Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A luz que cura: a história dos meninos de Chernobyl que se foram salvar a Cuba

  • 333

Três décadas depois do maior acidente nuclear da História, em Chernobyl, ainda não são conhecidas as consequências da explosão, mas sabe-se que as crianças foram as principais vítimas. Muitas delas foram para Cuba receber tratamento, por vezes durante anos. E há recuperações que são verdadeiros milagres médicos. Republicamos a reportagem publicada originalmente na revista do Expresso em 22 de abril de 2006

REPORTAGEM Daniel Cruzeiro (textos) e Renato Freitas (fotografias), em Cuba e na Ucrânia *

Tratamento. Anastasia curou uma escoliose e uma gastrite e recuperou todo o cabelo. Ao contrário de Natasha, há menos tempo em Cuba

Tratamento. Anastasia curou uma escoliose e uma gastrite e recuperou todo o cabelo. Ao contrário de Natasha, há menos tempo em Cuba

Vassily Gomelak, de 11 anos, tem o corpo manchado pela vitiligo. Sozinho em Cuba há meio ano, submete-se a tratamentos diários. Logo de manhã, o seu corpo é besuntado de cloreodermina e exposto a sessões de infravermelhos; a tarde é passada na praia, na brincadeira com os amigos; à noite há festas organizadas pelos animadores. As atividades lúdicas e desportivas também fazem parte do tratamento das crianças ucranianas afetadas pela explosão nuclear de Chernobil.

Vassily Gomelak

Vassily Gomelak

Vassily tem fé na cura. Mas o caso que é hoje apresentado como o resultado de um milagre médico não é o seu - é o de Vladimir «Salaki». Em Moscovo, tinham-lhe diagnosticado uma doença neuromuscular incurável. Após 12 anos de tratamento em Cuba, já consegue caminhar, é autónomo a comer, senta-se, deita-se e reduziu a dose diária de 78 para apenas seis medicamentos. O seu caso é estudado por especialistas de todo o Mundo.

Vladimir «Salaki» é o mais antigo beneficiário de um programa cubano de ajuda médica a crianças vítimas do acidente nuclear de Chernobil. Está com a mãe há 12 anos, no complexo hospitalar de Tarara, a 30 km de Havana. Tarara é um antigo porto comercial transformado numa estância médica e balnear. As centenas de moradias que se estendem, a partir da praia, por 11 km quadrados, já foram propriedade da burguesia cubana, no tempo de Fulgêncio Batista, ocupadas depois da Revolução pelos pioneiros comunistas, são hoje a montra da solidariedade política internacional do regime de Fidel Castro.

Já aqui estiveram a ser tratadas, ao mesmo tempo, mais de duas mil crianças vítimas de Chernobil. Hoje não chegam a centena e meia, repartem o espaço com os pacientes da «Missão Milagre», um programa de ajuda aos países da América Latina, com a Venezuela de Hugo Chávez no topo da lista. Na cantina de Tarara, essa divisão é evidente, de um lado crianças de olhos claros, loiras ou sem cabelo, do outro adultos de tez morena, roupas pesadas e traços andinos.

O programa «As Crianças de Chernobil» foi criado em 1990, quatro anos após o acidente nuclear. Resistiu ao fim da União Soviética, mas só a Ucrânia assinou o protocolo com o Governo cubano. Rússia e Bielorrússia já não beneficiaram da ajuda médica. Arseni Laurenti, médica de clínica geral e vice-diretora do programa, refuta qualquer aproveitamento político. «É um projeto humanitário de solidariedade, não tem cabimento falar de política quando mantivemos o programa mesmo depois do desmembramento da antiga União Soviética. A Ucrânia votou contra nós, na questão dos direitos humanos no nosso país. Se isto fosse um projeto político, tínhamos rompido».

