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Dimensão das turmas não pesa nos resultados dos alunos no PISA

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José Carlos Carvalho

Motivação dos professores e actividades extracurriculares ajudam a puxar para cima escolas de contextos socioeconómicos desfavorecidos. Chumbar os alunos e criar turmas de nível tendem a ter o efeito contrário, conclui estudo apresentado esta terça-feira

O que faz uma boa escola? Não será tanto a dimensão média das turmas, nem o número maior ou menos de horas dedicado a uma disciplina. Um novo estudo do projeto Aqeduto, uma parceira entre o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, olhou para a forma como várias características dos estabelecimentos de ensino se relacionam com a evolução dos resultados dos alunos de 15 anos nos testes internacionais do PISA (Programme for International Students Assessment) que avaliam a literacia Matemática e chegou à conclusão que o número de alunos em sala de aula não é um dos factores determinantes.

Olhando para o caso de Portugal, o número médio de alunos por turmas manteve-se nos 22 entre 2003 e 2012. No entanto, os resultados a literacia Matemática medidos pelo PISA subiram 20 pontos. A Finlândia tem das turmas mais pequenas da OCDE (18 alunos em média) e dos resultados mais altos. Mas os seus jovens de 15 anos baixaram o score nos últimos anos. Já a Polónia, um dos países que mais progrediu nesta avaliação praticamente manteve a dimensão das classes (cerca de 23 estudantes), mas subiu para 518 pontos, quando em 2003 estava abaixo da média da OCDE (500 pontos).

Outro exemplo de como o impacto da dimensão das turmas é variável: a Holanda apresenta uma média de 25 alunos por turma e um resultado no PISA de 2012 de 523 pontos. Os números para o Luxemburgo são de 21 estudantes e 490 pontos.

Passando para o número médio de horas dedicado à Matemática por semana no final do ensino básico, num conjunto de 11 países analisados, Portugal destaca-se por ser o que mais tempo consagrava a esta disciplina em 2012: perto de cinco horas por semana. Nos outros Estados, os valores oscilam entre menos de três horas (como a Holanda e a Finlândia) e menos de quatro.

Por cá, aumentou o número de horas (cerca de três em 2003) e melhoraram os resultados no PISA. Mas nos outros países, mais um pouco de tempo dedicado a Matemática não se refletiu em melhores prestações, antes pelo contrário. Foi o caso de Holanda, Finlândia Suécia, República Checa, Dinamarca. Na Polónia, o mais recente caso de sucesso no PISA, a disciplina manteve-se com o mesmo tempo entre 2003 e 2012.

Faltam computadores e aquecimento. Não faltam professores

Quando questionados sobre o que faz falta nas suas escolas, os directores apontaram maioritariamente a carência de computadores em sala de aula, software e aquecimento. Surpreendentemente, apenas 3% consideraram haver falta de professores.

No estudo “O que faz uma boa escola?”, os autores tentaram ainda perceber por que razões escolas em contextos semelhantes, no caso inseridas em meios socioeconómicos desfavorecidos, têm prestações tão díspares. Quase metade (46%) das que têm baixo estatuto socioeconómico e cultural (ESCS) ficaram abaixo dos 500 pontos, tido pela OCDE como a referência para uma aprendizagem bem sucedida. Mas um terço conseguiu no último PISA resultados acima dessa referência.

“Dentro deste grupo há escolas que conseguiam um score médio a Matemática na ordem dos 550 pontos, apesar do ESCS médio ser baixo. Importa compreender quais as estratégias que estas escolas adoptaram para potenciar o sucesso dos seus alunos, enfrentando condições adversas do meio envolvente”, salienta-se no estudo.

De acordo com as percepções dos diretores, é a combinação de professores motivados e valorizados pela direcção, a oferta de actividades extracurriculares e infraestruturas e recursos satisfatórios que ajudam estas escolas a superarem-se.

Por outro lado, as que não conseguem vencer as adversidades do meio tendem a “chumbar mais alunos, a criar turmas de nível a matemática e a investir na formação de professores”. Os autores do documento fazem a ressalva: “Estas práticas, que não serão por si só prejudiciais, estão a ser menos conseguidas no contexto em que se inserem, o que abre espaço para a discussão sobre a sua qualidade e formas de implementação”.

O debate sobre este tema realiza-se hoje ao final do dia no Conselho Nacional de Educação.