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“A cor da pele conta para os resultados dos alunos”

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Nuno Fox

Em entrevista ao Expresso, o investigador do ISCTE e coautor de um estudo sobre os estudantes afrodescendentes no sistema educativo português, Pedro Abrantes, assegura que as escolas discriminam os alunos em função da cor da pele - e diz que os professores têm de ser educados para não segregar. Os estudantes oriundos dos PALOP chegam a chumbar quase duas vezes mais do que os restantes e são mais encaminhados para o ensino profissional. Como se o sistema escolar e os cursos orientados para o prosseguimento de estudos lhes dissessem “o vosso lugar não é aqui”

Os estudantes afrodescendentes reprovam mais do que os seus colegas de outras origens culturais. E porque reprovam mais, são mais encaminhados para os cursos profissionais. Dois investigadores do ISCTE decidiram estampar num estudo académico o que parece uma inevitabilidade. Para resolver o problema, querem alterações nos currículos, formar os professores para a diversidade e, sobretudo, reduzir as reprovações entre estes alunos.

Pedro Abrantes é coautor, com Cristina Roldão, da investigação sobre os afrodescendentes no sistema educativo português. Doutorado em Sociologia pelo ISCTE-IUL, é membro, desde 2002, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, tendo participado em diversas pesquisas nacionais e internacionais nas áreas da educação, juventude e desigualdades sociais. Horas antes da apresentação pública do estudo, falou com o Expresso Diário, assumiu as fragilidades da investigação e apontou soluções para o problema.

O que são alunos afrodescendentes? Que dados permitem falar em segregação racial se, em Portugal, não se pode classificar as pessoas pela sua etnia?
Os dados que utilizamos no estudo foram disponibilizados pelo Ministério da Educação e dizem respeito à naturalidade e nacionalidade dos alunos e dos seus pais. É verdade que não temos dados específicos sobre a etnia dos alunos porque não podemos fazer segmentação nesta base. Estes dados não temos porque não podem ser recolhidos, o que nos coloca dificuldades em relação à comparação com outros países. Os dados que temos são administrativos, mas permitem fazer alguma identificação da origem e da cor da pele dos alunos.

Mas deve deixar muitos de fora, sobretudo os estudantes cabo-verdianos, de segunda e terceira gerações, que têm nacionalidade portuguesa...
Sim, é verdade. Se todos fossem tidos em conta, o problema seria ainda maior. O universo peca por ser inferior à realidade.

Como investigador, defende a alteração da situação atual e a possibilidade de se indagar a etnia das pessoas?
Como investigador, sim, defendo, embora tenha consciência de que esta alteração levanta questões políticas, que visam tentar evitar a segregação com base nesta identificação. Este é um debate que existe no ambiente da Academia.

A vossa pesquisa não tem em conta o peso das condições sociais nos resultados dos estudantes afrodescendentes?
Não é a cor de pele que explica o comportamento, nós sabemos. E a cor da pele não foi o único critério considerado na análise. Cruzamos a etnia dos estudantes com a situação social das famílias e a escolaridade dos pais. E, mesmo depois, ficou claro que a cor da pele conta para os resultados dos alunos.

Como?
Há um indicador importante que é o nível de reprovações. Os afrodescendentes reprovam mais do que a generalidade dos outros estudantes. E constatámos que os cursos profissionais são mais aconselhados pelos professores a estes alunos.

Então, são os professores que dão notas mais baixas a estes alunos, fazendo com que reprovem mais e acabem a ser encaminhados para os cursos profissionais?
Sim, este é um problema que não tem a desejável reflexão nas escolas portuguesas. Tudo começa no ensino básico, na constituição das turmas, quando as escolas selecionam os alunos que entram.

Mas isso não é permitido.
Mas acontece. E parece que o sistema escolar diz que os cursos científicos e de humanidades não são para os estudantes afrodescendentes. É como se dissessem “o vosso lugar não é aqui”.

A língua não deveria ser tida em conta? Muitos alunos cabo-verdianos não têm o Português como língua materna, o que dificulta a adaptação e o sucesso escolar.
Sim, a língua é um fator fundamental, mas não é o principal. Até porque as escolas do século XXI deveriam estar preparadas para receber os alunos de outras origens. A escola tem de aprender a lidar com estes alunos sem os segregar.