Vladimir «Salaki» na escola onde ele e outros afetados de Chernobil têm aulas, em russo, apenas duas horas por dia, das 14 às 16 horas

Vladimir «Salaki» na escola onde ele e outros afetados de Chernobil têm aulas, em russo, apenas duas horas por dia, das 14 às 16 horas

renato freitas

Já foram tratadas quase vinte mil crianças, nenhuma tanto tempo como Vladimir «Salaki». A mãe, Svetlana Zaslavskaya, é enfermeira, tem 44 anos, deixou a família, o país, tudo para estar com o filho, 24 horas por dia, durante 12 anos. Quando chegaram a Cuba, era ela quem transportava «Salaki», ao colo, para a praia, onde tomava banhos de mar, ou para o quarto, pelas escadas, num primeiro andar. «Foi um período negro, porque o Vladimir estava num estado em que a cabeça tocava nos calcanhares. Para dizer com sinceridade, nem me apetecia continuar a viver», recorda. Vladimir diz que é a sua «mãe coragem», ela responde que qualquer mãe faria o mesmo. Quem aguentaria ver o corpo de um filho em degradação, aos sete anos, minado por uma doença desconhecida?

É o trajeto de dor, que aí começou, que Svetlana recorda quando revê as imagens que antecedem a segunda operação ao cérebro, que salvou o filho. Imagens com mais de três anos, que a emudecem, na medição da cabeça de Vladimir antes de ser operado. Os olhos de verde transparente perdem-se no ecrã do mini-DV, quando recorda o filho a seguir na marquesa para a sala de operações. E o seu olhar firme acompanhou-o, como se o destino do filho dela estivesse dependente.

Vladimir com a mãe, que está com ele há doze anos em Cuba

Vladimir com a mãe, que está com ele há doze anos em Cuba

renato freitas

Pelas ruas de Tarara, Svetlana continua a empurrar a cadeira de rodas de Vladimir. Mas agora, mãe e filho, já têm futuro. O tratamento está na reta final, querem voltar à Ucrânia, para junto da família e esquecer um pesadelo, que os uniu para sempre, chamado Chernobil.


«Salaki» tinha três anos a 26 de abril de 1986, data do desastre nuclear. Acredita que a sua doença está relacionada com o acidente, «e os médicos também», acrescenta. É um veredicto que se antecipa à própria ciência. Vinte anos depois, não são conhecidas as verdadeiras consequências do acidente de Chernobil, designadamente no campo da saúde. Os mais recentes relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da ONU garantem que os efeitos atribuídos ao acidente têm sido exagerados. Ainda não foi possível estabelecer uma relação causa-efeito entre a explosão nuclear e as mutações genéticas que se verificaram posteriormente, na Ucrânia ou na Bielorrússia. O mesmo se pode dizer em relação à leucemia e a outras doenças do foro oncológico. Até hoje só uma doença grave está diretamente relacionada com Chernobil: o cancro da tiróide.

Tarara é considerada uma zona «Talasso», ou seja, rica em iodo, e com o clima ideal para o tratamento das doenças da tiroide. Ao contrário, a Ucrânia está situada numa zona endémica de bócio, falta iodo no ambiente, aí o cancro da tiroide pode ser mortal. Para conseguir taxas de êxito perto dos 100%, o tratamento passa por exposição solar, banhos de mar, dias de praia.

O Centro de Histoterapia Placentária abre portas antes das sete horas da manhã. A enfermeira Graciela Leon é a primeira a chegar. Do alto do seu metro e oitenta, dá os bons-dias aos meninos que rompem a madrugada, ainda ensonados, enquanto prepara os compostos de placenta humana. Uma equipa médica liderada pelo cubano Carlos Myiares Cao, após 20 anos de investigação, descobriu na placenta humana propriedades curativas para doenças dermatológicas como a psoríase, o vitiligo ou a alopecia. Os produtos começaram por ser aplicados em ratos. Agora fazem parte de um tratamento de ponta, no campo da dermatologia, sem contraindicações, efeitos secundários e com uma taxa de sucesso de quase 85%. «Na alopecia ponho pilotrofina, aplica-se a loção uma vez por dia e depois 15 minutos debaixo dos infravermelhos», explica a enfermeira enquanto aplica o produto na cabeça calva de Arturo.

