. Esquecido durante décadas pelos seus compatriotas, é hoje um dos mais admirados escritores portugueses. A sua vida dava vários filmes

O automóvel com matrícula holandesa atravessa a paisagem transmontana: serranias, pedregulhos, vegetação rasteira. Uma natureza quase intocada pela mão humana. Para trás ficou Torre de Moncorvo, engalanada para a Feira Medieval, ponto de encontro com os jornalistas vindos de Lisboa. No restaurante do costume, onde almoça às terças e quintas-feiras, sempre na mesma mesa, José Rentes de Carvalho já explicara, diante uma travessa farta de “feijoada à D. Dinis”, o modus operandi de uma vida que há muitas décadas se divide entre a Holanda, para onde foi viver em 1956, e Portugal. Desde que recuperou a casa do avô materno, em Estevais (a pequena aldeia perdida nos montes, para os lados de Mogadouro), passa alternadamente três meses ali, perto do solo que diz seu, e três meses no conforto de Amesterdão. As viagens, quer num sentido quer no outro, são sempre feitas no Opel de matrícula amarela referido no início deste parágrafo. Do alto dos seus 85 anos (quase 86), Rentes de Carvalho explica: “São 2200 quilómetros, percorridos em dois dias e meio. Sempre o mesmo caminho, as mesmas estradas, os mesmos hotéis.” E sublinha logo a seguir que o único acidente rodoviário em que se viu envolvido não foi culpa dele, mas de alguém que ignorou o sinal de STOP. Depois, sentamo-nos finalmente à conversa, quase uma hora e meia de diálogo, enquanto declina a luz da tarde que entra pela janela.

Com uma vida tão cheia, nunca pensou em escrever as suas memórias?
Não. Escrever memórias significa uma coisa: alindar. Ou desculpar. Acho que não faz muito sentido. E também não guardo nada daquilo que escrevo. Deito tudo fora. No outro dia, um amigo viu-me deitar fora a versão inicial de um romance. Disse-me logo: “Mas isso guarda-se!” E eu respondi: “Para quê?”.

Nem sequer guarda os diários?
Não. O que foi sendo publicado, fica. Mas o resto, os rascunhos, as ideias soltas, as notas, não guardo nada. Isso só seria interessante para os bisbilhoteiros da literatura. Para as pessoas com alguma cabeça, não tem sentido nenhum. Seria preciso terem vivido a minha experiência para lhe darem o seu valor exato. E também temos de ter a noção das coisas. Que importância é a minha, afinal? O que vivi, vivi.

Vamos imaginar que escrevia essas tais memórias. Por onde é que começava?
[Ri-se.] Eu acho que começaria pelo fim, quando a vida já faz algum sentido. Quando já temos uma certa perspetiva. A meio do caminho não se pode olhar para trás, ainda é muito cedo. Mas no fim da vida, como eu estou, é possível ver quais foram os tropeços, as asneiras, o que foi bom, o que foi mau, o que podia ter sido diferente. Antes disso, não.

E como é que vê, agora, a paisagem da sua vida?
Cheia de acidentes, mas o curioso é que começo a ter a ideia de que todos os acidentes tiveram a sua razão. Há uma espécie de linha que une tudo o que me aconteceu. Eu acho que a vida não é gratuita, pelo menos no meu caso. Fiz muitas asneiras. Andei mesmo no fio da navalha. Voluntariamente, ou por acaso. E dou-me conta de que isso teve um sentido. Havia, naquilo que me foi proposto pela vida, uma finalidade. Hoje olho para trás e divirto-me, porque já não tenho os medos da meia-idade, que era uma coisa terrível.

Raízes. O escritor Rentes de Carvalho numa rua de Estevais, a poucos metros da casa do avô materno, onde vive quando vem a Portugal

Raízes. O escritor Rentes de Carvalho numa rua de Estevais, a poucos metros da casa do avô materno, onde vive quando vem a Portugal

rui duarte silva

O medo, por exemplo, de não chegar aos 85 anos...
Pois. Esse já não preciso de ter. Na meia-idade, a pessoa tem uma perspetiva da vida em que só vê perigos à frente. Eu descartei-me disso talvez por experiência, por ter visto que não vale a pena o sujeito estar a sofrer à conta de algo que ainda não sabe se vem.

Uma parte dessas memórias que diz não querer escrever ficou nos seus livros. Em “Ernestina”, por exemplo, encontramos um relato bastante completo da sua infância e princípio da adolescência, até aos 15 anos.
Sim. E aquilo é mesmo biográfico. É tudo verdade. Apresentaram o livro como um romance, mas foi porque o editor holandês achava que a autobiografia não vende. “Vamos chamar-lhe romance”, disse ele. E assim ficou.

