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Entrevista à poetisa que mexeu com a América: “Não sou suficientemente heterossexual para pertencer à elite”

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EILEEN MYLES. “Eu sou muito andrógina, não sou uma mulher nem um homem”

d.r.

Eileen Myles escreve poesia há pelo menos 42 anos, mas só no ano passado viu o mundo render-se e os convites para entrevistas com a “New Yorker” ou a “Paris Review” começarem a chegar. Para ela, que se assume lésbica, feminista e pouco mais porque detesta rótulos, a fama não se traduz em reconhecimento dos críticos devido à maneira como fala de sexo e género. Falámos com a desarmante Eileen, que a meio nos avisou de que provavelmente não vai querer ler esta entrevista

Descrever Eileen Myles é difícil. Podemos cingir-nos aos factos: Eileen nasceu há 66 anos em Massachussets no seio de uma família modesta, mudou-se para Nova Iorque em 1974 para se tornar poetisa e hoje há mais de 20 livros e antologias com o seu nome na capa. É álcoolica, está sóbria há poucos anos e acha que isso lhe salvou a vida. Tudo o resto, mesmo o que podia parecer óbvio, é vago e desafiante.

Quando é que Eileen começou a ser uma artista reconhecida? Há várias respostas: para a comunidade LGBT, por exemplo, já há muitos anos que ela, lésbica e feminista - um rótulo que aceita - conquistou o seu espaço. Para o resto do mundo, o ano em que os seus estranhos poemas sobre manteiga de amendoim e amor passaram a estar na moda foi 2015, quando Eileen lançou dois livros (o republicado “Chelsea Girls” e a antologia de poemas “I Must Be Living Twice: New and Selected Poems 1975-2015”), personalidades como a realizadora feminista Lena Dunham começaram a elogiá-la publicamente e a série “Transparent” criou uma personagem inspirada nela. Da perspetiva da própria poetisa, a “fama” é relativa: em certos círculos é “atrevida” e admirada por isso, mas para as elites literárias não chega (“Não sou suficientemente heterossexual”, explica-nos).

Contactamos Eileen e a resposta é vaga e confusa. Responde-nos de vários endereços de emails com indicações contrárias sobre a forma como prefere responder às perguntas. Ao telefone é engraçada, leve, mas quando começa a responder a sério o tom passa a ser intrigante. Debita filosofias de vida com ligeireza, fala dos seus planos para “impedir os homens de produzir arte durante 50 anos” e das coisas maravilhosas que daí podem surgir, admite a incoerência no seu apoio a Hillary Clinton: “Quero vê-la a falhar ou a ter sucesso por todas nós”, assume.

Por vezes fala dela como mulher, uma mulher que pede “mais humanidade para todas nós”. Noutras, é mais agreste e relembra que não se identifica como “homem nem mulher” e que prefere o pronome “eles”, mais inclusivo e menos compartimentado. É a coisa mais certa que se pode dizer sobre ela: não gosta de rótulos. Questionada sobre a forma como descreve a sua poesia, lança: “É uma conversa transitória sobre tudo feita por alguém que gosta de piadas e natureza”.

Perguntamos se um génio pode ser uma pessoa normal, alguém que está no patamar do resto dos comuns mortais, mas por essa altura torna-se evidente que a pergunta é retórica - ela diz que a poesia é cultura de massas, mas a genialidade das suas respostas, diretas se lhe apetecer ou esquivas se não estiver para aí virada, responde por ela. A meio desarma-nos e avisa: “Provavelmente não vou ler esta entrevista porque me sinto vulnerável.”

SUCESSO. “Chelsea Girls”, romance autobiográfico publicado pela primeira vez em 1994, foi relançado em 2015

SUCESSO. “Chelsea Girls”, romance autobiográfico publicado pela primeira vez em 1994, foi relançado em 2015

d.r.

Num dos seus poemas escreve: “Sou absolutamente contra qualquer tipo de objetivos. Não tenho qualquer desejo de saber onde isto, ou qualquer coisa que faça, me vai levar”. O sentimento permanece? O que é que a motiva?
Escrevi isso porque me sentia oprimida pelos objetivos e pela necessidade de fazer qualquer coisa da minha vida, enquanto queria abstrair-me disso, parar e simplesmente estar presente. Mas a verdade é que muitas vezes digo o oposto ao que sinto para conseguir o que quero. Sempre escondi os meus verdadeiros sentimentos e consegui espaço, dizendo o contrário daquilo que penso. Nem sempre é produtivo, mas ganho tempo.

