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“Vocês voltam amanhã?” Eles ensinaram-lhes a palavra saudade. E levam esperança

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Marcos Borga

Um ano depois do sismo no Nepal, o futuro constrói-se em português – a seis mãos –, a que se juntam outros voluntários. Quase sem ajuda do governo, Pedro, Lourenço e Maria da Paz é que continuam a ajudar a erguer os pilares da esperança de milhares de nepaleses que ficaram desalojados. O lugar deles ainda é lá. Mas precisam de nós

Katmandu, 25 de abril de 2015. Era quase meio-dia. 11h56 para ser mais preciso. Lourenço e Pedro nunca se vão esquecer desse momento. Pela frente tiveram o minuto mais longo das suas vidas. “Sentimos um abanão estrutural. Primeiro não passava disso. Segundos depois percebemos que era um tremor de terra. Ouvimos edifícios a colapsarem, vidros a partirem-se, pessoas a gritar”, recorda ao Expresso Pedro Queirós, de 34 anos.

“Parecia um pesadelo daqueles que nunca vão acontecer. Na altura sentimos um misto de medo, desconforto e ao mesmo tempo adrenalina”, explica por sua vez Lourenço Macedo Santos, de 36 anos. Os dois gestores tinham chegado na véspera à capital do Nepal. Estavam desde janeiro a viajar de mochila às costas pelo sudeste asiático, numa licença sabática para descobrir o mundo. Mas mal sabiam a revolução que este périplo ia fazer nas suas vidas.

Hoje em dia pensam: Azar? Não. “Parece irónico, mas agora entendemos que tivemos a sorte de estar no local certo à hora certa”. O maior sismo que atingiu o Nepal em 81 anos – com uma intensidade de 7,8 na escala de Ritcher e que causou mais de 8 mil mortos e milhares de desalojados – foi para eles um terramoto com o epicentro no coração. “O ambiente era desolador. Era impossível ficarmos indiferentes e de braços cruzados”, afirmam os fundadores da Associação Obrigada Portugal.

Marcos Borga

Pelo meio ficava a viagem. Mas começava outra aventura: a da ajuda humanitária.“Não fazia sentido prosseguirmos com o que estava planeado. Naturalmente não me ia sentir bem a ir para Índia beber cervejas ou ver o Taj Mahal, sabendo o que deixava para trás”, explica Lourenço.

Saíram do hotel por questões de segurança, dormiram ao relento com milhares de outros nepaleses num parque da cidade e refletiram. A ideia era ficar e ajudar. Pelo menos durante mais alguns dias. Depois, a família chegou a comprar-lhes bilhetes de avião para abandonarem o país, mas recusaram a oferta. O desejo continuava a ser ficar, pois percebiam que estavam a fazer a diferença. “Os sorrisos - sobretudo das crianças - eram a maior recompensa. Chegámos a ter filas de 500 metros de pessoas à espera de comida em parques da cidade, os táxis batiam com a carroçaria no chão com tantos quilos de comida...até que conseguimos depois um camião de mercadorias e por fim um helicóptero, quando já se tratavam de toneladas”, conta Pedro.

A pergunta era sempre a mesma. “Vocês voltam amanhã? Sem dúvida, esse foi o principal argumento para ficarem.

365 dias de esperança

Um ano depois do sismo, menos de 5% das casas foram reconstruídas. A agência governamental encarregada de promover a reconstrução não está a aprovar projetos e são várias as ONGs que já saíram ou que estão prestes a deixar o país, os fundos internacionais também não chegam para responder às necessidades mais prementes. Daí não ser exagero dizer que são os portugueses que estão a ajudar a erguer o Nepal – estes voluntários e todas as pessoas que oferecem donativos . O destaque dado pela própria imprensa estrangeira ao trabalho destes amigos é prova disso mesmo.

Aquele que começou por ser um movimento espontâneo de dois amigos portugueses, que decidiram não deixar o Nepal depois da catástrofe, levantando todo o dinheiro que tinham para comprarem alimentos para a população – 50 kg de arroz e 400 bananas – transformou-se em novembro numa Associação. Isto depois de pedirem ajuda aos familiares e amigos no Facebook, que começaram a enviar dinheiro para ajudar Lourenço e Pedro neste sonho. Os relatos diários precisos e bem-dispostos depressa tornaram os posts virais e os donativos dos portugueses não demoraram a chegar.