Acha que nessa obra fixou um tempo e modos de vida que entretanto desapareceram?
Acho que sim. Eu sou extremamente curioso. Gosto de observar. A minha vida é mais feita de observação do que de pensamento. Então sempre fui muito sensível e atento a tudo o que mexe à minha volta. Pessoas. Acontecimentos. Palavras. Sou uma espécie de esponja.

Como foi a sua infância?
A minha infância foi estranha por muitos motivos. Primeiro, embora a nossa família fosse humilde, havia, da parte do meu avô paterno e do meu pai, uma fome de aprender, uma fome de ler, que era excecional. Havia bastantes livros em casa. E o jornal “Primeiro de Janeiro” era obrigatório. Não faltavam incentivos para que eu lesse. Depois, a paisagem que se via da colina onde nasci e onde vivíamos, Monte dos Judeus, em Vila Nova de Gaia, oferecia-nos um panorama completo do Porto, na outra margem, desde o Palácio de Cristal até Campanhã. O nosso largo era um sítio muito pequenino, muito modesto, encravado no meio dos armazéns do vinho do Porto. Era como se estivesse numa daquelas cascatas de São João, em que os bonecos mexem todos. Via a cidade em movimento. O rio. Era melhor do que o cinema.

Era um filme em Cinemascope.
Exatamente. Era mesmo. Tenho isso tudo muito vivo. E havia o barulho, não só das igrejas, com os sinos, mas das cornetas nos quartéis, das sirenes dos navios.

Dava-se bem com os seus pais?
Era uma relação de muito amor, mas também de grande disciplina. Na verdade, os meus pais eram duas crianças. Quando eu nasci, a minha mãe tinha 17 anos, o meu pai, 19. E eu dei-me conta, aí por volta dos oito ou nove anos, de que eu era mais velho do que os meus pais. Eu tinha uma consciência das relações sociais, e do sentido de justiça, e do sentido de solidariedade, que era de adulto, não era de criança. Isso levava-me a um certo isolamento. Sou filho único. Sempre fui muito solitário.

Para compensar esse isolamento, o que fazia? Refugiava-se nos livros?
Nos livros e na imaginação. Mexia nos cobertores da cama, fazia uns montes, criava um país. Eu vivia muito bem sozinho.

Esses primeiros anos moldaram a sua personalidade?
Sim. O que eu sou começou ali. Havia os nossos senhorios, que eram os donos da estiva no Douro, gente rica. Mais ricos ainda do que eles eram os membros da família Cockburn Smithes, donos dos grandes armazéns do vinho do Porto. Depois, nós éramos remediados: o meu pai, guarda-fiscal; a minha mãe, doméstica. E nas traseiras ficava uma espécie de lumpenproletariat, a gente mais pitoresca, mais rude, mais carinhosa, mais cruel e mais feroz que se pode imaginar. Era gente que vivia na fronteira entre a humanidade e a animalidade.

Muitas das personagens dos seus romances e contos parecem saídos desse mundo.
E saíram mesmo. Mas não só daí. Ao longo da vida, felizmente, tenho encontrado muito tipo de gente aproveitável para personagem. Lidei com gente estranha, gente de todos os meios. Pessoas de extremos, na maneira de viver, na maneira de pensar, ou de correr riscos. Dos muito pobres aos extremamente ricos.

Nos anos de solidão infantil, que tipo de livros lia?
Lia tudo. Comecei aos quatro anos. O meu avô paterno é que me ensinou a ler e a escrever, nos cadernos da Alfândega. Ainda recordo a primeira frase que aprendi a ler: “remessa de documentos para a sede”. Isto não se inventa. Esse meu avô paterno tinha recortado, do “Primeiro de Janeiro”, um folhetim de obras históricas, sobre a vida de Napoleão. Eu aos oito, dez anos, tinha lido tudo sobre o Napoleão, desde as campanhas da Rússia até à chegada das tropas a Portugal. No quartel do meu pai havia uma boa biblioteca e eu ia para lá. Em mim, o hábito de ler era genético. O meu avô ensinou-se a ele próprio. Era analfabeto, foi para a tropa, o capitão era amigo dele e entusiasmou-o a ler pela “Cartilha” do João de Deus.

Quando é que se tornou independente?
Por volta dos 12, 13 anos. Aos 12 anos, fui às putas. [Risos]

A sério?
A sério.

