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Mas quem é este homem que está a mudar a forma como compramos carros?

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MUSK. Já o comparam a Steve Jobs, pelo feeling disruptivo e pela capacidade de mobilizar irracionalmente as massas em torno de um produto

FOTO NTB SCANPIX / HEIKO JUNGE / VIA REUTERS

O dono da Tesla e da Space X, Elon Musk, é o novo ícone dos “techies”, os fãs de tecnologia que em 2007/08 sonhavam com o novo iPhone e hoje pagam 1000 dólares (885 euros) adiantados para ter um novo carro elétrico que só chega no final de 2017. Será Musk, que está a mudar a forma como compramos carros, o novo Steve Jobs? “Ele não é o próximo Steve Jobs. Ele vai muito além e é muito melhor”

A União Soviética tinha colapsado. Na luta pela sobrevivência, Moscovo chegou a vender reatores nucleares aos Estados Unidos, que compravam tudo o que podiam para evitar que a tecnologia chegasse às mãos de grupos terroristas. Elon Musk quis aproveitar os saldos e chegou à capital russa para saber o preço dos mísseis balísticos intercontinentais, que poderiam servir de base para os foguetões da sua futura companhia aerospacial.

Múltiplas reuniões depois, os russos informariam que cada míssil custaria 21 milhões, o triplo do preço inicial. O negócio foi por água abaixo. No regresso a casa, Musk trabalhava no portátil enquanto os engenheiros Adeo Ressi e Jim Cantrel, amigos e parceiros de negócio, procuravam descansar. A meio da viagem, ele acordou-os: “Pessoal, acho que podemos construir o nosso foguetão. Não precisamos destes tipos para nada”.

Quando Cantrel deu uma vista de olhos pelo projeto, ficou incrédulo. “Estava lá tudo. E o mais impressionante é que ele aprendeu lendo os meus livros de engenharia espacial, que eu lhe tinha emprestado poucos meses antes”, recorda ao Expresso, revelando que ainda hoje espera que os volumes lhe sejam devolvidos. “Há anos que ele se faz de esquecido (risos).”

Esta aventura à procura de um foguetão ocorreu há 13 anos e foi contada ao Expresso por vários amigos e colegas de trabalho de Elon Musk, que após aquele regresso de Moscovo acabaria por fundar, em 2002, a Space X, hoje a principal empresa privada de transporte de mercadorias para o Espaço. Todos os entrevistados classificaram Elon de génio, uma condição que ele capitalizou na criação de um vasto universo de negócios, que passa também pela produção de automóveis elétricos, painéis solares e baterias para uso industrial e doméstico.

TESLA MODELO 3. É este o carro que ainda não saiu, mas pelo qual milhares já pagaram um sinal

TESLA MODELO 3. É este o carro que ainda não saiu, mas pelo qual milhares já pagaram um sinal

getty images

No passado dia 1 de Abril, Elon Musk lançou o carro elétrico do povo, o modelo 3. Se a quantia de 35 mil dólares (31 mil euros) pode parecer elevada (os benefício fiscais oferecidos em alguns estados empurram o preço final para cerca de 27 mil dólares (24 mil euros), a verdade é que, até então, quem quisesse ter um veículo Tesla tinha de desembolsar perto de 100 mil dólares (88,5 mil euros). Resultado? Mais de 400 mil encomendas nos primeiros dias, revela o departamento de imprensa da marca.

A onda de sucesso prosseguiu quatro dias depois, quando a Space X conseguiu pela primeira vez colocar um satélite no espaço através do seu sistema de lançamento reutilizável. Isto quer dizer que não há desperdício de componentes, tal como se tratasse de um avião, algo que diminuirá o custo das missões. “Os russos devem estar a roer-se”, afirma Cantrel.