É descrita como alguém “inimitável”. O facto de fazer parte de uma família de classe trabalhadora normal mas ao mesmo tempo ser considerada um génio fá-la sentir-se única?
Penso que todos, especialmente nas artes, inventamos a nossa personalidade. Certamente a inteligência não é mais alta ou mais baixa na classe trabalhadora, mas é menos estimulada e temos direito a menos lições e atenção da nossa escola e dos nossos pais. Isso contribuiu para que me sentisse única como artista e escritora. A parte boa disto é que ser uma artista da classe 'errada' significa que nos desenvolvemos isoladamente e temos noção de que a originalidade é um instrumento de sobrevivência. E esse nosso espaço é o lugar certo para o pensamento e o desenvolvimento pessoal. Isto é verdade, claro, para as mulheres, que nunca são da mesma classe que os homens, mesmo que pertençam à mesma classe. A cultura de certa forma força as mulheres a serem separatistas.

Pode um poeta que é tão admirado ser considerado a “girl next door” ou há sempre este sentimento de ser inalcançável, de estar noutro patamar?
Eu sou muito andrógina, não sou uma mulher nem um homem. Comecei a gostar do pronome 'eles' porque é mais indefinido e eu gosto de falar das coisas de uma forma mais ampla, em vez de ser definida pelo meu género. Quero estar num espaço inclusivo. Acho que ter atenção enquanto mostramos que somos pessoas normais mistura as coisas e eu quero sentir simultaneamente que estou isolada o suficiente para escrever e ligada aos outros para não enlouquecer. Mas tudo bem. Estou a gostar da situação.

Disse sobre o livro que escreveu sobre a sua cadela Rosie que o que faz é uma “cópia solta e meticulosa” da realidade. É assim que podemos descrever o seu processo criativo? Todo o seu trabalho tem uma forte componente autobiográfica?
Acho que a minha orientação é visual e tenho ideias bastante simplistas, por isso assumo que que há um modelo na vida real onde me inspiro. Mas ler, por exemplo, faz parte da vida real, por isso uma personagem num livro, embora seja tecnicamente imaginária, é algo em que me inspiro e da mesma maneira uma piada que tenho na minha cabeça pode ser igualmente verdadeira e portanto pode servir para ser copiada para o meu livro. Gosto de que o cão real e o cão imaginário ladrem juntos e me ensinem.

Já disse que, por causa da componente autobiográfica, a sua escrita a tornou um “ser humano redundante”. Já alguém próximo de si se zangou por escrever sobre essa pessoa?
As pessoas não gostam de ser copiadas. Como também me copio a mim própria para os meus livros, as pessoas muitas vezes estão a falar com essa personagem que criei e eu sinto que não estou presente. Provavelmente é esse o problema com os seres humanos que são copiados: é como se alguém te fosse abraçar ou falar contigo na direção errada, no ângulo errado, e tu não fosses visto, ficasses desconstruído, sozinho.

d.r.

Sente-se vulnerável quando lança um novo trabalho ou quando alguém o lê pela primeira vez?
Provavelmente não vou ler esta entrevista porque me sinto vulnerável.

Quando tinha 20 anos, associava as pessoas que escrevem poesia a “alguém perturbado”. A experiência de escrever mudou com o passar dos anos?
Claro. Quando decidi resgatar-me de uma morte precoce [Eileen é álcoolica e parou de beber há poucos anos], comecei a explorar essa experiência e a entender outras situações em que se calhar caí e a olhar em volta para perceber qual a direção em que queria seguir. Claro que adoro as explorações dos outros e elas inspiram-me. Agora estou a ler 'Guerra e Paz', que é um grande romance social. Adoro livros longos e talvez venha a escrever um. Ou talvez não.

Acha que um homem e uma mulher que são génios são vistos da mesma maneira? Desde pequenos que ouvimos os rapazes a serem descritos como brilhantes, mesmo que desorganizados, e as raparigas como empenhadas e esforçadas.
E quando uma rapariga é desorganizada é raro ser considerada um génio. Nesse caso, pensamos no que devemos fazer com ela, porque claramente precisa de ajuda.