Com quem? Com o pai?
Nada disso. Fui sozinho. Já tinha dinheiro metido no bolso. E ela foi muito carinhosa.

Isso é o que se chama ser precoce. E depois, em que momento é que sentiu necessidade de sair de casa e começar a sua própria vida?
Aos 17 anos, fugi de casa pela primeira vez. Para Lisboa. Fui ao “Diário de Notícias” oferecer-me como jornalista. Veja a ingenuidade. Claro que se riram de mim e mandaram-me embora. Vi que aquilo não dava, estive dois ou três dias em Lisboa, voltei de comboio. Aos 19 anos, antes de ir para a tropa, fugi mesmo a sério. E aconteceu-me uma coisa de sonho, que nem parece verdade, mas é. Aluguei um quarto na Praça da Alegria, segunda casa a partir do canto esquerdo, terceiro andar. O que eu não sabia é que a casa era habitada pelas espanholas do Parque Mayer, pelas coristas.

Então foi parar ao paraíso!
Fui. [Risos]

Tirou proveito?
Tirei, tirei.

E trabalho, procurou?
Sim. Mas não encontrei coisa nenhuma. Em vez disso, num domingo, penduro-me na janela do quarto, chateado da vida, a olhar para a Praça da Alegria, e apanho um susto do caneco. O meu pai estava em baixo, na rua, e ia tocar à campainha. Ele tinha amigos em Lisboa que me mantinham debaixo de olho, sem eu saber. Não discutimos. Ofereceu-me um relógio, um Omega muito bonito, e disse-me: “Não se fala mais nisso, vamos embora para casa”. Depois veio a tropa.

Fugiu porque não queria ir para a tropa?
Não, não. Fugi de casa porque a ditadura doméstica não me deixava qualquer espécie de liberdade, e um rapaz de 19 anos, por muito adulto que se sentisse, aos olhos dos pais continuava a ser uma criança.

Mas o carácter rebelde já estava formado.
Ui. Eu acho que nasci rebelde e nunca deixei de o ser, durante toda a vida. Ainda sou. Aceito a autoridade de quem a tem. Agora, a autoridade absurda de quem simplesmente é autoritário, não.

Estava a dizer que depois veio a tropa.
Sim. Fui para a tropa e comecei a dar-me com amigos comunistas, que já no liceu me andavam sempre a querer aliciar, embora eu lhes dissesse que não queria ser do partido. Uns eram mais discretos, outros eram fanáticos. Logo comigo, que não posso com fanatismos, começo logo aos coices. Acontece que o meu pai tinha um amigo que era inspetor da PIDE, e ele disse: “Se o rapaz anda naquelas companhias, um dia ainda vai parar à cadeia. É melhor ir embora.” Eu tinha a boa sorte de ter uma família amiga, que vivia em Gondarém, gente extremamente rica. Com eles estava uma governanta francesa, uma senhora casada com um bisneto de Balzac. E ela disse-me: “Tu não pertences aqui, vem para Paris.”

Aproveitou a oportunidade?
Sim.

Imagino que tenha sido um deslumbramento.
Não foi. E não foi pelo seguinte. Eu tinha estudado Paris tão a fundo, pelos livros, que chegando lá nem sequer precisava de guia do metro. Já conhecia as estações todas. As ruas. Os lugares. A grande surpresa surgiu depois. Nos anos 60, quando o André Malraux mandou limpar a cidade, que era fuliginosa, com as fachadas enegrecidas, e de repente ficou branca. Eu não gostei. Tirou-me aquele escuro, aquele mistério da pátina. Ficou lavadinha, burguesa. O grande choque foi esse.

Ao chegar a Paris, o que foi fazer?
O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o “Estado de São Paulo”. Há uma história engraçada com ele. Eu tinha escrito uns contos para um jornal de Moncorvo e levei aquilo comigo, cheio de orgulho. Lá em Paris, fui ter com ele. Recebeu-me com muita gentileza, em sua casa, dei-lhe os meus contos e ele levou-os para a casa de banho. Quando saiu, não disse se tinha gostado, não disse coisa nenhuma, só me perguntou se eu tinha alguma coisa para fazer no resto do dia. Eu disse que não. Então levou-me a um jantar com amigos, para me introduzir na vida parisiense. Fomos a um apartamento chiquíssimo, cheio de gente chiquíssima, com diplomatas brasileiros. E apresentou-me a duas ou três pessoas: “Este é o José Rentes de Carvalho, escritor.”