Nos últimos meses, todos os dias de Arturo Luchkov, de quatro anos, começam numa cozinha adaptada a sala de infravermelhos. Fica um quarto de hora debaixo da lâmpada de cor alaranjada, foi-lhe diagnosticada alopecia. A mãe, Elena Topka, médica oftalmologista, acompanha o filho em cada passo do tratamento. Conta que os primeiros sinais surgiram quando Arturo tinha dois anos e meio. «Primeiro apareceu uma pelada do tamanho de uma moeda que começou a crescer até ele ficar completamente calvo». Elena decidiu candidatar-se ao programa cubano quando teve acesso às análises que revelavam a presença de um metal pesado no cabelo do filho. Pensou, pela primeira vez, que também Arturo podia ser uma vítima de Chernobil.

Arturo Luchkov, de quatro anos, tem alopecia. Em dois meses renasceram-lhe os primeiros cabelos

Arturo Luchkov, de quatro anos, tem alopecia. Em dois meses renasceram-lhe os primeiros cabelos

renato freitas

Bastaram dois meses para que renascessem os primeiros cabelos de Arturo. Mas nem todas as crianças conseguem resultados tão rápidos. Bagdam tem nove anos, está em Tarara há dois, e continua com alopecia total. A estabilidade psicológica é determinante para o êxito do tratamento. «Bagdam é intranquilo, não sei se é falta da mãe», arrisca Graciela. A mãe teve de regressar à Ucrânia para tomar conta da irmã mais nova, Bagdam ficou a viver com outra família ucraniana. Guarda as saudades no silêncio e brinca sozinho com o avião de papel que teima em não voar. Bagdam não desiste, acredita que o aviãozinho um dia voe e o leve numa asa para o colo da mãe.

O internato de menores, sem a companhia dos pais, é uma situação prevista em Tarara. Igor, Alexander e Vassily estão nessas condições. Nada os separa, do tratamento matinal às festas noturnas organizadas pelos animadores, dos jogos de bola aos longos dias praia. Têm no corpo o mesmo mapa de dor e a mesma solidão noturna. Vassily é o mais novo. «Aos dois anos apareceram as primeiras manchas e a minha mãe pensou que era varicela», diz, com um sorriso que esconde o tormento que lhe agita o peito. Só quando lhe perguntam se tem saudades dos pais, chora convulsivamente. São momentos de embaraço até para os amigos «Sasha» e Igor, que baixam os olhos e ficam sombrios. Também a eles lhes fazem falta os pais. Mas as lágrimas acabam por secar e há sempre uma bola a rolar em Tarara. «Sacha» e Igor puxam Vassily porque o jogo tem de continuar.

As atividades lúdicas e desportivas são indispensáveis para a recuperação psicológica das crianças. Todos os animadores falam russo ou até ucraniano. Há médicos, enfermeiros, funcionários cubanos, que estudaram na antiga União Soviética e que também dominam a língua de Tolstoi e Dostoievski. Contam que o pior período que viveram em Cuba foi imediatamente a seguir ao colapso da União Soviética. Faltava dinheiro, comida, medicamentos, sobrava açúcar, de tão dependente que estava a economia cubana do seu aliado da Guerra Fria. Acabaram-se os tempos da Cortina de Ferro. Cuba ficou onde estava, a Ucrânia tornou-se independente e capitalista. Nada que impeça a ucraniana Elena Onishenko, diretora do programa, de expor, na parede da casa, os retratos de Fidel Castro e de Viktor Yushchenko, Presidente ucraniano. «São símbolos nacionais, apenas isso», afirma, para evitar escolher entre a revolução laranja da Ucrânia e a vermelha cubana. «Comemos o pão dos cubanos, estamos gratos a Cuba, nenhum outro país economicamente mais desenvolvido assumiu esta responsabilidade».

