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Descoberto primeiro cometa rochoso igual aos fragmentos que formaram a Terra

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Impressão artística do primeiro cometa rochoso sem cauda descoberto, o Manx ou C/2014 S3 (PANSTARRS). O seu estudo pode dar-nos pistas importantes sobre a formação da Terra e do Sistema Solar

ESO/ M. Kornmesser

Uma equipa internacional de astrónomos descobriu um objeto rochoso único que parece ser constituído por matéria do Sistema Solar interior na altura da formação da Terra, há 4,6 mil milhões de anos

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

As observações feitas pelos astrónomos indicam que se trata de um corpo rochoso antigo e não de um asteróide contemporâneo que se afastou. Como tal, é um dos potenciais blocos constituintes dos planetas rochosos como a Terra, que foi expelido para fora do Sistema Solar interno e preservado em congelamento profundo na Nuvem de Oort durante milhares de milhões de anos.

A Nuvem de Oort é uma região enorme que rodeia o Sol como uma espessa bolha de sabão gigante, nos confins do Sistema Solar. Estima-se que contenha biliões de pequenos corpos gelados. Ocasionalmente, um destes corpos é empurrado para o Sistema Solar interno, onde o calor do Sol o transforma num cometa. Pensa-se que estes corpos gelados tenham sido ejectados a partir da região dos planetas gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno), quando estes se estavam a formar, nos primeiros tempos do Sistema Solar.

O C/2014 S3 (PANSTARRS) é um cometa rochoso sem cauda a que foi dado o nome de cometa Manx. As

observações forma obtidas com o supertelescópio terrestre Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul, no Chile (ESO, organização a que Portugal pertence) e com o Telescópio Canadá-França-Havai, e é o primeiro objeto a ser descoberto numa órbita cometária de longo período, com as características imaculadas de um asteróide do Sistema Solar interior. O seu estudo pode dar-nos pistas importantes sobre a formação do Sistema Solar.

Karen Meech, investigadora do Instituto de Astronomia da Universidade do Havai e principal autora do artigo científico sobre a descoberta, publicado ontem na revista "Science Advances", explica que "conhecemos a existência de muitos asteróides, no entanto todos eles estão já “cozinhados” pelos milhares de milhões de anos que passaram perto do Sol. Este é o primeiro asteróide “cru” que observamos, tendo sido preservado no melhor congelador que existe", isto é, a Nuvem de Oort.

O C/2014 S3 (PANSTARRS) foi originalmente identificado como sendo um ténue cometa ativo, quando estava um pouco mais afastado do que duas vezes a distância da Terra ao Sol. O seu atual período orbital longo (cerca de 860 anos) sugere que a sua fonte será a Nuvem de Oort e que terá sido empurrado relativamente há pouco tempo para uma órbita que o traz próximo do Sol.

Um cometa sem cauda

A equipa de astrónomos que o observou reparou imediatamente que o C/2014 S3 (PANSTARRS) era invulgar, uma vez que não possui a cauda característica que a maioria dos cometas de período longo desenvolvem quando se aproximam demasiado do Sol. Um estudo cuidado da luz refletida pelo C/2014 S3 (PANSTARRS) indica que se trata de um asteróide típico do chamado Tipo S, encontrado geralmente na cintura principal interna de asteróides entre Marte e Júpiter.

Não é parecido com um cometa típico, objetos que se pensa serem formados no Sistema Solar exterior e que são gelados em vez de rochosos. O material parece ter sido pouco processado, indicando que esteve congelado durante um longo período de tempo. A extremamente ténue atividade do tipo cometário associada ao C/2014 S3 (PANSTARRS), que é consistente com a sublimação do gelo de água, é cerca de um milhão de vezes menor que nos cometas ativos de período longo, com cauda, que se encontram a distâncias semelhantes do Sol.

Os astrónomos concluem que este objeto é provavelmente constituído por material do Sistema Solar interior que esteve guardado durante muito tempo na Nuvem de Oort (Sistema Solar exterior) e que agora encontrou o seu caminho de volta.

O co-autor do artigo científico da descoberta, Olivier Hainaut, investigador do ESO em Garching, na Alemanha conclui: “Descobrimos o primeiro cometa rochoso e estamos à procura de outros. Dependendo de quantos encontrarmos, saberemos se os planetas gigantes “dançaram” ao longo do Sistema Solar quando eram jovens, ou se cresceram pacatamente sem grandes deslocações”. A equipa internacional que fez a descoberta é composta astrónomos dos EUA, Chile, Alemanha, Itália e França.