Foi a primeira vez que lhe chamaram escritor.
Foi. Embora ainda não fosse escritor, longe disso.

Novais Teixeira tomou-o como protegido?
Sim. E mais do que isso. Tornou-se o meu mentor.

O que aprendeu com ele?
Primeiro, aprendi que a beleza da língua é essencial. Depois, aprendi que um jornalista olha, regista, não exagera, procura ser tão exato quanto for possível. Não trai as suas fontes, respeita toda a gente e cumpre os horários. Mas sobretudo abriu-me portas. No Brasil e em França. Ele costumava ser presidente do júri de imprensa dos festivais de cinema. Conhecia toda a gente.

Houve uma época em que também se entusiasmou com o cinema, não foi?
Sim. O meu sonho era trabalhar no cinema.

Como argumentista?
Não. Realizador. Mas descobri uma coisa fatal: o realizador não tem a última palavra. Quem decide o que o filme vai ser são os sujeitos que têm a massa. E um realizador só ao fim de dezenas de anos é que se torna independente. Não servia para mim.

Ainda assim, chegou a conhecer muita gente do meio. O Buñuel, por exemplo.
Sim, sim. O Buñuel era amigo do Novais Teixeira. Ia lá a casa jantar. Já imaginou, para mim, que adorava cinema, o que era estar à mesa com o Buñuel? Eu nem falava. Outro amigo dele era o Vittorio de Sica. Um dia, o Novais Teixeira disse-me para ir com ele, que ia entrevistar uma garota nova. Era uma tal de Sophia Loren. Pareceu-me espalhafatosa, mas não muito inteligente.

Para onde foi depois de Paris?
Estive durante um período curto em Nova Iorque, porque julguei que a América seria o melhor para mim. Mas na verdade não era.

Não era porquê?
Eu até tinha um bom inglês, aprendido com a Mrs. Cockburn quando eu tinha cinco ou seis anos, lá em Vila Nova de Gaia. Mas fiquei só uns meses. Não me adaptei. A mentalidade americana não tem nada que ver comigo.

É então que se inicia o período brasileiro?
Passei a andar entre Paris, Rio de Janeiro e São Paulo. Sempre como jornalista. Fazia biscates para “O Globo” e para o “Estado de São Paulo”. Quase sempre críticas de cinema. Até que me mandaram parar porque os distribuidores ameaçavam tirar a publicidade dos jornais se as críticas fossem negativas. Pediram-me para escrever sobre outras coisas. E nessa altura apareceu uma alternativa. Eu tinha uma amiga pintora e o irmão dela era adido comercial da embaixada do Brasil, que era em Haia, mas ele trabalhava em Amesterdão. Ele bebia muito, andava às oito da manhã de pijama, com o chapéu de coco e a garrafa de whisky debaixo do braço. Aquilo ia dar bronca, então a minha amiga pediu-me para eu ir lá dar um jeito, fazer uns relatórios sobre a economia holandesa, coisas dessas.

Qual era o seu conhecimento sobre a Holanda?
Nenhum. Aliás, eu disse-lhe que ia no máximo por duas semanas. Mas acabei por ficar 60 anos exatos, feitos há coisa de um mês.

Ao chegar a Amesterdão, em 1956, com que impressão ficou?
Não gostei. Pensei logo que precisava de me vir embora.

E de que é que não gostou? Do clima?
Do clima. O clima é terrível. No dia da minha chegada aconteceu um fenómeno atmosférico raro: a combinação de chuva e neve. Uma coisa tremenda. Mas no dia seguinte o céu estava limpo. E houve outras razões... [Aponta na direção da sua mulher, Loekie, que está na divisão contígua, ao telefone.]

Razões do coração.
Sim.

Quanto tempo durou o trabalho com o adido da embaixada?
Três anos. Tive um problema com o meu patrão seguinte, que era sobrinho do Kubitschek [então Presidente da República brasileira], que me pediu para lhe arranjar umas faturas falsas. Recusei. E ele, sabendo que eu tinha duas filhas pequenas, ameaçou demitir-me. Respondi que não lhe daria a satisfação de me demitir, porque eu próprio me demitia logo ali. Fiquei na rua, com duas filhas, sem salário. Então aceitei tudo o que me aparecia. Vendi revestimentos para telhados, sapatos, cargas de navios, café. Assim passei cinco anos. Uma verdadeira travessia do deserto.