A morte já não ensombra Tarara

Elena faz lembrar uma veterana lançadora de peso soviética. Mede quase um metro e noventa e tem um sorriso tímido que não chega para ocultar o ouro abundante dos dentes. Em Kiev era professora de Psicologia, veio para Cuba dirigir a escola ucraniana de Tarara. Passaram dois anos, agora faz a ligação ao Fundo Internacional de Chernobil, que escolhe as crianças participantes no programa.

Elena partilha, com a diretora da escola que a substituiu, a mesa de trabalho, as preocupações com as crianças e uma paixão antiga por «El Comandante». «Quando Fidel conseguiu liderar uma revolução e fazer de Cuba um país independente, as mulheres na Ucrânia apaixonaram-se por ele», confessa, divertida, Radezda Priadko, diretora da escola, na sala de professores, a primeira das quatro salas que compõe a escola. As aulas são todas dadas em russo, apenas duas horas por dia, da 14 às 16. Os alunos repartem-se em quatro classes. Trata-se de uma escola tipo sanatório, «onde a principal tarefa é o tratamento», justifica Radezda.

Todos os anos, no dia 26 de Abril, à semelhança do que acontece nas escolas ucranianas, o acidente nuclear de Chernobil é evocado em Tarara. «Às crianças ucranianas não é preciso falar muito da tragédia, porque o assunto está presente nas famílias, há quase uma vítima em cada família». A gestão das palavras e dos silêncios é o território de Alexis Ruíz, o chefe do departamento de Psicologia. Apesar de só ter 41 anos, já é um veterano de Tarara, integra o programa desde o primeiro ano e conhece em profundidade a cultura eslava.

Respeitar o silêncio, e criar condições para que o tempo o derrube, é uma das tarefas dos psicólogos. Sobretudo em crianças com doenças terminais, «no que se chama acompanhamento para a morte». Em Cuba morreram poucas crianças, menos de uma dezena, mas cada caso é inesquecível. «Recordo um adolescente que faleceu no ano de 1993, entrava em coma, recuperava, e em nenhum momento, mesmo quando estava perto da morte, o que dizia tinha a ver com a morte, eram tudo manifestações de alegria».

A morte já não ensombra Tarara. As leucemias, por exemplo, deixaram praticamente de ser aqui tratadas. «Realmente é um tratamento muito caro, e tem havido contraindicações em relação ao banhos de sol e mar e isso limita-nos», adianta Arsenia Laurenti. É esta mulher ruiva, de baixa estatura, com o rosto salpicado de sardas, que lidera um exército de bata branca que integra 31 médicos, três dentistas, 82 enfermeiros. «Creio que na minha carreira isto foi o mais bonito que me sucedeu». Assim começam todas as semanas em Tarara: Laurenti, à frente de um grupo multidisciplinar, faz a ronda por todas as casas do complexo. As crianças que integram o programa são pesadas, relatam o fim de semana, é-lhes feita uma consulta ambulatória A ronda médica dura uma manhã inteira. Há famílias que preparam um chá ou café de cortesia, há crianças que requerem mais atenção.

A ausência de Stefania

Stefania Shablia, de sete anos, tinha um hemangioma cavernoso no rosto, um tumor que lhe desviava a postura labial e facial e que não parava de crescer e sangrar. Foi submetida a quatro operações e ainda espera por uma quinta intervenção. O tumor não foi todo removido, mas Stefania recuperou o rosto de boneca. Agora, enquanto espera pelo transplante do nervo facial, vai todas as semanas a Havana, para ser observada pelo neurocirurgião que a operou. É ele quem lhe ministra injeções de interferona, uma proteína animal que reforça o sistema imunitário. Num rosto tão fustigado, os tempos de espera são essenciais para não o lesionar definitivamente.

