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Padeiro tinha prometido o seu negócio ao sem-abrigo que lhe salvou a vida. Mudou de ideias

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É uma história bem francesa, à qual poderiam fazer justiça certos contistasdo século XIX

Luís M. Faria

Jornalista

Em dezembro passado, Michel Flamant ia morrendo. Este francês de 62 anos, dono de uma padaria em Dole (leste de França), não reparou que o forno recentemente reparado estava a deitar gás. É normal: o dióxido de carbono não tem cheiro, e justamente por isso é tão perigoso. A reparação havia sido mal feita, e Flamant começou a sentir-se tonto. A certa altura, já estava quase a perder os sentidos.

Foi nesse momento que chegou Jerome Aucant, um sem abrigo de 37 anos. Aucant costumava passar pela padaria. O padeiro recebia-o com um café, um croissant e dois dedos de conversa. Tinham-se tornado uma espécie de amigos. Naquele dia fatídico, foi Aucant que, vendo o estado em que o padeiro se encontrava, o arrastou para fora da loja e pediu ajuda, salvando-lhe a vida.

Após quase duas semanas no hospital, Flamant voltou ao trabalho. E resolveu agradecer ao seu salvador com uma atitude drástica: oferecendo-lhe o seu negócio. Mais precisamente, vendendo-lho por um euro. Quando a decisão foi noticiada nos jornais, entrou naquela categoria de histórias que, durante um dia ou dois, parecem tornar o mundo um pouco mais simpático do que normalmente se vê nas notícias.

Um homem que admite ser difícil

Flamant tem três filhas, mas nenhuma está interessada em sucedê-lo. Ele próprio reconhece que não tem um temperamento fácil. Pessoas inteligentes, diz, são as que reconhecem a sua razão. No que respeita a Aucant, propôs-se treiná-lo durante alguns meses, até ele estar em condições de assumir o negócio, o que devia acontecer em setembro. inicialmente, as coisas correram bem, mas o projeto acabou por se gorar.

Nas notícias agora publicadas há duas explicações diferentes, que não se excluem mutuamente. Uma diz que Flamant chegou uma noite à padaria e viu Aucant na companhia de um grupo de sem abrigo amigos dele, todos bêbados. Seguiu-se uma discussão, e Aucant respondeu-lhe torto. Outra versão diz que o sem abrigo tratou mal uma jornalista ao telefone, e também aí houve uma discussão. Aucant, pela sua parte, explica que a pressão dos media foi demais para ele.

A hipótese mais simples - que Flamant, um homem de negócios inveterado, se tenha arrependido da sua decisão logo a seguir a tomá-la - não apareceu referida explictamente pnas notícias. Embora pareça a mais óbvia.