E como é que saiu do deserto?
Conheci o catedrático de Português na universidade de Amesterdão. Conversávamos muito sobre a língua, sobre Portugal. Um dia, disse-me que o meu lugar não era nos telhados, mas sim na universidade. Então inscrevi-me, tirei a licenciatura de quatro anos em dois, e ele admitiu-me logo como professor. Fiquei 32 anos a dar aulas de literatura portuguesa e brasileira.

Gostava de dar aulas?
Gostei muito, até cerca de meia dúzia de anos antes do fim, porque houve uma extraordinária queda do nível dos estudantes. A dada altura, fizeram-me uma proposta que era irrecusável. Eu tinha 58 anos e propuseram-me ir embora, com o ordenado e as regalias por inteiro até à reforma. Disseram-me isso numa quarta-feira e na sexta-feira peguei na minha tralha toda e fui-me embora.

rui duarte silva

Passou a dedicar-se à escrita?
Sim. Escrevi como uma besta para os jornais holandeses. Fiz televisão, rádio, reportagens.

Em 1968, publicou o primeiro livro: “Montedor”. Depois de tantos anos de jornalismo, o que o levou para a ficção?
Eu não conhecia o mundo dos literatos e dos escritores em Portugal. Para mim, quem escrevia estava acima, muito acima, dos comuns mortais. O sujeito que escrevia um livro devia ser alguém superior. Então escrevi um livro e mandei o manuscrito para o Novais Teixeira. E ele, como da outra vez, não me disse ai nem ui, nem que tinha gostado nem que não tinha gostado. Por modéstia, também não perguntei. E um dia recebo em casa um pacote que vinha de Lisboa. O que aconteceu foi que o Novais Teixeira tinha enviado o manuscrito para a Prelo, que era do Partido Comunista (embora ele não tivesse nenhuma relação com os comunistas), e eles publicaram aquilo. Nunca me pagaram um centavo, mas mandaram-me 20 exemplares para Amesterdão.

Foi um livro que recebeu uma crítica bastante positiva de José Saramago.
Sim. Defendeu que era uma coisa nova, uma coisa boa. Mas já o segundo livro, “O Rebate” (1970), que na Holanda consideraram uma obra-prima, levou porrada em Portugal. Da “Colóquio/Letras” aos jornais, só disseram mal. Que eu não sabia conjugar verbos, que as personagens não tinham ponta por onde se lhe pegasse, etc.

Percebeu aí que a relação com o meio editorial português ia ser complicada?
Percebi que não ia ser relação nenhuma.

Mas não esmoreceu.
Continuei com a minha vida e um dia, estava num café com um editor holandês, amigo do meu tradutor [August Willemson], e comecei a queixar-me dos holandeses, a barafustar por isto e por aquilo, a chamar-lhes de filhos da puta para cima, tudo, e ele sorriu. Despedimo-nos, fomos cada um para seu lado. Uns dias depois, recebo um envelope com um cheque e um cartão dele, a dizer: “Este é o adiantamento sobre os direitos de autor do livro que vais escrever a dizer mal de nós.”

E assim nasceu “Com os Holandeses”, uma das suas obras mais vendidas.
Acabei-o em menos de um ano, foi uma coisa escrita em cima do joelho.

Ficou surpreendido com o sucesso do livro?
Claro que fiquei. Mas a verdade é que eles queriam que alguém lhes dissesse as verdades nuas e cruas. Estavam habituados a que os livros sobre a Holanda falassem das tulipas e dos moinhos. E gostaram da minha franqueza e sinceridade. Continua a ser um livro de referência.

Se um estrangeiro escrevesse assim sobre Portugal era capaz de ser mais problemático, não acha?
Dava para matarem o autor.

E o que é que o êxito do livro diz sobre os holandeses?
Eles não se importam de ouvir críticas, porque têm uma atitude muito pragmática. Se alguém critica, há sempre uma possibilidade de aprender. E eles gostam de aprender de graça. Pensam: se alguém diz mal de nós, terá razão ou não. Se tem, a gente aproveita e tenta corrigir. Se não tem razão, esquecemos ou ignoramos.

Já falou numa travessia do deserto. Mas a partir da década de 70 há outra: o seu desaparecimento quase total do meio literário português, pelo menos enquanto autor publicado em editoras com visibilidade. Uma ausência que durou até há poucos anos. Isso causou-lhe mágoa?
Mágoa, não. Deu-me pena. Não por mim, mas pelos meus compatriotas. Então um sujeito está lá na Holanda, faz umas coisas decentes, e eles não o querem?