DR

Depois da ajuda imediata com a entrega à população de bens de primeira necessidade (50 mil pessoas foram ajudadas), estes jovens ajudaram os nepaleses a construírem 22 casas semi-permanentes na vila de Bistagaun, uma iniciativa que batizaram de 'Projeto Saudade'. Entretanto, criaram o Campo Esperança, um campo de desalojados com melhores condições do que os comuns, e trabalham neste momento na concretização do projeto 'Our Dream Village', que consiste no objetivo de recolocar quase 1200 pessoas em 222 casas permanentes nos Himalaias numa vila que contará também com uma escola e um hospital.

Reencontro feliz

Neste projeto mais ambicioso, Maria da Paz desempenha um papel central. A arquiteta, de 34 anos, e amiga do Lourenço de há décadas, deixara o Nepal duas horas antes do terramoto. Estava no Butão com o marido, Walmyr, um geólogo carioca, numa viagem também pela Ásia. “Era uma viagem para descansar e refletir. Não conseguia ter filhos e precisava de viajar pelo mundo. Sei lá, arejar a cabeça. Mas depois das notícias do terramoto fiquei sempre com o pensamento no Nepal. Lembrava-me dos sorrisos das crianças e via os posts entusiasmados do Lourenço e do Pedro no Facebook. Não resisti”, confessa Maria da Paz. Resultado? Duas semanas depois, a arquiteta e o marido regressavam a Katmandu para se juntarem aos amigos na ajuda humanitária.

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Durante 15 dias, Maria da Paz esteve dedicada quase a 100% ao projeto das casas semipermanentes. A ideia, explica, passava por possibilitar a parte da população mais afetada pelo sismo uma construção com dignidade e segurança – com barreiras antisísmicas, quatro pilares de betão armado – que utilizasse materiais locais, que respeitasse as tradições, como o bambú, e que contásse ao mesmo tempo com a colaboração dos próprios beneficiados.

“Não queríamos dar-lhe só peixe, mas ensinar-lhes a pescar. Demos workshops à população e entregámos um manual - tipo Ikea - com todas as instruções da construção”, refere Lourenço.

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Esse foi, mais uma vez, um trabalho de equipa, feito na corrida contra o tempo “Tinhamos que acelerar o processo por causa das monções. Mesmo assim, na fase final ainda apanhámos muita chuva, o que dificultou a colocação dos telhados. Mas lá se fez tudo com esforço”, diz Maria da Paz, elogiando a união da comunidade. A estrutura destas casas permite que os moradores possam beneficiá-las no futuro, substituíndo por exemplo o bambú por tijolos, já que os alicerces estão lá.

Marcos Borga

O tempo não pára

Passaram vários meses, e o inesperado aconteceu. Maria da Paz ficou grávida no último mês que esteve no Nepal. Madalena, que nasce neste verão, será a primeira filha do projeto.

Neste percurso feliz de resposta à tragédia, Pedro e Lourenço também consideram que tiveram sorte. À medida que precisavam de algum tipo de ajuda, apareciam as pessoas certas. “Quando nos faltava alguém, parecia que não tardava em chegar, fosse uma arquiteta, um médico ou um designer”, diz Pedro, entre risos. Ao todo somaram-se mais de 70 voluntários que se juntaram ao projeto durante estes 12 meses no Nepal.

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Tão ou mais importante foi o destino ter cruzado estes dois amigos com Sangita Shreshka, uma nepalesa que é proprietária de um hotel em Katmandu e que também se interessa por causas sociais, estando ligada nomeadamente à Federation of Business and Professional Women Nepal, que defende os direitos da mulher e o seu papel na sociedade. No meio da confusão, no dia seguinte ao terramoto, Pedro e Lourenço conheceram uma espanhola que recomendou que fossem ter com Sangita. Eles acederam e foi a melhor coisa que fizeram.

“Esta senhora foi e é o nosso maior apoio no Nepal. Foi fundamental em todos os nossos projetos, como parceira local, ajudando-nos em termos logísticos e aconselhamento, de forma a ultrapassarmos os obstáculos burocráticos”, refere Lourenço.