“Um bocado parvo” e “super mal-educado”

Com o anúncio do modelo 3, um público mais vasto quis saber quem é este indivíduo nascido na África do Sul, naturalizado americano, que promete um carro acessível, capaz de fazer 350 quilómetros sem uma gota de gasolina, com muita arrumação (o automóvel tem duas bagageiras, à frente e atrás, visto que não existe motor) e veloz como qualquer topo de gama da concorrência.

Uma das formas que os media descobriram para apresentar Musk ao povo foi, repetidamente, compará-lo a Steve Jobs, o fundador da Apple e revolucionário da indústria de telemóveis inteligentes. Musk não deve ter gostado, visto que ambos nunca tiveram uma boa relação pessoal e profissional, principalmente após a Apple ter “roubado cérebros” à Tesla para avançar com o seu próprio projeto de carro eléctrico.

“Quando o conheci, ele foi um bocado parvo. Super mal-educado. E toda a gente que conheço, que alguma vez o tenha visto…”, disse Musk sobre Jobs - e embora não tivesse terminado a frase, expressou o pensamento de forma clara. Mais tarde explicaria que não passava de uma “experiência pessoal”, mas também que se não fosse Larry Page a apresentá-los (fundador da Google e amigo comum), eles “nunca se teriam conhecido”.

getty images

Mas será pertinente comparar Musk a Jobs? “Ele não é o próximo Steve Jobs. Ele vai muito além e é muito melhor”, diz-nos Jim Cantrell, que deixou a Space X em 2003 por causa do alegado mau feitio de Elon Musk. “Gosto muito dele, mas não conseguimos trabalhar juntos. No fundo, acho que ele nunca me perdoou e, ainda hoje, deve pensar que sou um filho da puta.” Ambos reataram a amizade em 2011.

Dolly Singh, antiga diretora da Unidade de Caça-Talentos da Space X, concorda com Cantrel: “Elon não deve nada ao Jobs. Elon é Werner Von Braun, Howard Hughes, Henry Ford, Bill Gates e Steve Jobs e todos os outros génios concentrados num só”. Ambos reconhecem o valor de Jobs, mas consideram que o seu maior talento foi ao nível do marketing, que lhe permitiu resgatar uma empresa praticamente falida, a Apple.

Além da Space X e da Tesla, Musk fundou a Zip 2 (software), a X.com (serviços financeiros online) a Paypal (sistema de pagamento online), além de cofinanciar a Solar City (painéis solares) e a Vicarious (inteligência artificial), sendo ainda criador do projecto Hyper Loop, um sistema de transporte que poderá levar pessoas de Nova Iorque a Los Angeles em menos de 30 minutos (as viagens de avião duram hoje perto de seis horas).

Em declarações ao Expresso, o escritor Clive Thompson, perito em ciência e tecnologia, autor do bestseller “Smarter Than You Think”, considera que o impacto de Jobs “é obvio hoje em dia, no entanto, se Musk conseguir espoletar a eletrificação da indústria automóvel, será algo único, até porque tem uma consequência evidente ao nível do ambiente, que é a maior preocupação da nossa geração”. Apesar disso, Thompson diz que ambos têm em comum “a capacidade para inspirar equipas inteiras a produzirem algo fascinante e que o consumidor ainda não percebeu que necessita”.

Na Space X já se trabalha no próximo grande projecto. Elon Musk prevê que a companhia faça dentro de uma década a primeira viagem tripulada até Marte, explicando que é importante a criação de uma colónia permanente no Planeta Vermelho. A viagem de ida e volta levará dois anos e meio - seis meses até lá chegar, 18 meses à espera que os dois planetas fiquem realinhados, isto é, que a distância entre ambos seja a menor possível, e mais seis meses para regressar.

Jim Cantrell tem um palpite: “Quando ele fala da primeira missão a Marte, suspeito que ele queira ser o primeiro a pilotá-la. Ele não sabe se regressará, mas isso também não é um problema. O Elon quer ser o primeiro a lá chegar e tornar-se o símbolo de uma espécie interplanetária”.