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Admissões. Como a Câmara do Porto elimina candidatos

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Rui Duarte Silva

A Câmara do Porto tem um método eficaz para combater o excesso de candidatos às vagas de quadros técnicos. Marca à mesma hora as provas de concursos destinados ao mesmo público-alvo

A Câmara Municipal do Porto (CMP) encontrou um expediente eficaz e cínico para combater o excesso de candidatos às vagas de quadros técnicos, eliminando à partida uma parte dos admitidos. Marca à mesma hora as provas de concursos da mesma área e que contam com muitos candidatos comuns.

Por exemplo, as seis vagas (três concursos) da direção de Urbanismo mobilizou mil candidatos. Mas como a prova de conhecimentos de dois dos concursos é no mesmo dia (segunda-feira, dia 2), à mesma hora uma boa parte dos candidatos terá de desistir de um deles.

Consultando o balcão virtual da CMP, surgem nas várias divisões municipais, pelo menos, 16 concursos em andamento para técnicos superiores (35 vagas), com mais de 6000 candidatos admitidos.

O dom da uniquidade

No caso do Urbanismo, o dilema da simultaneidade afeta os engenheiros admitidos às provas de Gestão Urbanística (três vagas) e Redes de Infraestruturas (uma vaga). No primeiro, a que poderiam concorrer também arquitetos, estão inscritos 543. No segundo, reservado a engenheiros, 245. Um terceiro concurso (Cartografia Digital) tem a prova marcada para o dia seguinte.

“Nos requisitos de admissão não constava uma licenciatura em ubiquidade”, ironiza um dos visados pela estranha coincidência. E acrescenta: “É uma forma deliberada e cínica de exclusão, dirigida a um grupo específico e determinado de candidatos, reduzindo-lhe o leque de oportunidades”. No fim, “ficará o registo de que o candidato foi eliminado porque faltou à prova de conhecimentos, como se a culpa fosse dele“.

Um outro visado classifica de “inaceitável” o comportamento da autarquia, que revela “desprezo e desconsideração por quem tinha, legitamamente, expectativas de participar nos dois concursos para que fora admitido”. Seria “mais transparente avisar logo à partida que deveriam optar por uma das inscrições, em vez de criar falsas expectativas”.

No seu caso, ainda telefonou para o balcão de atendimento mas a resposta foi desconcertante. Responderam “para me despachar e sair de uma para outra prova, como se o regulamento não impedisse a entrada 15 minutos depois da hora marcada”.

A conveniência dos candidatos

A Câmara do Porto tem uma visão diferente sobre esta coincidência em provas com o mesmo público-alvo e, em resposta enviada ao Expresso, refere que errado seria, isso sim, ajustar o horários à “conveniência dos candidatos”.

Como “não existe nenhum condicionalismo legal a que um concorrente concorra a um, dois ou todos os concursos abertos”, da mesma “não existe qualquer condicionalismo legal a que o agendamento de provas de diferentes concursos ocorra para o mesmo horário”, diz a CMP.

A edilidade argumenta que “as provas são escalonadas tendo por base a otimização de recursos materiais e humanos e nunca em função dos nomes dos candidatos ou das candidaturas”. Por isso, “condicionar o horário das provas em função da conveniência de um ou mais concorrentes seria, isso sim, uma irregularidade”.

Seis mil candidatos

Nos 16 concursos para técnicos superiores que surgem no balcão virtual da CMP estão registados mais de seis mil candidatos. Há mais casos em que os requisitos são idênticos e os candidatos repetem-se.

O concurso mais concorrido é o da Direção de Recursos Humanos, com 649 inscritos para duas vagas para especialistas em Recrutamento, Seleção e Avaliação de Desempenho. Mas, o domínio de Organização e Gestão é o que conta com mais concursos em diferentes áreas funcionais funcionais, mobilizando, cada um deles, entre 585 e 471 interessados.

Só em três casos o números de inscritos é inferior a 200. Os menos concorridos resultam do Departamento Cultural que vai contratar um gestor de bibliotecas e um animador cultural. No primeiro caso estão inscritos 116, no segundo 121.

Ainda assim, a probalidade de emprego é maior no caso dos 196 candidatos na área funcional de Inovação e Emprrendedorismo (Direção Municipal de Desenvolvimento Social) porque há três vagas disponívéis.