Stefania tem um tumor no rosto, que não parava de crescer e sangrar. Não foi todo removido, mas a menina já recuperou o rosto de boneca

Stefania tem um tumor no rosto, que não parava de crescer e sangrar. Não foi todo removido, mas a menina já recuperou o rosto de boneca

renato freitas

«Ela nasceu com uma pequena mancha na cara, foi operada quando tinha um mês de idade e a mancha começou a crescer», recorda a mãe, Tatiana Maliovana, com 34 anos e há dois em Cuba. Perto de Livov, a cidade mais ocidental da Ucrânia, deixou uma filha de 15 anos a viver sozinha. Tatiana não tem pais, o marido tomou rumos desconhecidos, restam-lhe duas filhas que, por causa de Chernobil, estão separadas por um hemisfério. Cada carta que recebe de Igna, a filha mais velha, é uma pedra que lhe entra pelo coração dentro. Treme-lhe o lábio inferior e a retina azul marinho, como quem engole lágrimas, quando medita na incerteza: «Não sei quando termina o tratamento da Stefi, não sei quando poderei regressar». Apesar de se sentir uma ilha, Tatiana sorri sempre, sobretudo quando vê a filha a saltar a corda, a jogar à macaca, a fingir que é feliz.

Elena Torop tem melhor sorte. Está com a filha em Cuba vai para três anos. Anastasia já curou uma escoliose e uma gastrite, e recuperou todo o cabelo que perdera. O pai, Serguey, já soube dos progressos da filha, pelo telefone. Deixou uma criança de 11 anos em Tarara, espera pela adolescente de quase 14 em Kiev. Sofre por não ver Anastasia crescer: «Sinto que a voz dela mudou, a entoação é outra, já não é uma voz infantil».

Serguey é um homem torturado pela ausência da filha. As saudades moram em cada canto do pequeno 9.º andar nos subúrbios de Kiev, onde vive sozinho. São duas assoalhadas de vazio e tristeza. A sala era também o quarto de Anastasia, estão lá os brinquedos, os peluches, as fotografias de uma menina sem cabelo.

Em Junho, Anastasia Torop regressa à Ucrânia. Vai abraçar o pai, reintegrar-se numa sociedade marcada por um fantasma. Não sabe se o cabelo voltará a cair, se a escoliose e a gastrite retornarão. Mesmo aparentemente curada, Anastasia sabe que tem Chernobil inscrito na sua vida. Cuba foi uma pausa na dor e no sofrimento.

De zona de exclusão a reserva natural

A explosão da madrugada de 26 de Abril de 1986 libertou níveis de radiação 100 vezes superiores à bomba de Hiroxima, originou um incêndio na central nuclear que demorou 10 dias a ser extinto e derreteu parte do interior do reator 4, com temperaturas acima dos 2.000º C.

20 anos depois, o reator continua parcialmente inacessível. Estima-se que só 3 % do conteúdo radioativo se tenha escapado para a atmosfera e que, nas zonas inferiores, haja urânio enriquecido e plutónio suficientes para fabricar dezenas de bombas atómicas.

Ninguém sabe exatamente o que existe nas zonas inferiores do reator 4 e o risco de um novo acidente não é negligenciável. Para o evitar, trabalham no que resta da central mais de 3.500 pessoas, em turnos de 15 minutos, por causa dos elevados níveis de radioatividade. Tentam garantir a estabilidade da estrutura do reator, medem a radiação e monitorizam os locais inacessíveis.

O reator 4 está envolvido por um sarcófago de aço e betão que corre risco de colapso. Foi uma obra feita à pressa, em seis meses - e para durar pelo menos 20 anos. Hoje, a estrutura está demasiado danificada. A fachada ocidental inchou vários centímetros, a água da chuva e a neve derretida penetram nas fendas. A construção de um novo abrigo de segurança, orçado em mais de 670 milhões de euros, poderá começar ainda este ano. Será a maior estrutura móvel jamais construída (ver infografia).

