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Christopher Morris: “Os media estão demasiado vulneráveis ao correio do leitor”

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O muito premiado fotógrafo norte-americano, freelancer ao serviço da “TIME”, tem uma exposição em Viana do Castelo, onde fez parte do júri do Prémio Estação Imagem

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

Entrevista

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

Foto

Fotojornalista

luís barra

Ser agredido por um agente secreto durante um comício de Donald Trump tornou-o em escassos minutos uma estrela mediática à escala global. Um detalhe na carreira de Christopher Morris, 58 anos, um fotógrafo com presença assídua nos grandes conflitos mundiais que um dia reparou ter em casa uma filha de dois anos a quem nunca fotografara. Foi o ponto de viragem num percurso feito de egoísmo e de vontade de construir uma memória documental do mundo.

As grandes corporações de media estão a desinvestir no fotojornalismo?
Sim, esse é um grande problema. Tive contrato com a revista “Time” desde 1999. Cobri para eles a Casa Branca durante nove anos. Em outubro de 2009, Barack Obama recebeu o Prémio Nobel da Paz. O primeiro Presidente afro-americano ir a Oslo receber o Nobel era um momento histórico. A “Time” decidiu não me enviar porque ficaria muito caro. Mas enviaram três jornalistas, um deles para escrever no blogue. Foi uma decisão desastrada. Daqui a 15 anos ninguém vai estar interessado em ler o blogue. E, por outro lado, a “Time” não terá um arquivo fotográfico daquele momento. Há muitos fotojornalistas numa luta tremenda pela sobrevivência. Até quando vão aguentar?

Concorda com o fotojornalista Michael Kamber quando diz que o problema com a guerra do Iraque era, ao contrário do que aconteceu na guerra do Vietname, ter demasiadas imagens?
Não, não concordo. Isso leva-nos ao que são as decisões editoriais do “New York Times” e outros grandes media, que se tornaram sobretudo um grande negócio. Já não tem a ver com jornalismo. Tem antes a ver com satisfazer o que o leitor quer e não o que o leitor precisa. Para agitar a opinião pública é preciso, por vezes, bater-lhes na cabeça com poderosas fotografias da guerra. Estão demasiado vulneráveis à opinião do correio dos leitores. Na guerra do Vietname, os fotógrafos não estavam pressionados pela opinião pública, como estão agora.

É a pressão do politicamente correto?
Sim, os fotógrafos que cobrem conflitos recolhem imagens brutais e chocantes, mas os media ocidentais não as querem publicar. Não querem perturbar a audiência. Mas esse não é o seu papel. Os media deviam perturbar o público porque estão a ocorrer atos ofensivos. Há civis a serem mortos, soldados a serem feridos. Essas imagens têm de ser mostradas.

No meio de uma guerra pergunta-se a si próprio o que está ali a fazer?
Coloco sempre essa questão. Nunca tive essas grandes ideias de que iria mudar a sociedade. Estou lá por algo tão egoísta como querer testemunhar a história e fazê-lo o mais próximo possível. Percebi rapidamente que os media não iriam publicar o trabalho que eu achava que devia ser mostrado. Ainda assim continuo a tentar documentar a componente diabólica e o absoluto horror da guerra. Se me distancio um pouco posso pensar na estupidez e egoísmo contido nesta profissão. Tenho muitos amigos que perderam a vida a tentar tirar uma fotografia de guerra. Porquê? É a pergunta que coloco.

Já lhe aconteceu ter de esquecer a estética da foto para, antes de mais, salvar a sua vida?
Em qualquer conflito há constantemente momentos em que se esquece a câmara ou a fotografia. Basicamente tenta-se sobreviver. Pode-se tirar algumas fotos sem qualquer valor estético, mas olha-se para elas e a única pessoa que consegue retirar dali alguma emoção é quem as tirou. Para o público não significam nada. Isso constitui um falhanço do fotógrafo. Há fotógrafos, como Frank Cappa, Don McCullin, Dave Douglas Duncan, Luc Delahaye e outros que sob condições extremas conseguiram fazer fantásticas fotos do ponto de vista estético.

Consegue entender os jovens fotógrafos cujo sonho maior é irem fotografar a guerra?
Eu tive os mesmos sonhos. Via as fotos da guerra do Vietname e fascinava-me que houvesse lá pessoas que não eram soldados. Eram homens com uma câmara. É estranho, mas sonhava com aquela vontade de testemunhar a espécie humana no seu pior. De novo, é uma ideia muito egoísta. Temos pais, mulher, filhos, pessoas a quem temos de cuidar. Deixamos tudo para trás e deixámo-los sob o stresse extremo.

Também ficava sob tensão?
Eu mesmo ficava sob uma grande tensão, porque havia ali uma questão de sobrevivência. No ano 2000 apercebi-me que tinha uma filha de dois anos que nunca tinha fotografado. Então perguntei-me porque estava ali a tentar fotografar um idiota com uma metralhadora quando tinha em casa uma criança que nunca tinha fotografado. Quando tiver 70 ou 80 anos que valor terá para a minha vida a foto deste homem com uma arma? A foto que terá valor será a da minha filha com dois anos de idade. É a foto que me poderá fazer chorar quando for mais velho. A outra foto tem um valor para a sociedade, mas com que custo para mim, se ainda por cima a sociedade não quer ver aquelas fotos?

O que caracteriza o seu projeto “The Americans”?
É o meu fascínio pessoal por uma época única na América, depois do 11 de Setembro, quando a Administração Bush construiu todo aquele medo e paranoia na nação. Vi o nacionalismo cego da América. Isso chocou-me. Fiz um livro chamado “My America”. Era um olhar sobre uma espécie de nação zombie. Depois foi eleito Obama e descobri um novo otimismo. Foi depois do colapso económico de 2008 e encontrei um país demasiado cansado de guerra. No meu trabalho fui muito seletivo no que fotografava. Se via miúdos felizes a brincar e a sorrir num parque, isso não se encaixava na narrativa que eu estava a construir. Não me interessava. Fui levado pela procura de fotos depressivas. É a verdadeira visão da América? Não. Há pessoas felizes. Mas era a minha visão pessoal. Também tinha perdido o meu lugar na Casa Branca. Fiquei numa situação económica muito complicada. Levei dois ou três anos a recuperar. Estava eu próprio mergulhado numa profunda depressão.

Artigo publicado na Revista E do Expresso de 23 abril 2016