Normalmente, não se encaixa em rótulos. Como descreveria a sua escrita a quem nunca tivesse lido nenhuma das suas obras?
É uma conversa transitória com tudo, feita por alguém que gosta de piadas e natureza.

Houve algum período da sua vida em que não tenha conseguido escrever? O que é que a bloqueia?
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Não me lembrar de abrandar. Viajar demais. Não saber onde é a minha casa. Ler demasiado o meu próprio trabalho, falar demasiado sobre ele em vez de escrever. Há um certo ponto em que tenho de estar parada. Estou a olhar para o futuro e vejo que há mais pontos em que não vou estar a fazer nada, e isso entusiasma-me.

Não concorda com a ideia de que a poesia não se destine às massas. E quanto ao feminismo e às pessoas que deixam a crítica de que hoje em dia está na moda ser feminista?
Eu acho que a poesia é cultura de massas. Em Boston, há uma casa que tem um sinal logo em frente que diz 'se vives aqui, estás em casa'. Toda a gente conhece aquele sinal, toda a gente o adora. Foi escrito por um poeta anónimo e toda a gente adora. É tão simples como isto. A poesia não é arcaica, é verdadeira e útil. Pode estar na moda ser feminista, mas a verdade é que se te defenderes e impuseres és admirada enquanto mulher, mas se fores homem és apenas um homem. Estou à espera do momento em que sermos mulheres e nós próprias signifique simplesmente que somos humanas. Quero mais humanidade para a toda a gente. É por isso que gosto desse poeta.

Sente-se uma poetisa da moda? Isso influencia o seu trabalho?
Não. Os Estados Unidos têm imensos prémios literários grandes - o National Book Award, o National Book Critics Circle, o prémio Pulitzer. Eu não represento sequer um pontinho neste radar. As pessoas não enlouqueceram com o livro que escrevi sobre o meu cão. Eu acho que as poetisas, poetas transgénero ou artistas experimentais podem estar na moda, mas quem confere estatuto no mundo da literatura é muito conservador, sensível à raça mas não à estética da sexualidade. Enquanto continuar a crescer como artista, fico surpreendida se não for sempre uma 'outsider'. Acho que agora sou vista como famosa, atrevida, mas não da elite, o que por mim está bem. Não sou suficientemente heterossexual.

Quando se candidatou à presidência dos Estados Unidos, em 1992, descreveu-se como uma candidata “abertamente feminina”. O que é que isso significa? Hillary Clinton também é esse tipo de candidata?
Foi uma piada para assinalar o facto de que nós nunca referimos que os candidatos são homens. Eu acho que Hillary é criticada por muitas coisas para encobrir o facto de ser abertamente mulher, e os seus crimes, tal como as suas políticas que são exatamente iguais às de Obama ou as suas votações no Congresso que são quase idênticas às de Bernie Sanders, nunca vêm ao de cima porque ela está a ser moralmente julgada por ser mulher, e aparentemente os pecados de um Governo inteiro são apenas culpa dela. Eu apoio a campanha dela mesmo sem gostar globalmente das suas políticas e particularmente das suas ideias para a política externa, porque fico muito entusiasmada com a ideia de ter uma mulher como presidente. As pessoas acham que isto é ser essencialista, mas o facto de uma mulher nunca ter conseguido estar nesta posição significa que a quero ver falhar ou ter sucesso por todas nós.

Disse que os homens deviam parar de produzir arte durante alguns anos. Qual seria o resultado?
Algo maravilhoso que nunca vimos antes. Produção de artistas, escritores e intelectuais que são mulheres ou transgénero e que têm estado algemados. O escândalo é que estou a convidar-nos, culturalmente, a sonhar. Os homens não se limitam a sonhar com a exclusão das mulheres, eles põem-na em prática. Eu sonho com essa exclusão a ser desfeita. Na minha vida diária eu não excluo os homens, só não acho que eles sejam centrais.

Quando é que se começou a considerar feminista?
Assim que soube que essa ideia existia.

Durante a sua juventude havia assuntos mais sérios que o feminismo tinha de resolver ou os problemas antigos e atuais são apenas diferentes?
Penso que a violência contra as mulheres, o abuso sexual e a desvalorização das mulheres fazem parte da nossa cultura, mas a diferença é que cada vez mais as pessoas estão a reparar nisso e a testemunhar a violência de uma cultura que é dominada pelas necessidades de um só género.