E agora? Mesmo tardio, sente-se feliz pelo reconhecimento que a sua obra obteve finalmente em Portugal?
Sim. Foi uma espécie de acaso, mas ainda bem que aconteceu. Agora não tenho razões de queixa.

Ao fim de 60 anos a viver na Holanda, o que é que mudou no José Rentes de Carvalho?
No essencial, não mudou coisa nenhuma. Tornei-me foi mais capaz de compreender, ou aceitar, opiniões que sejam opostas à minha. Perdi alguma daquela bruteza, daquela maneira definitiva de ver as coisas.

Isso quer dizer que ficou menos português?
Não! Talvez até seja mais do que era.

Apesar das muitas desilusões, nunca deixou de vir a Portugal.
Oiça, esta é a minha terra. Esta é a minha gente. Eu vivo em grande conforto na Holanda, mas lá não tenho este chão.

O chão de onde veio.
É onde eu pertenço.

Estamos numa casa que foi do seu avô.
Sim. Um homem que eu não cheguei a conhecer, porque morreu aos 43 anos, dois anos antes de eu nascer. Ele fez esta casa para a filha, mas mais ainda para mim, para o neto, porque ele tinha a certeza de que ia ter um neto. Era sapateiro e construiu a casa no seu tempo livre, sozinho.

Falou há pouco do acaso. Que lugar é que ele teve na sua vida?
Enorme. Tenho um respeito tão grande pelo acaso que até tremo. Por exemplo, eu sempre achei que a literatura estava muito acima da craveira que eu podia alcançar. Ainda hoje isso me provoca uma espécie de acanhamento. E se venci os meus bloqueios, devo-o justamente ao acaso. Como já disse, entreguei o manuscrito do meu primeiro livro ao Novais Teixeira. Se ele não tivesse mexido os cordelinhos, o manuscrito tinha desaparecido. Eu nem sequer tinha uma cópia.

E nesse caso talvez hoje não fosse escritor.
Não era certamente. Teria sido apenas professor. Ficava lá na universidade, quietinho.

Os críticos literários reconhecem-lhe o uso de um português de lei, inventivo, rigoroso, com requintes de estilo. A escrita dá-lhe prazer?
Não. É obrigação. Sinto uma obrigação de manter o significado, de manter a riqueza do idioma. De encontrar harmonia, no sentido musical. E ritmo.

Dá muito trabalho?
Dá. Por isso escrevo pouco. Parto de uma ideia, de uma personagem, de um acontecimento. E depois há uma construção, quase toda mental. É feita à noite, na cama. Ou nos momentos em que me abstraio.

Escreve todos os dias?
Não. Posso estar horas seguidas à volta de um texto e depois não escrever uma linha durante semanas. Não me imponho prazos, nem planos nem esquemas. O meu grande problema, depois de a coisa estar escrita, é começar a limpar. Este livro que saiu agora, “O Meças” [Quetzal], tem 180 páginas. Tinha umas 400. Limpar dói, porque é trabalho que se deita fora, mas é essencial. Às vezes até exagero nessa depuração, mas prefiro que tenha mais osso, reduzo ao máximo a palha.

A natureza humana é a principal matéria-prima do escritor?
Sim. As pessoas não se dão conta de que andam nuas. Não importa aquela máscara que põem, para corresponderem àquilo que se espera deles. Na maior parte dos casos, as pessoas são previsíveis. Não escondem tanto quanto julgam.

Logo no início do livro “Pó, Cinza e Recordações”, diz que uma das poucas vantagens da velhice é viajar no tempo, mas em marcha-atrás. O facto de já ter tido uma vida tão plena liberta-o da angústia do tempo?
Sim. Eu não tenho pressa de morrer. Mas aceito a realidade e isso dá-me um grande descanso. Não é um descanso falso. Vem de dentro.

Nos últimos anos, sobreviveu a um cancro muito grave e a outro problema de saúde que lhe dava uma probabilidade de sobrevivência baixa. De que forma é que essas doenças o marcaram?
Deram-me sossego. Foram momentos de aceitação. Venha o que vier, eu aceito. Sem temor, sem tristeza. Se tiver de chegar o fim, está bem.

E quando percebeu que se tinha livrado dessas ameaças? Sentiu alívio?
Não foi alívio. Foi curiosidade. Como se tivesse recebido uma recompensa.

Tem arrependimentos, remorsos? Olhando para trás, há coisas que preferia não ter feito?
Não, não, não. Je ne regrette rien. [Risos]

Artigo publicado na Revista E do Expresso de 23 abril 2016