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Causa que conquistou os portugueses

De pequenos a graúdos ou mesmo com dificuldades, os portugueses não deixam de ser solidários, acabando sempre por aderir a causas como esta. São muitas as histórias que marcaram estes três voluntários, como a da Pilar. Aos 3 anos, esta menina de sorriso doce e ar traquina é pequena, mas já tem um coração grande. Um dia, o pai perguntou-lhe se estaria disposta a dar uma parte do dinheiro do seu mealheiro para ajudar as vítimas do Nepal. Ao que a criança responde: “Papá, porque é que não pode ser todo? É para ajudar os meninos do Nepal, não é?”. Ou o caso, por exemplo, de uma senhora que contactou Lourenço através do Facebook para dizer que apesar de não ter quase dinheiro para ela e para filha até ao final do mês, tinha feito uma transferência de 5 euros. Ele zangou-se: disse que devia ter guardado esse dinheiro. Pouco depois, ela volta a contactá-lo a dizer que tinha encontrado 5 euros na carteira.

Jose Zambujal

Há ainda o exemplo de solidariedade, coragem e superação de Artur Brito. Este algarvio, de 54 anos, contactou há três meses a Associação Obrigada Portugal para se oferecer para levar a cabo uma missão inédita: partir de mota – uma Honda 125 – numa expedição de solidariedade de Faro até ao Campo da Esperança, no Nepal. A aventura começa precisamente hoje, Dia da Liberdade, e deverá chegar ao fim no próximo dia 10 de junho, Dia de Portugal. Serão 11787 km a serem percorridos por Artur, um antigo motoqueiro que tem uma prótese desde os 25 anos, após ter perdido uma perna num acidente de mota. “Estava a navegar na internet e descobri esta associação, que acho que faz um trabalho notável. Pensei logo que gostaria muito de ser um veículo de comunicação para a captação de mais fundos. E aqui estou eu a começar hoje essa missão”, explica Artur Brito.

DR

Futuro por lá e cá

São histórias como estas que ajudam também Pedro, Lourenço e Maria da Paz a continuar esta missão e que serão relatadas num livro intitulado “Vocês amanhã voltam?”, que deverá ser lançado em maio. Assim como as iniciativas que são promovidas com a ajuda de outros voluntários, como um almoço com a comunidade nepalesa num restaurante típico do país – que permitiu à Obrigado Portugal angariar mais de 600 euros este sábado –, ou um Flash Mob na Rua Augusta, que teve lugar no mesmo dia.

“Nós sem os portugueses ou outras ajudas não somos nada. A continuação deste sonho e o futuro dos nepaleses depende dos donativos - cuja campanha de recolha encontra-se explicada no site www.obrigadoportugal.org -, mas também da boa-vontade dos voluntários, da divulgação na Associação Obrigado Portugal no Facebook ”, garante Lourenço. Mas o futuro da associação passa também por cá, pela aposta nas áreas da educação e da solidariedade, nomeadamente a prevenção de sismos.

Por enquanto, o lugar deles ainda é lá. Ou será sempre lá, entre idas e vindas. Foi com estes três portugueses, que os nepaleses aprenderam a palavra saudade e ganharam esperança no futuro. Eles estão onde precisam deles. Mas para isso também precisam de nós.

  • Os dois amigos que após o terramoto no Nepal decidiram ajudar a salvar um país

    Estavam a viajar pela Ásia quando no dia 25 de abril de 2015 foram apanhados por um forte sismo em Katmandu, capital do Nepal, que atingiu a magnitude 7,9. Uma tragédia que vitimou nove mil pessoas, destruiu 600 mil casas e deixou 23 mil feridos. Após o susto, Pedro Queirós e Lourenço Macedo Santos decidiram interromper as férias para ajudar os nepaleses. Começaram por gastar os cerca de mil euros que tinham para distribuir comida. Depois pediram ajuda nas redes sociais com a campanha “Obrigado Portugal, nós também somos Nepal”. Até agora angariaram mais de 240 mil euros, salvaram milhares de vidas e fizeram obra: criaram um campo de deslocados, ergueram 22 casas e planeiam este ano construir uma aldeia de raiz para albergar mil nepaleses. Esta é uma história de amizade, coragem e esperança que pode ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”