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“As escolas portuguesas ainda não fizeram a transição do ensino do século XX para o século XXI”

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Nuno Fox

Em entrevista ao Expresso, por e-mail, Andreas Schleicher, diretor do departamento de Educação e Competências da OCDE, fala do que é preciso mudar no ensino para garantir jovens bem sucedidos, num mundo que “já não recompensa as pessoas apenas por aquilo que sabem - o Google sabe tudo – mas por aquilo que conseguem fazer com isso”

Andreas Schleicher, diretor do departamento de Educação e Competências da OCDE, é o responsável máximo pelos testes PISA - as provas que não fazem tremer os alunos que as realizam, mas os países que participam neste estudo. Portugal tem vindo a melhorar, mas ainda está longe dos melhores desempenhos. O método de ensino nas escolas portuguesas tem de evoluir para se adaptar às novas exigências, frisa Schleicher, que é um dos oradores convidados da conferência “Currículo para o Século XXI: competências, conhecimentos e valores numa escolaridade de 12 anos”, promovida pelo Ministério da Educação e que se realiza este sábado.

O conselheiro da OCDE é considerado uma das pessoas mais influentes no sector da Educação, tal a quantidade de países que promoveram reformas no seu sistema de ensino devido aos fracos resultados alcançados nos testes do PISA, que criou em 2000.

O Programme for International Students Assessment (PISA) é a maior comparação internacional na área da Educação, conduzida em 65 países e economias e aplicada a uma amostra de mais de meio milhão de jovens, de três em três anos. Quando os resultados são divulgados, o mundo fica a saber quem melhorou, quem piorou e quem se destaca nestes rankings que testam a literacia matemática, científica e de leitura dos alunos aos 15 anos.

Que competências devem ter os alunos no século XXI?
Há uma geração, os professores tinham a expectativa de que o que ensinavam aos alunos seria válido ao longo de toda a vida. Hoje, as escolas têm de preparar os estudantes para uma mudança socioeconómica mais rápida do que alguma vez foi, para empregos que ainda nem sequer foram criados, para usar tecnologias que ainda não existem e resolver problemas que ainda não sabemos que vão surgir. O sucesso educativo já não reside maioritariamente na reprodução de conteúdos, mas na extrapolação daquilo que sabemos e na sua aplicação criativa a situações novas. Ou seja, o mundo já não recompensa as pessoas apenas por aquilo que sabem — o Google sabe tudo — mas por aquilo que conseguem fazer com isso. Por isso, a educação tem cada vez mais que ver com o desenvolvimento da criatividade, do pensamento crítico, da resolução de problemas e da tomada de decisões; e com formas de trabalho que implicam comunicação e colaboração. Se passarmos toda a nossa vida fechados numa única disciplina, não conseguiremos desenvolver as competências para perceber de onde virá a próxima grande invenção. É por isso que fazemos das “Competências Globais” o foco do próximo teste do PISA. Mas penso que no século XXI temos de ir mais além e reconhecer que o conhecimento e as competências não são suficientes per se. Os banqueiros que arruinaram o nosso sistema financeiro eram, provavelmente, pessoas altamente criativas e com espírito crítico. E alguns dos que têm o espírito mais empreendedor estão à frente de organizações mafiosas, em vez de servirem o seu país. Por isso, temos também de ter em conta qualidades mais vastas a nível do carácter, como a empatia, a resiliência, a curiosidade, a coragem, a liderança e também os valores. Fazer isto de forma pensada e sistemática é o que mais distingue o currículo do século XXI do ensino tradicional.

Os alunos portugueses têm mais horas de aulas do que na Finlândia, o país europeu com melhor desempenho no PISA. Isto prova que mais horas não é sinónimo de mais sucesso?
Quando olhamos para a relação entre o número de horas de aulas e os resultados educativos dentro de cada país, encontramos uma relação positiva. Ou seja, horários mais preenchidos compensam. Mas quando fazemos comparações entre os diferentes países, vemos que não existe qualquer relação entre as duas coisas. Isso diz-nos que os resultados educativos são sempre fruto da quantidade e da qualidade do ensino. Na Finlândia, a qualidade das experiências educativas é muito alta, pelo que os estudantes conseguem ter bons resultados, mesmo tendo um horário mais curto do que outros países.

Daquilo que conhece do currículo educativo em Portugal, o que lhe parece que falta ou que deve ser mudado?
Se olharmos para os dados do PISA, os alunos portugueses tendem a ter boas prestações em tarefas que exigem uma reprodução dos conteúdos ensinados na escola. Mas não são tão bons ao nível da aplicação criativa dos conteúdos. Nesse sentido, as escolas portuguesas ainda não fizeram a transição do século XX para o século XXI.

Como avalia a participação dos alunos portugueses nos testes do PISA ao longo dos anos?
De forma muito positiva. Portugal registou desde 2000 uma das melhorias mais acentuadas entre todos os países da OCDE.

Que fatores mais contribuem para os países terem bons resultados no PISA?
Nos sistemas tradicionais mais burocráticos, os professores são frequentemente deixados sozinhos nas salas de aula e é-lhes dito tudo o que têm de ensinar. Já as escolas com melhores desempenhos estabelecem metas ambiciosas, são claras acerca do que os estudantes devem ser capazes de fazer, mas dão aos docentes a autonomia para definir que conteúdos e que tipo de ensino precisam de dar aos seus alunos. Muitas vezes alunos diferentes são ensinados da mesma forma. Mas as melhores escolas aceitam a diversidade, usando práticas pedagógicas diferenciadas. No passado o ensino era centrado no currículo; no futuro, será centrado no aluno.