À sombra do medo, o futuro de Chernobyl é incerto. Há quem defenda a transformação da velha central num centro de tratamento de resíduos nucleares. E há também quem vaticine que, sem a presença do homem, a zona de exclusão pode tornar-se numa reserva natural. A natureza regressou em força àquele desertificado território. As florestas dilataram o seu espaço e os animais descobriram um novo ecossistema. «A natureza é muito mais forte do que pensamos», diz Rimma Kiscelitsa, há 11 anos destacada em Chernobyl. Pelo menos nas próximas duas gerações, enquanto o medo pairar sobre Chernobyl e o Cesium 137 ainda tiver esperança de vida, ali, o homem não voltará a agredir a natureza. E as várias espécies animais, algumas em vias de extinção, como as águias-rabalvas, podem continuar a cruzar o céu de Chernobyl.

Sobreviver à cidade que não existe

Na zona de exclusão de Chernobil não há crianças. São mais de 30 km quadrados de silêncio e abandono

Quase 400 mil pessoas foram retiradas de casa, a seguir ao acidente nuclear, por causa dos altos níveis de radiação. A central nuclear está no coração desse território maldito, que a norte se estende até à Bielorrússia. Quem passa a cancela que separa a zona de exclusão do resto do mundo sente-se dentro de um romance neorrealista russo, a caminho da Sibéria.

Olga Gravilenko à porta de casa, onde regressou desafiando a proibição

Olga Gravilenko à porta de casa, onde regressou desafiando a proibição

renato freitas

Houve quem não se adaptasse à vida pós-acidente, fora de Chernobil. Anastasia Tchikalovets tem 82 anos, é uma das quase 400 pessoas que regressaram à zona proibida um ano depois da explosão. Num primeiro tempo foi autorizada pelo Governo ucraniano a voltar a casa, mas quando quiseram retirá-la novamente disse preferir morrer a sair. A história de Anastasia é feita de evacuações e regressos. Em 1942 foi levada para a Alemanha pelas tropas nazis; regressou cinco meses depois, a morrer de febre e de fome. Em 1986 foi levada para a cidade. «Deram-me um apartamento, no 5º andar de um prédio próximo de Kiev. Nem com algemas lá ficava. Agora só saio daqui para o cemitério, para junto do meu marido», afirma, enquanto enche o copo de vodka caseira e propõe um brinde em memória do companheiro de toda uma vida.

Anastasia está viúva há meio ano. Opachichi, a aldeia onde vive, já contou com mais de três mil habitantes. Hoje são apenas 19 pessoas. Está rodeada por densas florestas e no Inverno a neve torna as estradas intransitáveis. São dias a fio, semanas inteiras, isolada de tudo. Junto à casa de madeira tem uma horta onde planta quase tudo o que come, sem receio da radioatividade: «Se houvesse alguma radiação aqui eu já estaria morta há muito tempo». Nas matas próximas de casa apanha cogumelos - o produto mais perigoso da região. «São os melhores cogumelos do mundo», assegura com uma energia surpreendente para os seus 82 anos. «As pessoas que foram embora daqui morreram quase todas e eu estou de ótima saúde, só tenho medo que me tirem daqui».

  • A “história omitida” de Chernobyl

    Svetlana Alexievich foi distinguida pela Academia Sueca em 2015 pela sua obra “polifónica”, descrita como “um memorial ao sofrimento e à coragem da nossa época”. No dia em que se assinala o 30.º aniversário do desastre nuclear de Chernobyl, falamos sobre o seu livro “Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear”, que dá voz a quem viveu a situação de perto, entre habitantes das aldeias, bombeiros, soldados, cientistas, médicos, sobreviventes, familiares e amigos dos que morreram