E como avaliaram o impacto das classes sociais a que pertencem os alunos e as suas famílias e a escolaridade dos pais dos estudantes afrodescendentes?
Este foi um dos dados mais surpreendentes da investigação. Constatar que as crianças afrodescendentes de situação económica mais favorecida também reprovam mais do que as demais. Foi o resultado que nos deixou mais preocupados. Revela a importância das origens culturais no sucesso escolar dos alunos. No últimos anos, foi privilegiado pelo sistema de ensino a aprovação nos exames de Português e de Matemática, o que coloca em causa a lógica multicultural da aprendizagem. Desde 2008 que os mediadores culturais deixaram de ser contratados e a integração das diferentes origens dos alunos deixou de ser prioritária.

Qual a realidade dos alunos afrodescendentes de classes mais favorecidas em relação aos demais?
Mesmo quando os pais têm o ensino superior ou rendimentos acima da média, as reprovações são superiores: 30,5% para 22%. 41% dos afrodescendentes tiveram alguma reprovação no secundário, face a 23% dos demais. É quase o dobro. No geral, a reprovação foi de 63% entre os afrodescendentes e 47% nos alunos com as outras origens.

Tiveram em conta as expectativas dos alunos e das suas famílias? Estes estudantes não querem e precisam de começar a trabalhar mais cedo do que os demais?
Este é um ponto que queremos aprofundar em estudos posteriores. O estudo apresentado esta quarta-feira foi fundamental para se fazer o levantamento com dados nacionais. Deu-nos a dimensão do problema, mas há muitas questões que terão de ser desenvolvidas. Sobretudo porque percebemos que há duas reações típicas dos estudantes afrodescendentes: há aqueles que se sentem segregados e se revoltam e, os que mais me preocupam, aqueles que acham que a escola e as universidades não são locais para eles. E que as únicas saídas são os cursos profissionais. O que me preocupa é que estão a chegar poucos afrodescendentes ao nosso sistema universitário.

Abordaram a situação dos ciganos?
Não, este é um caso ainda mais complexo, porque não há qualquer possibilidade de fazer um levantamento estatístico, porque eles são referidos apenas como portugueses. Sabemos que aqui o insucesso escolar é ainda maior. Nos ciganos já é considerado muito bom chegar ao nono ano, ou seja, abaixo do ensino obrigatório.

Quais serão os vossos próximos passos?
Queremos avançar com uma nova investigação nesta área, já em setembro, nas escolas onde há mais diversidade cultural. Perceber a relação destes alunos, dos seus pais e dos professores e da própria comunidade com o sistema de ensino.

Chegam a propor soluções para o problema da segregação racial?
Há várias soluções, mais ou menos extremas. É, sobretudo, importante dar mais formação aos professores, de forma a que lidem melhor com a diversidade, não como um problema, mas como algo que deve ser valorizado. Tem de se repensar a lógica dos currículos, de forma mais inclusiva, tendo em conta as diferentes origens dos alunos. E há que reduzir bastante os mecanismos de reprovação destes grupos. A principal forma de combater a segregação é reduzir o nível de reprovação. Temos indicações que o Ministério de Educação está a lançar uma estratégia neste sentido.

Mas como querem que se reduzam as reprovações? Com medidas de discriminação positiva?
Tem de ser discutido. É preciso pensar as reprovações como uma última via. É preciso desmontar os sistema e a lógica das reprovações. Essa situação não é uma inevitabilidade. Está previsto na Constituição que todos os alunos devem ter sucesso escolar.

A grande conclusão do estudo não devia ser a de que os alunos pobres são segregados?
Este estudo não rejeita a importância das condições socioeconómicas. É o fator principal, mas a inovação vem de se perceber que a origem nacional e a diferença cultural têm no caso dos afrodescendentes um peso significativo. Porque há alunos estrangeiros de origem europeia com bons resultados. E o sistema educativo tem de ser mais inclusivo com estas minorias. As reprovações nos últimos anos voltaram a crescer e os grupos de risco são os mais afetados, como os afrodescendentes.

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